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Pequenas Empresas & Grandes Negócios online

FRANCHISING LOJAS GANHAM MAIS INDEPENDÊNCIA

Publicado em 01 novembro 2001

Por Ana Cecília Americano
SÓCIOS RICOS Fundos de investimentos, incubadoras e instituições públicas têm dinheiro e vontade de investir em projetos inovadores. Cabe aos empreendedores apresentar boas idéias e muita disposição para colocá-las em prática em Acredite. Há muita gente séria na praça querendo ser seu sócio em um bom projeto. Fundos de capital de risco, incubadoras de empresas, organizações não-governamentais e fundos de apoio à pesquisa disputam entre si idéias criativas e promissoras. Procuram pequenos empresários que defendam seus projetos com profissionalismo e paixão. Exigem, em troca, planos de negócios consistentes, um retorno atraente e uma detalhada prestação de contas. A lista dos disputam empreendedores e suas idéias promissoras é longa. A postura certa e unia boa idéia podem ser as credenciais que faltavam para sensibilizá-los (confim o quadro "Venda seu projeto"). Só o Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por exemplo, deve totalizar investimentos de R$ 15 milhões até o fim do ano. Em outra frente, 135 incubadoras de empresas no país abrigam 1.100 pequenos negócios, subsidiando infra-estrutura física e consultoria. E há vagas para novos empreendimentos. Outro grupo que vai ao encontro de empreendedores inovadores é o de fundos de capital de risco. Em troca de participação acionária, investem para, cinco a seis anos depois, revenderem sua parte com lucro. Só o Eccelera tem em caixa US$ 20 milhões para aplicar em empresas emergentes. Fundos semelhantes, aliás, devem chegar ao fim deste ano com pelo menos US$ 100 milhões investidos em pequenos negócios, aposta Roberto Hesketh, presidente da Associação Brasileira de Capital de Risco. Parceiro desses agentes econômicos, o Sebrae dispõe hoje de R$ 36 milhões para investir. SOB HOLOFOTES Atrás de idéias promissoras está, ainda, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), uma agência do governo federal, com o seu programa Inovar, que procura capacitar seus empreendedores na arte de atrair investidores. Para isso, patrocina cursos rápidos consultorias para empreendedores selecionados, auxiliando-os a elaborar bons planos de negócios. Eles são apresentados em rodadas de negociação com investidores, conhecidas como Venture Foruns, nos quais bancos e investidores assistem a apresentações de 12 minutos de empresários com boas idéias. No desenvolvimento de empresas iniciantes, tão importante quanto o financiamento é o investimento em capital humano. Nesse sentido, quem investe recursos da melhor qualidade em pequenas empresas é a filial brasileira da Endeavor, uma organização não-governamental que, segundo Marília Rocca, sua presidente, oferece cursos e palestras, além de consultorias de voluntários. Instituições o investidores como esses estão promovendo uma verdadeira revolução na vida de empreendedores como José Augusto Pereira da Silva, um ex-pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde atuava em projetos da Petrobrás. Seu empenho no desenvolvimento de um pio, equipamento que desliza dentro de tubulações à procura de amassados não identificados na superfície, lhe garantiu uma vaga na incubadora da universidade. "A Petrobrás, apesar de dona da tecnologia, não tinha interesse o em explorar o protótipo que desenvolvemos. Não era o ramo dela. Portanto, licenciamos a tecnologia para nos lançar no mercado", conta Silva, fundador da PipeWay, hoje com 20 funcionários e bastante assediada por gestores de fundos de investimento. O salto só foi possível com o apoio da incubadora e com a injeção de R$ 60 mil que Silva recebeu a fundo perdido do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da Finep, para o aperfeiçoamento dos equipamentos. Seu projeto - serviços de vistoria em dutos - tinha apelo comercial em empresas de gás, petróleo e afins. PREÇO DE OCASIÃO Mas foi preciso enfrentar desafios, lembra o pesquisador. "Nem mesmo os técnicos da própria Petrobrás queriam se arriscar a entupir um duto em funcionamento com o nosso equipamento, até então desconhecido do mercado", lembra. O jeito foi apelar para um preço 50% abaixo da concorrência e prometer o dinheiro de volta, caso a satisfação com o serviço não fosse plena. Durante quatro anos, parte da estratégia de crescimento foi aliar-se a outras empresas de fiscalização