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Fuga de cérebros tem via na contramão

Publicado em 22 julho 2010

Após carreira de sucesso em um país com tradição acadêmica, um cientista se muda para o Brasil e se torna referência na sua área. Essa trajetória, que pode parecer incomum, é compartilhada por alguns pesquisadores.

Para saber o que trouxe alguns desses cientistas ao país -tradicional exportador de cérebros- a Folha conversou com quatro deles e ouviu suas impressões sobre a ciência nacional.

Se o escritor britânico G. K. Chesterton estava certo ao dizer que é impossível conhecer uma catedral observando-a apenas de dentro, eles estão em posição invejável para comparar a pesquisa brasileira com a estrangeira.

Todos se dizem realizados e otimistas por fazer parte de um período de desenvolvimento acelerado da ciência nacional. Entre os pontos negativos, destacam a burocracia excessiva no país e a falta de valorização do mérito, além do ensino básico ruim.

Não se sabe quantos são os cientistas de vanguarda estrangeiros no país. O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) não tem estatística sobre a nacionalidade de seus pesquisadores, mas diz que o número é "irrisório".

O grupo ouvido pela Folha é heterogêneo -vai de um neurocientista argentino a um físico chinês. Em comum, a competência: todos são bolsistas de produtividade do CNPq, uma espécie de marca da elite acadêmica.

"Excesso de cordialidade do brasileiro atrapalha a pesquisa"

"Enquanto a Argentina está se perdendo nos últimos 35 anos, com uma decrepitude na sua classe média, educação e ciência, o Brasil evoluiu", diz o neurocientista argentino Martín Cammarota. "Há 35 anos mal existia ciência brasileira. A argentina é muito mais antiga, tem cinco prêmios Nobel", diz, aos 41 anos e desde 2002 em Porto Alegre, hoje na PUCRS. Apesar de muito otimista com a ciência brasileira, "que já é a melhor da América Latina", ele acredita que na Argentina se valoriza mais a universidade. "Muitos brasileiros ainda a encaram como uma fábrica de canudos."

Foi na Universidade de Buenos Aires, no doutorado, que conheceu uma gaúcha com quem se casou. Passaram cinco anos na Austrália e, na volta, com a Argentina sob instabilidade econômica, vieram para o Brasil.

"Quando vi, já tinha nascido nossa filha, ela já falava português, tomava chimarrão e torcia para o Inter." Na Copa, porém, ela usa uma camiseta da Argentina, diz ele. Adaptado ao Brasil, ele pensa que o país já atingiu uma massa crítica de cientistas, e que é hora de selecionar os melhores.

"O Brasil tem um enorme complexo de inferioridade, e se colocou na cabeça que o país precisa de uma imensidade de doutores. Precisa é apoiar os que são bons." "O problema é que o brasileiro evita o confronto, é muito diplomático, cordial. Há enorme dificuldade de falar para um aluno que ele não é bom o suficiente. O brasileiro diz "ah, por que não pensas um pouquinho? A ciência talvez não seja para ti. Não estou dizendo que você não serve! Serve, mas veja...""

Outro problema é a pontualidade, diz. "Nesses anos, participei de 45 mil reuniões e nenhuma começou na hora. Aí falamos sobre a Copa, mulheres, Maradona, o tempo acaba e marcamos outra." Ele só não gosta da pecha de argentino. "O que incomoda não é a propaganda da Skol. É a ideia de que, por você ser argentino, não entende os problemas do Brasil. Como se todos tivessem vindo com os portugueses."

"O país não gosta de premiar os melhores e penalizar os piores"

Nathan Berkovits, 49, professor do Instituto de Física Teórica da Unesp, acha que um clima de mais competição entre os pós-graduandos faria bem para o país.

"O aluno americano sabe que vai ter de ser o melhor para conseguir emprego. Há muita pressão sobre ele, mas ele valoriza o estudo, se esforça", diz. "Não que todos os alunos brasileiros sejam relaxados, os melhores daqui são iguais aos melhores de lá. Mas, na maioria dos casos, a atitude é diferente."

Segundo ele, a prática de "premiar os melhores e penalizar os piores", que no Brasil ganhou o apelido de meritocracia, faria bem ao país.

"Entre todos os professores das federais, os salários são iguais, as horas-aula iguais. Não há uma maneira para diferenciar um pesquisador bom de um ruim."

Mesmo prezando essa tradição americana - foi aluno em Harvard, e nas universidades da Califórnia e de Chicago- Berkovitz acabou deixando os EUA. Ainda em sua terra natal, casou-se com uma brasileira. Veio conhecer o país, gostou e ficou, mesmo depois de divorciado.

"Brasileiro trata estrangeiro até melhor do que trata o próprio brasileiro", diz. Isso talvez seja fruto de uma síndrome de inferioridade, apesar de ter impressão que isso está mudando, diz o físico, que chegou ao em 1994. Naturalizado desde 2002, não se considera mais americano.

