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Frentes frias aumentam casos de Acidente Vascular Cerebral (AVC)

Publicado em 19 junho 2018

Toda vez que a temperatura cai, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Santos (Unisantos) notaram que há um aumento no número de mortes por acidente vascular cerebral (AVC), especialmente entre a população com mais de 65 anos.

O AVC é uma séria condição médica que ocorre quando o suprimento de sangue ao cérebro é interrompido. Essa associação entre a queda de temperatura e o aumento na incidência de AVC foi demonstrada em um estudo que envolveu dados de mortalidade e de estações meteorológicas de 2002 a 2011 na cidade de São Paulo.

Descobriu-se também que entre os idosos a incidência de AVC associado a quedas na temperatura média é maior entre as mulheres. Os resultados do trabalho estão em um artigo que acaba de ser publicado no International Journal of Biometeorology. A pesquisa tem apoio da FAPESP.

No Brasil, as doenças crônicas – como problemas cardiovasculares, diabetes e câncer – são responsáveis pela maior parte das mortes em homens e mulheres. Entre as doenças cardiovasculares, o AVC é a principal causa de morte, sendo responsável por 10% de todas elas.

Alfésio Luís Ferreira Braga, professor da Unisantos e coautor da pesquisa, explicou para a Agência FAPESP que, nos Estados Unidos, país de clima temperado onde os invernos são gelados, foi estabelecida uma relação entre o aumento na mortalidade por AVC e as máximas e mínimas de temperatura.

No caso do Brasil, segundo ele, mesmo entre as populações das regiões Sul e Sudeste, de clima subtropical, ainda não havia sido realizado um estudo semelhante.

Para averiguar a existência de uma possível relação entre variação térmica e AVC na cidade de São Paulo, a geógrafa Priscilla Venâncio Ikefuti utilizou dados coletados pelo Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade no Município de São Paulo (PRO-AIM). A pesquisa foi coordenada por Ligia Vizeu Barrozo, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

A análise das séries temporais dos dados revelou a ocorrência de 55.633 casos de mortalidade por AVC na cidade de São Paulo entre 2002 e 2011. A temperatura média diária e a umidade relativa do ar foram obtidas a partir de dados coletados pela Estação Meteorológica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.

O estudo utilizou a temperatura média, em vez de mínima e máxima, por ser uma média de várias observações no mesmo dia e servir como boa estimativa de exposição ao calor ou ao frio, segundo os pesquisadores. A temperatura média mensal do ar na cidade de São Paulo entre 2002 e 2011 foi de 21 ºC, variando de 15 ºC a 25 ºC, dependendo da estação do ano.

Com as informações em mãos, Ikefuti construiu modelos de regressão de dados (com base no chamado modelo Quasi-Poisson) para estimar os efeitos da temperatura média na mortalidade por AVC e seus subtipos na população total e também entre as pessoas acima de 65 anos.

O estudo mostrou que a temperatura média diária estava associada à mortalidade por AVC e que o risco relativo variou de acordo com a idade e o sexo. Temperaturas mais baixas (menor que 15 ºC) foram consideradas estatisticamente mais significativas para mortalidade por AVC do que temperaturas mais altas (acima de 22 ºC).

Partindo-se do universo total de mortes por AVC na capital paulista entre 2002 e 2011, Ikefuti constatou uma média diária de 15,24 mortes no período, que foi ligeiramente superior entre as mulheres (7,99 casos por dia) do que entre os homens (7,25 casos por dia). Durante o período de estudo, essa pequena diferença se tornou expressiva, com cerca de 2 mil mortes por AVC a mais em mulheres do que em homens.

Entre as pessoas com mais de 65 anos, foram registrados mais casos de AVC hemorrágico em mulheres (5.236 mortes, uma média diária de 5,81 casos) do que em homens (4.071 mortes, média diária de 4,6 casos).

Quando se observam os dados de cada subtipo de AVC, foi identificado no período um total de 29.433 mortes, sendo 12.183 mortes por AVC isquêmico e 17.250 mortes por AVC hemorrágico.

A diferença entre o total dos casos de AVC (55,6 mil) e a soma dos casos de AVC hemorrágico e isquêmico (29,4 mil) corresponde aos casos (26,2 mil) que não foram classificados como doenças hemorrágicas ou isquêmicas ou outras doenças cerebrovasculares. Isso não quer dizer que entre aqueles 26,2 mil casos sem especificação não existam casos de AVC hemorrágico ou isquêmico, mas apenas que não foram assim notificados.

Observando-se as estatísticas para cada subtipo de AVC, verificou-se no caso do AVC hemorrágico uma média de mortalidade diária de 4,72 casos, e de 3,34 casos para o AVC isquêmico, para todas as idades. Nos dois casos, a incidência foi maior entre as mulheres.

Quando todos os dados foram confrontados com as temperaturas médias na cidade de São Paulo no período analisado, descobriu-se que, para todos os tipos de AVC, o risco relativo era maior quando a temperatura média era mais baixa (abaixo dos 15 ºC).

Quando a temperatura média registrada se manteve na faixa entre os 17 ºC e os 24 ºC, o risco relativo não se mostrou significativo. No entanto, quando a temperatura média foi superior aos 26°C, o risco relativo de AVC isquêmico se revelou significativo para o sexo masculino acima de 65 anos.

Especificamente em relação ao AVC hemorrágico, os resultados do risco relativo mostram que temperaturas mais baixas parecem ser um fator de risco para esse subtipo, especialmente abaixo de 10 ºC, tanto para homens quanto para mulheres. Acima dos 65 anos, no entanto, as temperaturas médias mais baixas representaram maior risco de AVC hemorrágico para as mulheres, um resultado que não era esperado e que surpreendeu os pesquisadores.

Uma explicação para o AVC ser mais comum entre os idosos é resultado da diminuição do metabolismo na terceira idade. Em resposta a mudanças nas temperaturas, os idosos têm menor capacidade de manter a homeostase, ou seja, de regular o metabolismo de modo a manter constantes as condições fisiológicas necessárias à vida.

“Verificamos também que, para todos os casos de AVC e para o AVC hemorrágico em particular, o sexo mais vulnerável é o feminino. Os dados mostram que as mulheres têm, mesmo que ligeiramente, mais alta mortalidade média por AVC. O risco relativo do acidente, calculado para as variações da temperatura média, também foi maior entre mulheres do que em homens. De forma similar, as temperaturas médias mais baixas causaram maior impacto em mulheres, em ambos os subtipos de AVC”, disse Ikefuti.

Ela explica que o estresse pelo frio resulta em elevação da pressão arterial, bem como em aumento na viscosidade do sangue e na contagem de plaquetas, subindo a pressão arterial de modo a poder causar um AVC hemorrágico.

“Nosso estudo contribui para a compreensão do impacto da temperatura sobre a mortalidade por AVC em um país tropical, onde a temperatura não seria, supostamente, um fator de preocupação para risco de AVC. O trabalho comprovou que, pelo menos na cidade de São Paulo, este não é o caso”, disse. (*Com Agência FAPESP)