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Fuga de Cérebros: “o último apaga a luz do aeroporto!”

Publicado em 23 dezembro 2019

Por Fernando Nogueira da Costa

No mês passado, tive uma confirmação de uma impressão: o cientista ou intelectual com possibilidade de emigrar do país para ir trabalhar em outro mais civilizado, não está tendo dúvidas! O fator de repulsão daqui está muito forte!

Uma ex-aluna, hoje colega como professora e pesquisadora de destaque do IE-UNICAMP fez concurso para a UNCTAD e passou entre muitos outros candidatos de todo o mundo. Está se mudando para Genebra, Suíça. Ela tem pós-graduação no exterior e é uma intelectual promissora.

Como ficar em um país onde o ministro da Educação ataca diariamente as Universidades públicas?! Despeja a TV Escola! Desrespeita alunos e professores! Mas não é só ele…

Anai¨s Fernandes e Marcos de Moura e Souza (Valor, 16/12/2019) conta outras histórias.

Foi uma espe´cie de tempestade perfeita o que fez o economista e professor carioca Claudio Ferraz deixar o Rio de Janeiro em julho deste ano, com a fami´lia, para morar e trabalhar em Vancouver, no Canada´, sem data para voltar. Limitac¸o~es para desenvolver pesquisa, polarizac¸a~o poli´tica, mudanc¸as no governo e escalada da viole^ncia esta~o entre os motivos que levaram Ferraz a aceitar um posto de professor na University of British Columbia – ale´m, claro, da possibilidade de interca^mbio profissional.

Ferraz, que tem artigos publicados em perio´dicos internacionais de presti´gio como a “American Economic Review” e o “Quarterly Journal of Economics”, ja´ havia recebido convites para sair do Brasil anteriormente, mas preferiu ficar. “Meu foco para analisar o mundo e´ atrave´s do Brasil, trabalhando com dados, analisando poli´ticas pu´blicas. Sempre tive a vantagem de estar perto de onde as coisas acontecem. E tem aquilo de fazer pesquisa com algum impacto no pai´s, voce^ sentir ter uma dimensa~o u´til. Isso sempre me atraiu ao Brasil”, diz.

O que aconteceu nos u´ltimos anos que o levou, desta vez, a uma decisa~o diferente? “A primeira coisa foi a mudanc¸a poli´tica que comec¸ou no governo da Dilma [Rousseff], depois com o impeachment, que e´ essa crescente polarizac¸a~o e as va´rias conseque^ncias no dia a dia, desde brigas familiares ate´ o estresse dia´rio”, diz Ferraz.

A polarizac¸a~o foi seguida por um governo, sob a lideranc¸a de um capitão reformado. Na visa~o do economista, torna difi´cil acompanhar os jornais. “Ter de acordar todos os dias e ler o que tem sido feito em ambiente, educac¸a~o, para quem trabalha com educac¸a~o superior, pesquisa, e´ deprimente. O sentimento e´ de um pai´s indo para o mais baixo nível.”

Compartilho o mesmo sentimento. Como brasileiro de esquerda e cruzeirense, eu não aguento mais ler jornal ou ver TV! É difícil escolher o que esquecer!

A histo´ria de Ferraz e´ representativa de um feno^meno de captac¸a~o pouco trivial, mas ele se acentuou durante a u´ltima crise econo^mica e tem deixado especialistas em alerta a respeito de um novo fo^lego neste ano: a fuga de ce´rebros, isto e´, a sai´da definitiva do pai´s de profissionais de alta qualificac¸a~o.

Desde 2015, quando a economia mergulhou em recessa~o, o nu´mero de sai´das definitivas do Brasil esta´ acima dos 20 mil a cada ano. Antes disso, vinha subindo, mas na~o passava de 15 mil. Em 2018, 22,4 mil pessoas entregaram declarac¸o~es de sai´da definitiva do Brasil, segundo apurac¸a~o dos te´cnicos da Receita Federal ate´ novembro deste ano – ainda na~o existem dados para 2019.

