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Silcon Ambiental

Fumaça nas alturas

Publicado em 11 dezembro 2006

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Pesquisadores do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aperfeiçoaram modelos de química da atmosfera que permitem monitorar deslocamentos das nuvens de fumaça de queimadas. A precisão desse monitoramento é fundamental para estudos de mudanças climáticas em escalas regional e global.
Segundo o pesquisador Saulo Freitas, principal autor da nova metodologia, ela oferece resultados mais realistas sobre o deslocamento das nuvens de fumaça, com melhor descrição da distribuição dos gases e aerossóis. "Com a nova parametrização, poderemos acompanhar melhor os processos de produção de ozônio e modificação da estrutura termodinâmica da atmosfera, por exemplo", disse ele à Agência FAPESP.
Freitas explica que o principal problema dos modelos tradicionais é não considerar as grandes altitudes que as nuvens de fumaça podem atingir, limitando-se a acompanhar as partículas que sobem apenas até quatro quilômetros. "Esses modelos funcionam bem apenas para as emissões urbanas, veiculares e industriais, que têm temperatura próxima da ambiente e permanecem rentes à terra", afirmou.
As emissões de queimadas, muito mais quentes, são projetadas verticalmente, alcançando altitudes acima de oito quilômetros. "Em grandes altitudes, os ventos têm maior intensidade e as nuvens podem ser levadas para grandes distâncias, permanecendo também por mais tempo na atmosfera", disse.
Dependendo da latitude, as emissões ultrapassam os 12 quilômetros de altitude, chegando à estratosfera. "Nesse caso, os gases podem dar a volta no planeta. Eles conseguem modificar o balanço de radiação que vem do Sol e chega à superfície, alterando o clima global", disse Freitas.

Repercussão internacional
Todo o processo tem escala muito reduzida em relação aos modelos climáticos tradicionais. As equações que prevêem os movimentos da atmosfera são calculadas matematicamente, a partir de modelos que recortam o espaço em grades de cerca de 100 quilômetros por 100 quilômetros na latitude e longitude e algumas centenas de metros de altura. Mas esses fenômenos se dão em escalas bem menores.
"É dificil incluir os detalhes nesses modelos. O que há de inovador na nova parametrização é a inclusão de uma escala de subgrades, de forma que se consiga capturar a que altura as massas de fumaça serão injetadas e seja possível usar essa informação na escala do modelo global. Os resultados numéricos são mais realistas, considerando os processos físicos e químicos em melhor resolução", disse Saulo Freitas.
A metodologia foi testada, comparando-se previsões com observações empíricas, e sua eficiência foi comprovada: com os novos parâmetros, os modelos conseguem incluir o transporte da fumaça em grandes altitudes, chegando a um resultado muito mais realista. O impacto foi tão grande que a inovação foi incorporada pelos modelos utilizados pelo CPTEC e por entidades como o National Center for Atmospheric Research (NCAR), dos Estados Unidos.
Por aprimorar o acompanhamento das nuvens de fumaça de queimadas, a contribuição dos cientistas brasileiros terá papel decisivo nos estudos sobre as mudanças climáticas, segundo Freitas. "Quando falamos em poluição, logo pensamos na grande cidade. Mas a escala é muito maior nas áreas onde ocorrem queimadas. No Norte, os níveis de concentração de poluentes são de quatro a cinco vezes piores do que em São Paulo", explicou o pesquisador do CPTEC.
O impacto direto na saúde dos indivíduos é maior nas metrópoles, em decorrência da concentração populacional, mas os efeitos no clima global são mais consideráveis na Amazônia. "A concentração de particulados atinge 500 microgramas por metro cúbico no Norte, enquanto chega a 100 em São Paulo apenas nos dias mais críticos", disse Freitas.
O modelo de previsão da poluição atmosférica do CPTEC, com a nova metodologia, está disponível na internet no endereço: www.cptec.inpe.br/meio_ambiente