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Fronteiras do conhecimento

Publicado em 01 setembro 2012

Num país que ainda pode ser considerado em formação, completar cinquenta anos sem se desviar de seus objetivos já é um feito considerável para uma instituição. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) completa cinco décadas de atuação – fiel à sua missão – e alarga cada vez mais seus horizontes. E mais: com um apreciável acervo de bem sucedidos projetos e estudos inovadores, que estão no DNA do desenvolvimento paulista e nacional, além daqueles que ganham repercussão internacional. Autonomia, uma sólida provisão de recursos e abertura para todos os campos do conhecimento são alguns dos pontos importantes na manutenção dessa trajetória, ressaltados pelo presidente da instituição, o jurista Celso Lafer. Ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e ex-ministro de Relações Exteriores, ele está no comando da instituição desde 2007.

A Fapesp não realiza pesquisas, sua função é apoiar projetos propostos por entidades e pesquisadores. Para cumprir essa missão conta com uma verba que, neste ano, deve chegar a um bilhão de reais. Os recursos são garantidos pela Constituição paulista, que prevê o repasse de um por cento da arrecadação para a fundação. Neste ano, estão recebendo parte desses fundos nada menos que 18,7 mil pesquisadores – desde 1962, quando foi criada pelo então governador Carvalho Pinto, a Fapesp financiou 96 mil bolsas e 110 mil auxílios. “A missão da Fapesp, além de incentivar a pesquisa, inclui despertar vocações”, afirma Lafer. “As bolsas começam no nível de graduação – estudantes podem se integrar a projetos desenvolvidos pelas faculdades e universidades que frequentam.” Além das bolsas de iniciação científica – cerca de três mil neste ano –, distribui bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de estágios no exterior.

Não faltam candidatos: por ano, as propostas recebidas giram em torno de 20 mil. A escolha dos beneficiados, sejam projetos ou bolsistas, é feita por um colegiado. Para Lafer, a análise feita por pares – professores e pesquisadores de cada área envolvida, pertencentes a diversas instituições – é um dos pilares da estrutura da Fapesp, vigorando desde o início de suas atividades. A integração com a sociedade e a aplicação prática das pesquisas estão entre as metas para os próximos anos. A Fapesp está cada vez mais aberta a acordos com empresas – desenvolve projetos com a Vale do Rio Doce, Microsoft e outros grandes grupos, além da Sabesp (empresa que cuida do abastecimento de água e coleta e tratamento de esgotos do estado de São Paulo), com resultados detalhados nos destaques. Muito importante, também, é a interação com pequenas empresas, através de acordos em que contribui com metade dos custos para instalação de laboratórios de pesquisa de novas tecnologias.

A Fapesp também promove a vinda para o Brasil de pesquisadores de outros países interessados em participar de programas aqui desenvolvidos, cobrindo salários e despesas de viagem para cientistas estrangeiros em visita a colegas em instituições de ensino superior ou de pesquisa no estado de São Paulo. A permanência varia entre duas semanas e um ano e, em 2011, houve quase 200 visitantes. Cientistas do exterior também participam dos cursos da Escola São Paulo de Ciência Avançada, um programa que promove cursos de curta duração sobre fronteiras da ciência em áreas estudadas no estado de São Paulo.

Alpha Crucis, laboratório flutuante

Uma base móvel para pesquisas oceânicas, o navio Alpha Crucis foi adquirido com recursos da Fapesp para o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. A embarcação tem 64 metros de comprimento e possui equipamentos modernos e mais de 100 metros quadrados de laboratórios. Com uma tripulação de 20 pessoas, pode levar até 20 pesquisadores. Os laboratórios permitem que várias equipes trabalhem simultaneamente em diferentes projetos, otimizando o uso do navio. Numa única viagem, por exemplo, podem ser realizadas pesquisas sobre pesca, petróleo ou meio ambiente. Um dos projetos já previstos é o monitoramento da movimentação das águas do Atlântico Sul, cujas correntes podem estar passando por mudanças que, potencialmente, influenciariam no clima global.

Xylella, sucesso e novo caminho

O sequenciamento do genoma da bactéria Xylella Fastidiosa foi um dos projetos respaldados pela Fapesp com maior repercussão internacional. Mas os seus resultados foram além do cumprimento do objetivo: pela primeira vez no Brasil, um projeto reuniu grande número de pesquisadores trabalhando simultaneamente em diversas instituições, em locais diferentes. Os cerca de 100 participantes trabalharam em 34 laboratórios, comunicando-se por uma rede de computadores, inaugurando um novo método de trabalho no país. A Xylella, que é transportada para as plantas por uma mariposa, causa uma praga chamada clorose variegada de citros, mais conhecida como praga do amarelinho, que ataca as culturas de laranja, causando grandes prejuízos – estimados, em 1997, em 100 milhões de dólares anuais. Exatamente por isso, foi escolhida como alvo do primeiro programa de genomas da entidade. O projeto recebeu recursos equivalentes a 12 milhões de dólares e, em menos de três anos, foi concluído. Foi descoberto que a Xylella tem quase 2,7 milhões de pares de base (nucleotídeos) em seu cromossomo, um terço a mais do que se estimava anteriormente. Muitos dos 2,9 mil genes da bactéria, cerca de um terço, não haviam sido descritos pela ciência. O trabalho rendeu capa na revista Nature, uma das mais conceituadas publicações científicas internacionais.

Biota, detalhando a biodiversidade

Mil e duzentos participantes e um objetivo ambicioso: esmiuçar a biodiversidade do estado de São Paulo. O nome oficial é tão grande como a abrangência: Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo – mais conhecida é a sigla, Biota. O programa foi lançado em maio de 1999 e é considerado quase uma entidade virtual, conectando pela internet pesquisadores das principais universidades públicas paulistas, institutos de pesquisa e organizações não governamentais. Já rendeu 700 artigos científicos, 20 livros e dois atlas. E formou 180 mestres e 60 doutores. Os resultados do programa estão em bancos de dados abertos à comunidade científica. Eles incluem informações sobre mais de 12 mil espécies existentes no estado, entre elas cerca de 1,8 mil descobertas durante os estudos realizados. Entre os resultados práticos mais importantes, está o mapeamento feito junto com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente que serve de orientação para formulação de políticas públicas visando à conservação, preservação e restauração da biodiversidade nativa do estado de São Paulo.

Bioenergia, e mais

O Brasil foi o primeiro país a utilizar um combustível de origem vegetal em larga escala, o etanol derivado da cana de açúcar, já na década de 1970. De lá para cá, o setor de biocombustíveis avançou muito e apresenta crescentes perspectivas animadoras de expansão, captação de divisas e geração de empregos. O BioEn é um programa da Fapesp que visa aprimorar os métodos de produção, descobrir novas matérias-primas para produção de energia a partir de biomassa e otimizar a aplicação de biocombustíveis. Os estudos vão além dos laboratórios e abrangem os impactos socioeconômicos e a política de uso da terra relacionada à produção de energia. Com grande importância econômica, o BioEn inclui parcerias com empresas de grande importância da área bioenergética e petroquímica, como Dedini, Braskem e Oxiteno. Além da produção de energia, essas empresas também estão interessadas na obtenção de polímeros a partir de produtos vegetais, para substituição dos plásticos produzidos a partir do petróleo.