O perfil de migrantes observado por advogado de Orlando, na Flo´rida, assessorando brasileiros nos tra^mites de vistos para os Estados Unidos, é: “Sa~o pessoas de sucesso e que se mudam do Brasil em raza~o, principalmente, da inseguranc¸a. Sa~o fami´lias de classe me´dia e me´dia alta, muitos profissionais liberais e empresa´rios. O que eu vejo e´ que o Brasil vem perdendo um tipo de ma~o de obra importante.”

Houve um aumento claro nos u´ltimos anos de pessoas mais qualificadas. “Pessoas com mestrado, doutorado, com carreira so´lida no Brasil, com filhos e que parecem que deixaram de acreditar no Brasil”. Sua carteira de clientes inclui executivos de multinacionais, engenheiros, profissionais da a´rea me´dica e especialistas em come´rcio exterior.

A Flo´rida continua sendo o destino favorito dos brasileiros. O Estado da Califo´rnia e tambe´m a regia~o de Boston, no Estado de Massachusetts, sa~o outros dois destinos tradicionais.

Para quem tem dupla cidadania, detendo passaporte italiano, uma alternativa tem sido requerer o visto para habitantes de pai´ses com os quais os EUA te^m acordo comercial. O Congresso americano estuda incluir Portugal nessa lista, aumentando muito a possibilidade de aplicac¸a~o de brasileiros descendentes de portugueses com dupla cidadania.

Outro grupo busca vistos como o EB-5. Ele da´ direito de reside^ncia permanente a estrangeiros que investirem no pai´s. Dados do Departamento de Estado americano mostram: as concesso~es a brasileiros subiram para 230 de janeiro a outubro deste ano, ante igual peri´odo de 2018, uma alta de 58%. Em novembro, o investimento mi´nimo exigido passou de US$ 500 mil para US$ 900 mil.

Aumentou tambe´m a procura de brasileiros por vistos de emprego como o EB-2, para “trabalhadores com habilidades excepcionais”. “Ele tem crescido muito porque os requerimentos sa~o mais atingi´veis do que aqueles do EB-1”, diz um so´cio da JBJ Partners, especializada em expatriac¸a~o para os EUA. A concessa~o de EB-2 a titulares brasileiros e seus familiares saltou para 192 de janeiro a outubro deste ano, ante 44 em 2018. O EB-3, para “trabalhadores qualificados, profissionais e outros trabalhadores”, avanc¸ou 47%, de 129 para 190.

“Tem muita gente do Brasil emigrante com ensino superior, mas vai atuar em parte administrativa de empresas ou eventualmente ate´ em empregos que na~o sa~o de ensino superior”, diz Ana Maria Carneiro, pesquisadora do Centro de Estudos de Poli´ticas Pu´blicas (NEPP) da Unicamp. Ela coordena um projeto de pesquisa, em fase inicial, para buscar compreender a trajeto´ria de cientistas brasileiros radicados nos EUA. Segundo Carneiro, em comparac¸a~o com outros pai´ses, como I´ndia e China, a dia´spora de ce´rebros brasileira na~o e´ ta~o expressiva numericamente.

Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Cie^ncias (ABC) e professor da Escola de Fi´sica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa: no campo cienti´fico, a fuga de ce´rebros e´ uma questa~o mais qualitativa. Ele cita a sai´da recente de quatro jovens pesquisadores da UFRJ, que tinham lideranc¸a em suas a´reas, para pai´ses como Chile, Holanda, Austra´lia e Portugal. “Sa~o jovens em idade muito boa para criar. Perder esse pessoal e´ ruim, prejudica o investimento que o Brasil faz nesses jovens. Agora va~o usar suas capacidades para outros pai´ses. Talvez depois eles voltem, mas o prejui´zo e´ grande no curto e me´dio prazos”, afirma.

