Notícia

Correio de Uberlândia

Frutos e folhas que geram saúde

Publicado em 22 junho 2008

Por Dolores Mendes

Semente de alface, moringa e camucamu são distribuídas no campus Umuarama

Um coquinho do cerrado e uma alface que auxiliam no crescimento de ossos, pele, cabelos e dentes. Folhas de uma árvore que ajudam a regular a taxa de açúcar no sangue e reforçam o sistema imunológico. Uma fruta que combate gripes, resfriados e hemorragias. Ricas em vitaminas, as plantas do pesquisador Warwick Estevam Kerr começam a se multiplicar pelo País.

Na Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, a moringa, uma árvore de pequenas folhas, enfeita as laterais e se dissemina pelos municípios. Kerr trouxe dos Estados Unidos as primeiras sementes. “Tem muitas moças por aí ampliando as pesquisas”, diz o professor, de 86 anos, ao referir-se às pesquisadoras que, orientadas por ele, começam a melhorar a alimentação do povo brasileiro usando plantas ricas em vitaminas.

“Essa é a minha paixão”, afirmou o professor, mostrando a árvore florida. A moringa é, segundo ele, uma fonte completa de energia. O arbusto, que chega a cinco metros de altura, tem folhas que contêm uma dose elevada de vitamina A — 22 mil unidades em 100 gramas mais vitaminas B e C. “Com todo esse potencial, ela é fabulosa para a alimentação.”

As folhas podem ser servidas na forma de salada, refogados ou batida com sucos e vitaminas. Já são mais de 500 mil árvores plantadas no Triângulo Mineiro e outras que o professor já não sabe precisar em várias regiões do País.

Os pesquisadores que acompanham o professor Kerr “atuam como os polinizadores”, disseminando sementes de moringa por onde passam. Em Uberlândia, as sementes são distribuídas no bloco 3-E em frente à biblioteca do campus Umuarama.

A moringa está em flor e somente em novembro dará novas sementes para que a distribuição comece a ser feita pelo pessoal dos laboratórios de Genética.

Alface

No mesmo local, a população pode buscar sementes da alface supervitaminada “Uberlândia” e outras plantas ricas em vitaminas como o yacón e o camucamu. A alface “Uberlândia 10 mil” é uma cultivar desenvolvida pelo professor Kerr, por meio do melhoramento genético clássico. Considerando que a alface é uma das 10 hortaliças mais consumidas no Brasil e é a preferida pelas crianças, ele cruzou as cultivares “Moreninha de Uberlândia” e a “Vitória de Santo Antão” e conseguiu uma espécie de alface com 10,2 mil unidades de vitamina A.

Uma alface comum possui entre 500 e 1,5 mil unidades de vitamina A. A “Moreninha de Uberlândia” tem uma quantidade maior — 4,5 mil unidades —, mas, até então, não se tinha notícia de uma cultivar de alface com mais de 10 mil unidades de vitamina A.

Na busca por enriquecer a alimentação dos brasileiros, o professor Kerr continua orientando trabalhos de adaptação de plantas da região amazônica para o cerrado mineiro. Quando mostra o yacón, da família do girassol e original do Equador, o professor não esconde o prazer de ter introduzido em Uberlândia uma raiz com aparência de batata-doce, gosto de fruta e que, apesar de bem docinha, não contém açúcar e sim inulina (substância orgânica de composição semelhante à do amido), o que é ideal para a alimentação dos diabéticos.

O camucamu, que nasce nas margens do rio Amazonas e tem uma frutinha parecida com a jabuticaba, é um verdadeiro tesouro vitamínico. Segundo o pesquisador, “é a planta que tem mais vitamina C entre todas descobertas até hoje, inclusive a acerola”. A polpa da fruta apresenta 3.200 mg de vitamina C por 100 g, enquanto a acerola tem de 1.200 a 1.300 mg por 100 g. 

 Jardim na casa do pesquisador é um laboratório

Warwick Estevam Kerr chega aos 86 anos com o vigor de um pesquisador que não se cansa de pensar na população. “Sou agrônomo, penso na alimentação das pessoas”, afirmou. No jardim da casa do pesquisador, cada planta tem sua função. “O picão amarelo é importante porque as abelhas adoram, o coqueiro do cerrado fornece um coco rico em vitamina A, já tem 18 anos e cresce pouco, é ideal para os jardins.”

Kerr foi o primeiro pesquisador a ser admitido como membro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos e o primeiro presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Hoje é presidente de honra da instituição.

A paixão pelas abelhas começou aos 8 anos de idade, quando ganhou do pai uma colméia de abelhas Mandassaia. “Eu ainda nem sabia ler, mas já pensava pra burro”, disse. Entre a curiosidade de criança e o desenvolvimento da pesquisa em genética, o cientista foi o responsável pelo salto do Brasil no ranking mundial da produção de mel. Da 27ª posição, o País passou a ocupar a 4ª, perdendo apenas para a Rússia, China e Estados Unidos. Em sua homenagem, existem no Brasil quatro espécies de abelhas kerri (de Kerr), além da orquídea Cattleya kerri.

No café da manhã, três tipos de frutas e uma coalhada enriquecida com fibras e proteínas garantem o início de um dia de trabalho. “Comemos bem em casa porque as vitaminas são importantes para nós”, afirmou.

Além de distribuir sementes e incentivar o consumo de plantas vitaminadas, o pesquisador tem uma longa história de implantação de cursos e faculdades pelo País afora. Em 1958 implantou em Rio Claro o curso de Biologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Em 1962, criou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), hoje a maior agência estadual de fomento à pesquisa do País.

No fim de 1964, mudou-se para Ribeirão Preto com a finalidade de chefiar o novo Departamento de Genética da Faculdade de Medicina. Naquela época, foi preso pela segunda vez por protestar contra a tortura policial — a primeira foi em Rio Claro, em 1961, pelo mesmo motivo.