de dutos, especializadas em detecção de corrosão. "Nosso serviço é complementar ao delas", garante. O discurso parece ter convencido seus clientes. Silva deve faturar algo entre 2.5 milhões e 3 milhões de reais este ano. Mas o que torna a PipeWay atraente no mercado? Por trás da empresa há, com certeza, uma idéia viável e promissora. A essência dessa viabilidade, no entanto, é interpretada de forma diversa por agentes diferentes. Ela deve traduzir necessidades de mercado, sejam elas conhecidas ou latentes, reza o primeiro capítulo de qualquer manual de marketing. Na Fapesp, os critérios para identificar bons projetos assumem outras formas, José Fernando Perez, diretor científico, responsável por dar a palavra final na liberação de até R$ 375 mil para pesquisas por pequenas empresas, lembra outro aspecto da questão: uma boa idéia deve trazer inovação tecnológica sem abrir mão da simplicidade. SEM CONCORRÊNCIA Marília Rocca, da Endeavor, acrescenta: "Ela precisa trazer vantagens competitivas de longo prazo e se ater a mercados de grande potencial, que não estejam concentrados nas mãos de poucos". E, se o objetivo for obter recursos de um fundo de investimento, essa mesma idéia deve permitir um retorno atraente, comenta Roberto Hesketh, da Associação Brasileira de Venture Capital. "O investidor não se deixa levar pelo canto da sereia. Procura, no mínimo, uma rentabilidade de 35% ao ano", resume. Mordejai Goldenberg, superintendente de operações do Eccelera, procura simplificar a questão. "Não estamos atrás de quem inventou a roda. As vezes nos é suficiente pegar alguém que tenha descoberto um lugar diferente para encaixar a roda. onde ninguém mais tenha pensado, compara. Essa parece ter sido a fórmula encontrada por Ana Luiza de Almeida, dona da indústria de calçados Grudy. Os sapatos são conhecidos pela humanidade há milênios, mas ela provou que sempre é possível inovar. Primeiro, encontrou um novo modo de fazer a mesma coisa. Ana Luiza adotou a terceirização para fabricar 600 mil pares por ano em 11 pequenas fábricas de Novo Hamburgo (RS). Assim, a empresa pode ser enxuta, mantendo unia folha de 40 funcionários dedicados apenas ao desenvolvimento e comercialização. Depois, revolucionou também o material dos seus calçados. Agora eles são de materiais sintéticos, como neoprene, EVA e PVC e tornaram-se mais leves, impermeáveis e resistentes. A equação chamou a atenção da Endeavor, que selecionou a Grudy entre centenas de outras empresas para receber o apoio da entidade. "Foi quase um vestibular de medicina", lembra ela. Perguntas capciosas a levaram a refletir sobre aspectos de seu futuro empresarial. "Queriam saber, por exemplo, se eu delegaria a presidência, caso houvesse alguém mais competente para tocar o negócio", conta. Mas o sufoco deve lhe render frutos num momento em que tem como meta a conquista do mercado externo: "A Endeavor está patrocinando a consultoria, ao longo de quatro meses, de um profissional formado em Harvard". diz com satisfação. Mestre em administração de empresas, ele deverá pesquisar o mercado exterior e preparar um plano de negócios para a expansão da empresa em países como Japão e Estados Unidos. Um velho conceito, reempacotado com tecnologia, também é o principal apelo de Severino Félix da Silva, da Escola 24 Horas. Ele teve uma idéia simples - dar aulas de reforço escolar. Mas usou a Internet a fim de massificá-las. Para isso, montou uma equipe de professores que dão plantão dia e noite ao tirar dúvidas via Web de alunos paulistanos e cariocas, ajudando ainda a garotada em pesquisas pela Internet e com aulas virtuais sobre as dúvidas mais recorrentes, em dobradinha com o programa das escolas que freqüentam. A receita vem dos colégios filiados ao portal, que pagam pelos serviços prestados. O conceito lhe rendeu nada menos do que o investimento de US$ 3,25 milhões da International Finance Corporation, um dos braços do Banco Mundial, em troca de 25% das ações do negócio. PLANTÃO VIRTUAL Mas, para isso, contou com uma certa ajuda da sorte. Sua fórmula chamou a atenção de um jornalista francos de passagem pelo Rio de Janeiro que fez uma matéria de página inteira a seu respeito no jornal Liberation. Não se passaram quinze dias da publicação da reportagem na França e um representante do Banco Mundial batia à porta de Félix da Silva. O fiming foi perfeito. "Nós já tínhamos um plano de negócios pronto, feito pela Andersen Consulting, com boa partidas respostas que