Seguir uma carreira acade^mica no Brasil e´ estar sempre lutando contra uma se´rie de barreiras. Sa~o dificuldades, por exemplo, de obtenc¸a~o de recursos e de planejamento de longo prazo por parte das age^ncias de fomento. ”Aqui [no Canada´] e´ o contra´rio, o gasto com pesquisa cienti´fica e´ significativo, entidades se dedicam a isso, a pesquisa esta´ acontecendo, as pessoas esta~o produzindo”, afirma.

Há pouco caso do governo de extrema-direita em relac¸a~o a` importa^ncia da cie^ncia em todas as dimenso~es porque vê todas as pessoas inteligentes posicionadas à esquerda. Nisso ele tem razão… Mas sua ideologia está destruindo a Nação.

Não é só ele. Quando a gente tem uma “grande imprensa” sem nenhum pluralismo, percebemos não ter espaço para um debate amplo e democrático com opiniões diversas.

Na Economia, diariamente, vemos ataques dos neoliberais aos economistas desenvolvimentistas em suas colunas onde publicam seus panfletos. Não há direito de resposta nas mesmas condições.

Por exemplo, hoje (Valor, 16/12/19), mais uma vez um pretenso economista, professor fracassado e ministro demitido do governo FHC por vazamento de informações privilegiadas, durante a privataria tucana, anuncia apoio ao governo de extrema-direita em favor de pretensos benefícios à sua casta de mercadores. Ele é, atualmente, presidente do Conselho da Foton Brasil.

Diz: “Uma marcha insensata chega ao fim. O Brasil, diante de uma situac¸a~o grave como a que passamos, se une e apoia os governantes que lutam para supera´-la. Foi uma longa, difi´cil, injusta para com os mais pobres, e, ate´ agora, pouco compreendida marcha para escapar do buraco negro na economia, criado pela incompete^ncia do PT e seus governantes”. Ele se refere, até hoje, mais de 3 anos depois do golpe, “à marcha da insensatez que tomou conta do governo Dilma desde o primeiro dia de seu mandato”.

Na verdade, é uma desculpa por conta de ter caído sua máscara de centro-esquerda, com a qual escondia antes seu oportunismo para obter benesses pessoais.

Os fracassos empresariais do setor privado buscam bodes-expiatórios.

Por exemplo, o ambicioso projeto de produc¸a~o de celulose em plena floresta amazo^nica idealizado pelo biliona´rio americano Daniel Keith Ludwig esta´ agonizando. Com di´vida declarada de R$ 1,75 bilha~o, recuperac¸a~o judicial suspensa e sem recursos para pagar seus 750 funciona´rios diretos, a Jari Celulose, Papel e Embalagens suspendeu por prazo indeterminado as operac¸o~es da fa´brica de Monte Dourado, entre os estados do Para´ e do Amapa´. E pode fechar definitivamente, em alguns poucos meses, se as condic¸o~es na~o melhorarem.

Iniciado em 1967, o projeto Jari nasceu com a proposta de se tornar um megaempreendimento industrial e agri´cola em uma a´rea de 1,6 milha~o de hectares, isolada da floresta. Duas de´cadas depois, a fa´brica e uma termele´trica montadas sobre plataformas flutuantes no Japa~o chegaram a`s margens do rio Jari, apo´s tre^s meses de viagem pelo mar, e deram ini´cio a` etapa industrial do projeto, agora em risco. Se´rgio Amoroso, empresa´rio paulista que era dono do grupo Orsa, assumiu seu controle em 2000.

Outro exemplo, apo´s duas grandes trage´dias ambientais e sociais – em Mariana, 2015, e Brumadinho, neste ano -, a principal entidade representativa da indu´stria de minerac¸a~o no Brasil, o IBRAM, teve de fazer va´rias mudanc¸as no seu modelo de gesta~o, bem como democratizar a participac¸a~o das empresas associadas nas deciso~es. A imagem da minerac¸a~o ficou bastante arranhada, no pai´s e no exterior, assim como a do pro´prio instituto, que faltou lideranc¸a mais ativa nas duas crises.