"O brasileiro acha estranho um estrangeiro querer morar aqui. Mas é um lugar bom para morar se você não é pobre, apesar da violência." O físico se incomoda com o frio de São Paulo. "As casas aqui são construídas para o calor. Nos EUA você não sente frio dentro de casa."

Há onze anos, se casou com outra brasileira. Não pensa, por enquanto, em voltar. "Aqui não existe tanta pressão para fazer o que todo mundo está fazendo. Além disso, algumas coisas melhoraram muito, como o CNPq."

Ele acha que o Brasil não sabe atrair bons cientistas de fora -processos de contratação em português ainda atrapalham numa área onde o inglês já é língua franca.

"Vida de cientista é difícil em todo lugar"

O biólogo alemão Klaus Hartfelder, 55, se mudou da Alemanha há 28 anos. Mesmo tendo saído de um país com invejável tradição científica, diz que sua carreira não teria sido muito diferente se tivesse ficado lá. "Vida de cientista é bonita e difícil em qualquer lugar", afirma.

Se pudesse mudar alguma coisa na ciência brasileira, faria com que os alunos pudessem ingressar na graduação só por volta dos 20 anos: "Faz diferença em termos de maturidade". Além disso, diz, muitas vezes os estudantes precisam de um acompanhamento mais próximo porque não tiveram um ensino médio tão bom.

Algo que o incomoda é a desigualdade do financiamento à ciência. "Existem dois brasis: São Paulo, que tem a Fapesp, e o resto. Mas o CNPq melhorou muito desde que cheguei. Se um cientista brasileiro tem um bom projeto, consegue dinheiro."

Trabalhando com genética de abelhas, o biólogo conheceu o Brasil em 1982. Fixou-se há 12 em Ribeirão Preto (SP), onde é professor da USP. No intervalo, conheceu e se casou, em 1985, com uma brasileira, que não gosta do clima alemão.

No clima tropical do Brasil porém, é preciso enfrentar a burocracia para importar reagentes e materiais biológicos. "É desanimador." Também o incomoda a sensação de que revistas científicas duvidam da ciência do país. Com a experiência de quem já remeteu trabalhos da Alemanha e do Brasil, diz que há preconceito. "Não digo que os editores-chefes se importem com o país, mas funcionários da revista, em primeira análise, costumam preferir os países mais ricos."

"Quem gosta de estudar não é admirado no Brasil"

Guo Qiang Hai, 48, físico chinês que mora em São Carlos (SP) desde 1993, veio para o Brasil sem conhecer ninguém, atrás de uma bolsa na Universidade Federal de São Carlos. Desde 2003 é professor da USP. Adora o país, mas está preocupado.

Tem uma filha de um ano com uma brasileira e acha que as escolas que ela vai frequentar não são tão boas quanto as chinesas. "Na China a escola é em tempo integral, o aluno sempre volta com tarefa. Se precisar, ele estuda no sábado."

Para Hai, a escola chinesa não é melhor apenas que a brasileira. Ele tem outra filha, que estudava na China até o ano passado. Com dificuldades em matemática, tinha um professor particular. Quando a menina se mudou com a mãe (também chinesa) para a Austrália, se tornou a melhor da turma na matéria. "Todos falam para ela "nossa, como você é inteligente"", conta Hai, rindo.

"Além de o professor chinês ganhar bem, os alunos respeitam. Existe uma cultura que valoriza o conhecimento. Aqui não é bem assim. Na TV, parece que só se admira quem participou do Big Brother, tem dinheiro, é modelo. A sociedade não põe na cabeça das crianças que elas têm de estudar."

Isso se reflete na qualidade da pesquisa brasileira, diz Hai. Ainda assim, ele diz que a valorização da ciência tem melhorado: "Em São Paulo, não falta financiamento".

Para o pesquisador é estranho sofrer pouca cobrança. "O docente aqui é funcionário público, não tem tanta pressão como nos EUA ou na China. Aqui existem muitos que se dedicam dia e noite, mas quem não faz nada continua na universidade."

Existem problemas, mas é preciso ressaltar as qualidades do país, diz. "As pessoas são legais, é fácil fazer amizade. Eu gosto muito, gosto do clima. Só português eu achei meio complicado", brinca.

Hai acompanha com otimismo as notícias de seu país. "Quando saí da China para a Europa, em 1988, ela era bem fechada. Hoje mudou muito. Ainda não existem jornais particulares, a TV é estatal. Mas você pode falar com os seus amigos o que quiser. Não é que nem a gente vê na televisão aqui."

Diz se impressionar com o crescimento econômico chinês. "Todo mundo está querendo ficar rico. Deus é grana", brinca. "Se você tem dinheiro, faz o que quiser."

Fonte: Folha de S. Paulo