A indu´stria de minerac¸a~o brasileira e´ formada por 9,4 mil minas, operadas por 7.638 empresas, sendo 87,3% microempresas, 11,5% na classe de pequenas e me´dias e apenas 1,6% qualificadas como grandes. O setor no pai´s – grande produtor de mine´rio de ferro, nio´bio, bauxita e caulim e exportador de estanho, ni´quel, magnesita, mangane^s e ouro, entre outros minerais – responde por 199 mil empregos diretos. O saldo da balanc¸a comercial, neste ano, devera´ fechar em US$ 23,5 bilho~es.

Os investimentos previstos pelas mineradoras instaladas no pai´s no peri´odo de 2019-2024 sa~o de US$ 27,5 bilho~es (no quinque^nio 2018-2023 estavam estimados em US$ 19,5 bilho~es. “Mas, para se concretizarem, e´ preciso ambiente de seguranc¸a juri´dica e previsibilidade”, senão não conseguem “vender o País”!

A entidade passa a ter posicionamento contundente em relac¸a~o a` atividade garimpeira. “Tem de haver regulamentac¸a~o para os garimpos, minerac¸a~o feita por uma ou poucas pessoas”, diz seu dirigente. Segundo ele, e´ preciso diferenciar grupos organizados de minerac¸a~o, com CNPJ, dos “donos de garimpos”. Estes reu´nem dezenas de direitos de lavra e terceirizam a atividade, com elevada atuac¸a~o informal. E quase nada de preocupac¸a~o com os danos ambientais causado. E a maior mineradora, a Vale, é diferente?

Querem vender barato o País. Procuram facilitar a coisa. Entre as metas trac¸adas para o pro´ximo ano, o Instituto Brasileiro de Minerac¸a~o (Ibram) elencou um plano para ampliar a atrac¸a~o de investimentos para o setor mineral do pai´s. Para isso, o Ibram estuda trazer para o pai´s uma estrutura de mercado de capitais dedicada ao setor. O modelo seria as bolsas do Canada´ e da Austra´lia. Sa~o dois grandes pai´ses da minerac¸a~o, onde o lanc¸amento de ac¸o~es, principalmente de empresas menores, as chamadas junior companies, atraem investimentos. A bolsa canadense fica em Toronto e a Australian Stock Exchange (ASX) em Sidney.

O Brasil e´ li´der e esta´ entre os grandes produtores mundiais de alguns minerais, como nio´bio, mine´rio de ferro, vermiculita, grafita, bauxita e caulim, no entanto, e´ importador em outros, caso de cobre, enxofre, tita^nio, fosfato, zinco. E tem uma grande depende^ncia de carva~o metalu´rgico, pota´ssio e terras raras.

Segundo dados das bolsas canadenses especializadas em minerac¸a~o, a Toronto Stock Exchange (TSX) e TSX Venture Exchange, o volume negociado ate´ 31 de outubro chegou a 35 bilho~es de do´lares canadenses e foram feitos 1.017 financiamentos. Em janeiro de 2018, essas duas bolsas, juntas, abrigavam 5.677 projetos de minerac¸a~o no mundo.

A especulação com o ganho de capital ao se vender barato o país, aproveitando a depreciação da moeda nacional, grassa solta.

Com o do´lar acima de R$ 4 e a perspectiva de crescimento do setor de 9% neste ano e acima de 10% em 2020, o Brasil tem se tornado atrativo para investimentos no mercado farmace^utico. Ha´ muitos ativos baratos sendo negociados. Em quatro operac¸o~es, no balca~o de vendas, podem ser gerados cerca de R$ 5,5 bilho~es.

“O Brasil esta´ barato com o ca^mbio neste patamar ale´m de ter um mercado em crescimento. Isso atrai principalmente investidores estrangeiros. Esse movimento deve permanecer no ano que vem. As perspectivas sa~o boas”, disse o presidente executivo do Sindicato da Indu´stria de Produtos Farmace^uticos (Sindusfarma).

Um nego´cio possível de sair ainda neste ano e´ a venda da fami´lia Buscopan pela Boehringer Ingelheim (BI). A disputa ficou concentrada agora entre os laborato´rios france^s Sanofi e a americana Procter & Gamble (P&G), sendo a companhia europeia com prefere^ncia de compra. A brasileira Unia~o Qui´mica desistiu do nego´cio apo´s oferecer R$ 500 milho~es e na~o acompanhar propostas maiores feitas pelas concorrentes. A transac¸a~o envolveria entre R$ 750 milho~es e R$ 1 bilha~o. As vendas do Buscopan chegam a cerca de R$ 300 milho~es por ano.

O nego´cio mais recente fechado foi a compra da farmace^utica Biotoscana pela canadense Knight Therapeutics, em outubro. Foi uma surpresa. Primeiro por ser uma empresa sem atuac¸a~o no Brasil. E, segundo por ter pagado um pre^mio de 8,5 vezes o lucro antes dos juros, impostos, depreciac¸a~o e amortizac¸a~o (Ebitda, na sigla em ingle^s). A canadense comprou 51,21% do capital da companhia por R$ 595,6 milho~es, ou R$ 10,96 por ac¸a~o.

Quando a disputa pelo ativo se iniciou, o grupo de controladores, inclusive a Advent International e a Essex Woodlands, esperava alcanc¸ar R$ 16 por papel.

O ativo mais recente colocado a` venda a´ a linha de dermocosme´ticos GlaxoSmithKline (GSK). Ela quer se desfazer das marcas Fisiogel, Spectraban, Acne- Aid, Sunmax e Clindo no Brasil. Comec¸ou a abordar potenciais interessados. A estimativa do mercado e´ esse nego´cio movimentar R$ 1 bilha~o. Farmace^uticas brasileiras, como EMS e Hypera, e empresas de cosme´ticos e beleza, como Natura e grupo Botica´rio, esta~o entre as companhias com quem a GSK esta´ iniciando conversas. O processo esta´ na fase inicial e e´ coordenado pela assessoria financeira Greenhill.

A Ame´rica Latina desperta o interesse do mundo inteiro em func¸a~o de ter um mercado com alto potencial de crescimento, em detrimento de mercados mais maduros como o europeu e o americano. Ha´ oportunidade para crescimento na regia~o, afinal, sa~o 650 milho~es de habitantes. Ale´m disso, as farmace^uticas podem investir em melhoria de acesso, incremento em atividades ba´sicas ou em a´reas terapeuticas especi´ficas. Ha´ muito espac¸o para crescer na regia~o carente de saúde.

Este e´ o momento quando as empresas esta~o definindo os valores de investimento para os pro´ximos anos. Por isso, vemos tantos ativos colocados a` venda. As empresas definem os seus planos agora. Essa e´ a hora de vender e comprar.

Outra empresa multinacional colocou os ativos OTC na Ame´rica Latina: a japonesa Takeda. Quatro grupos farmace^uticos esta~o mais avanc¸ados nessa disputa. As brasileiras EMS e Unia~o Qui´mica, a italiana Menarini e a uruguaia Mega Labs esta~o na fase final de propostas pela fabricante do Neosaldina.

As ofertas das quatro interessadas avaliam o nego´cio em torno de US$ 700 milho~es, ou R$ 2,8 bilho~es, segundo fontes, menos em relação à estimativa inicial da Takeda de obter US$ 1 bilha~o pelos ativos. O desconto aconteceu porque a japonesa perdera´ pelo menos duas licenc¸as de medicamentos na Ame´rica Latina – o Noripurum, indicado para o tratamento de anemias e deficie^ncia de ferro, pertencente à suíça Vifor, e o Alektos, um reme´dio para alergia, da espanhola Faes Farma.

As grandes empresas multinacionais esta~o cada vez mais colocando os seus esforc¸os em medicamentos inovadores, deixando espac¸o para o crescimento de atuac¸a~o das nacionais e ou menores em medicamentos maduros. A indu´stria farmace^utica tem essa caracteri´stica de muita fusa~o e aquisic¸a~o. Esse movimento devera´ permanecer nos pro´ximos anos, enquanto aqui não se desenvolve pesquisa básica.

O lastimável ano de 2019 é narrado como tivesse havido uma melhora no cena´rio local, com aprovac¸a~o da reforma da Previde^ncia, taxa de juros ba´sica (Selic) no menor patamar histo´rico, em 4,5% ao ano, e retomada imaginária da economia. Esses fatores ilusórios e o choque de demanda provocado pela troca de renda fixa por renda variável levaram o Ibovespa para o recorde de 112 mil pontos.

Mas, para o rali prosseguir nas u´ltimas semanas do ano, sa~o necessa´rios novos catalisadores para um impulso adicional do principal i´ndice da bolsa. O elemento necessa´rio, agora, vem do exterior: a confirmac¸a~o do ta~o esperado acordo comercial entre China e Estados Unidos. Mas, a julgar pelo noticia´rio , alguns ilusionistas ainda veem espac¸o para o Ibovespa atingir os 120 mil pontos, uma das projec¸o~es mais otimistas trac¸adas no comec¸o deste ano. O Ibovespa esta´ 6,6% distante dos 120 mil, considerando-se os 112.565 pontos, novo recorde atingido na sexta-feira.

“A gente avanc¸ou muito no cena´rio local, com reforma da Previde^ncia e queda da Selic. Tudo no ambiente local esta´ positivo e tem espac¸o para 120 mil pontos”, comentou um alienado responsa´vel pela mesa de renda varia´vel do BTG Pactual digital.

“Nosso diferencial e´ sermos um dos u´nicos emergentes fazendo sua lic¸a~o de casa”, diz o ideólogo. “Dever de casa” é dobrar a espinha, ser submisso aos EUA e levar seguidos “passa-fora, moleque”?!

Não têm nenhuma sensibilidade para os sentimentos da sociedade pobre. A “gota-d’água” já está anunciada para haver uma explosão social.

Se a PEC do Pacto Federativo ja´ estivesse valendo, ao menos oito Estados – Tocantins, Maranha~o, Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goia´s – poderiam ter acionado no decorrer deste ano o gatilho para aplicar medidas de reduc¸a~o de gastos. Entre elas, a reduc¸a~o de jornada de trabalho em ate´ 25%, com diminuic¸a~o proporcional de sala´rios.

Integrante do chamado pacote Mais Brasil [ironia], a PEC 188/2019 estabelece medidas de reduc¸a~o de despesas a serem aplicadas pelo Estado em situac¸o~es de agravamento do quadro fiscal. No caso de Estados e munici´pios, isso se daria quando, no peri´odo de 12 meses, for apurada despesa corrente maior que 95% da receita corrente. A proposta foi encaminhada pelo governo federal ao Senado no me^s passado.

A falta de sensibilidade para com os servidores públicos, entre os quais pesquisadores científicos, é patente. Os ignorantes não veem ou não se importam com o destino das Universidades públicas e a consequência de seus desmantelamentos, inclusive com fuga de cérebros.

Por exemplo, na~o ha´ como ignorar o avanc¸o da intelige^ncia artificial (IA) ao redor do mundo. Estima-se esse mercado crescer a um ritmo de 46,2% ao ano, com expectativa de chegar a US$ 52 bilho~es em 2021, conforme previsa~o da consultoria IDC. No ano passado, os gastos mundiais com IA bateram US$ 24 bilho~es. A cifra reflete um potencial a ser explorado, mas tambe´m exige profissionais qualificados.

O Brasil tem sofrido com a escassez de talentos na a´rea de tecnologia, e em IA na~o e´ diferente. De olho nisso, universidades, empresas e entidades de fomento a` pesquisa se unem para capacitar ma~o de obra e, principalmente, formar um elo mais pro´ximo entre a academia e o mercado de trabalho.

Em outubro deste ano, foi anunciado o Centro de Pesquisa em Engenharia em Intelige^ncia Artificial, projeto capitaneado pela Universidade de Sa~o Paulo (USP), IBM e Fundac¸a~o do Amparo a` Pesquisa do Estado de Sa~o Paulo (Fapesp). Com ini´cio das atividades previsto para o comec¸o de 2020, o centro tera´ investimento anual de cerca de US$ 20 milho~es por um peri´odo de ate´ dez anos. A IBM e a Fapesp destinara~o, cada uma, ate´ US$ 500 mil por ano para o projeto. Ja´ a USP vai investir anualmente ate´ US$ 1 milha~o, considerando estrutura fi´sica, laborato´rios, professores, te´cnicos e administradores.

“Nos EUA, na Europa e no Japa~o, ja´ existem va´rios centros de intelige^ncia artificial. O centro surgiu para que o pai´s avance e continue investindo para que na~o sejamos somente consumidores de IA, mas tambe´m produtores. Temos todas as condic¸o~es”, explica o professor Fernando Santos Oso´rio, coordenador de difusa~o e comunicac¸a~o do nu´cleo de Sa~o Carlos do Centro de IA e professor do Instituto de Cie^ncias Matema´ticas e de Computac¸a~o (ICMC), da USP, em Sa~o Carlos.

O projeto tera´ como sede o Centro de Pesquisa e Inovac¸a~o InovaUSP, na Cidade Universita´ria, em Sa~o Paulo. Havera´ ainda uma estrutura fi´sica em Sa~o Carlos, explica Oso´rio. A iniciativa reu´ne mais de 60 pesquisadores da USP e outras instituic¸o~es, como a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), de Piracicaba, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pontifi´cia Universidade Cato´lica de Sa~o Paulo (PUC-SP), Centro Universita´rio FEI e Instituto Tecnolo´gico de Aerona´utica (ITA). “Tivemos uma apresentac¸a~o recente para a comunidade e estamos comec¸ando a fazer reunio~es de alinhamento”, diz o professor.

Entre as a´reas priorita´rias do centro esta~o soluc¸o~es e servic¸os em li´ngua portuguesa, como interpretac¸a~o de texto e reconhecimento de voz. Significa, por exemplo, estudar e aplicar te´cnicas avanc¸adas de machine learning para melhorar o aprendizado da li´ngua. A ideia e´ tambe´m desenvolver pesquisas sobre aplicac¸o~es de IA no agronego´cio, como agricultura de precisa~o e integrac¸a~o de dados no campo, com o objetivo de melhorar a produtividade e reduzir o consumo de defensivos agri´colas. “Em Sa~o Carlos, temos uma parceria importante com a Embrapa”, conta Oso´rio. Os demais campos de estudo incluem sau´de, com e^nfase na prevenc¸a~o de acidente vascular cerebral (AVC), e recursos naturais, com pesquisas sobre explorac¸a~o de o´leo e ga´s.

O projeto preve^ tambe´m formac¸a~o de ma~o de obra por meio de cursos e workshops, assim como a divulgac¸a~o e difusa~o de informac¸o~es sobre IA, por meio de publicac¸o~es em redes sociais e vi´deos, ale´m de ac¸o~es para atingir desde alunos de ensino me´dio ate´ idosos. “No´s precisamos de gente conhecendo e na~o tendo medo de intelige^ncia artificial. Hoje tem muita ficc¸a~o cienti´fica. E´ necessa´rio haver um esclarecimento a` populac¸a~o”, diz Oso´rio.

A aproximac¸a~o entre a academia e o setor privado e´ o foco do Advanced Institute for Artificial Intelligence, criado este ano por pesquisadores de 15 entidades, incluindo universidades e institutos de pesquisa, entre elas Universidade Federal de Sa~o Paulo (Unifesp), Universidade Federal de Sa~o Carlos (UFSCar), Pontifi´cia Universidade Cato´lica do Parana´ (PUC-PR), USP, Unesp, Unicamp e FEI.

Os pesquisadores atuara~o de acordo com as demandas das empresas, explica o cofundador do projeto, Se´rgio F. Novaes, fi´sico e professor titular da Universidade Estadual de Sa~o Paulo (Unesp). “Temos hoje nas universidades pesquisas de alti´ssimo ni´vel em IA, e tudo que esta´ em volta como machine learning, reconhecimento facial e de voz. Por outro lado, existe uma demanda enorme do setor privado”, diz.

Segundo ele, executivos de C-level esta~o aturdidos com a mudanc¸a ra´pida nas tecnologias e, ao mesmo tempo, te^m dificuldade para encontrar profissionais qualificados no mercado. A falta de capacitac¸a~o atinge, inclusive, a chefia das organizac¸o~es. “Os conceitos ba´sicos de IA, machine learning e deep learning ja´ sa~o dados academicamente. Enta~o, do que o setor privado esta´ precisando?”

Ha´ cerca de seis meses, o instituto iniciou uma parceria com a Federac¸a~o das Indu´strias do Estado do Parana´ (Fiep) para oferecer a`s empresas cursos de aplicac¸o~es em processamento de imagens, projetos aplicados de machine learning, redes neurais avanc¸adas, aprendizagem estati´stica e ana´lise explorato´ria de dados.

Outro projeto – previsto para comec¸ar em janeiro de 2020 – e´ em conjunto com a Serasa Experian para ana´lise de fraudes no sistema ele´trico por meio de imagens de sate´lite.

Sem sede fi´sica, o projeto funcionara´ em espac¸os de coworking de empresas e universidades que apoiarem a iniciativa. O modelo de atuac¸a~o copia iniciativas pioneiras em outros pai´ses, como o Canada´. O pai´s mante´m, desde 1982, o Canadian Institute for Advanced Research (Cifar), uma rede de mais de 400 pesquisadores de 22 pai´ses.

O professor diz o Canada´ ser um dos pai´ses mais avanc¸ados em poli´tica de Estado para IA. Lembra, p.ex., tre^s pesquisadores canadenses (Geoffrey Hinton, Yann LeCun e Joshua Bengio) ganharam este ano o Pre^mio Turing, uma espe´cie de Nobel da computac¸a~o, pelo trabalho com redes neurais. “O Canada´ tem pelo menos quatro hubs nessa a´rea, em coworkings. Sa~o 650 startups com soluc¸o~es de IA”.

Outra iniciativa na a´rea e´ o Centro de Inovac¸a~o em Intelige^ncia Artificial, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), projeto originado ha´ cerca de um ano a partir de um grupo de professores capazes de estudar IA no programa de po´s-graduac¸a~o em computac¸a~o da instituic¸a~o. O foco e´ inovac¸a~o, com difusa~o de conhecimento cienti´fico em IA para o setor privado.

“As empresas ja´ investindo em soluc¸o~es de IA va~o se beneficiar desse crescimento, enquanto as que esta~o atrasadas va~o ter uma queda na competividade”, avalia Ricardo Matsumura Araujo, coordenador do projeto e professor do Centro de Desenvolvimento Tecnolo´gico da UFPel. O objetivo e´ informar a sociedade a respeito dos limites de uso da tecnologia, como replicar preconceitos humanos nas ma´quinas.

Uma das primeiras ac¸o~es foi comec¸ar a oferecer, a partir do segundo semestre de 2019, uma disciplina optativa de IA para alunos de diversos cursos, na~o apenas de tecnologia. “Estamos submetendo o projeto ao conselho superior de ensino, pesquisa e extensa~o”, explica Araujo. Entre os pilares de atuac¸a~o do centro esta~o inovac¸a~o, pesquisa e desenvolvimento, capacitac¸a~o e divulgac¸a~o. “Temos planos de oferecer cursos de curta e me´dia durac¸a~o, ale´m de palestras e workshops sobre questo~es e´ticas para a sociedade.”

Enquanto isso acontece, o governo do capitão dispensado e seu ministro sem educação jogam contra… Com a cumplicidade da casta dos mercadores!

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