eles procuravam", conta Félix da Silva, um ex-office-boy, que custeou seus estudos em escolas noturnas e já era dono de outra empresa, a Trend Tecnologia Educacional. Durante os seis meses anteriores ele havia se dedicado a estruturar a nova empresa, de olho em possíveis investidores nacionais. Investira nada menos do que US$ 100 mil em consultoria para estar a altura de suas exigências. "Mas nem sonhava com o IFC", admite, orgulhoso. Após semanas de reuniões, nas quais os números e projeções da empresa foram completamente vasculhados, houve acordo. Hoje, seus negócios atendem 70 mil alunos no Brasil e no México. As metas para 2002 são outros países de língua hispânica e entrar no mercado europeu. Mas nem tudo são rosas na relação com um sócio capitalista. Foi o que aprendeu Bernardo Amaral, um dos fundadores do iVox, um instituto de pesquisas de opinião via Internet. Dono de uma distribuidora de máquinas de guloseimas, chegou à conclusão de que havia um grande potencial de negócios nas pesquisas pela Web. Ao lado de dois amigos - Rodrigo Araújo, dono do site Leilão 21, e Leandro Kenski, ex-executivo do portal Globo.com - passou cinco meses estudando o mercado internacional e o brasileiro. Antes de abrir sua empresa, Amaral procurou o Ideiasnet - um fundo de capital de risco focado em empresas de Internet. A idéia era conseguir novos sócios para bancar o lançamento do projeto. A consistência de seu plano de negócios encantou George Ellis, presidente do fundo. Lançado no início de 2000, o iVox recebeu um aporte de capital de US$ 1 milhão da Ideiasnet. E seus fundadores tornaram-se sócios minoritários. CORTE NA CARNE Ainda por cima, quando diversos sites do mercado começaram a fechar por falta de receita, o iVox viu-se forçado a um rápido e profundo ajuste. "Fomos obrigados, do dia para a noite, a cortar 50% de nossos custos", lembra Amaral. Apesar de tudo, o empresário valoriza a tutela dos investidores. "Quando você tem alguém do mais alto nível para dar satisfação, acaba se preparando melhor para justificar cada centavo investido no negócio", conta ele, que pretende atingir o equilíbrio nas contas até dezembro. Outros parceiros tão interessantes quanto o sócio capitalista são as incubadoras. Presentes em todo o país (confira o quadro "Berços de empresas"), elas sempre tem espaço para projetos inovadores. Fátima Chamma, proprietária da Fluidos da Amazônia, por exemplo, encontrou na incubadora da Universidade Federal do Pará o apoio que procurava para melhorar o processamento das suas fórmulas de xampus e colônias à base de plantas amazônicas. A vaga na incubadora, no entanto, foi precedida de um rigoroso processo de seleção. Aceita, a empresa firmou, ainda, uma parceria com o Sebrae para a qualificação da empreendedora como uma pequena empresária de fato. "Fiz todo tipo de curso, de gestão a planejamento, passando por liderança e contas a pagar, para não morrermos no caminho", confessa Fátima. O esforço acabou sendo mais do que compensador. Segundo ela, só o fato de estar numa incubadora lhe conferiu credenciais importantes para se, apresentar. Hoje, pronta para sair do berço que a abrigou, Fátima tem uma rede de quatro lojas próprias, 17 franquias e deve faturar R$ 680 mil em 2001. ALTA PRECISÃO Sua história não difere muito da de Spero Penha Morato, um físico que ao longo de mais de duas décadas colecionou doutorados e cargos nas mais altas esferas acadêmicas. "Ao me aposentar, resolvi colocar no mercado o que eu havia desenvolvido na minha trajetória na universidade", diz ele. Seu projeto era montar um equipamento a laser capaz de gravar, perfurar e cortar com altíssima precisão. Aceito em 1999 na incubadora ligada ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, em São Paulo, com sua empresa, a LaserTools, Morato descobriu um novo veio em sua personalidade - o de empresário. "Na universidade, tudo o que nos exigem é qualidade. No mercado, somos obrigados a ter qualidade, preço e prazo de entrega, além de uma relação muito especial com o cliente", resume, com a humildade de um aprendiz. Seu principal gargalo, confessa, é o marketing. Adepto da distribuição de participação acionária entre funcionários, além do lucro, o ex-professor conseguiu ao longo dos últimos três anos um financiamento da Fapesp de R$ 250 mil, uma farta carteira de clientes e um faturamento anual de R$ 500 mil. Seu próximo passo é sair da incubadora e dobrar a capacidade da empresa. Portanto, se você tem unia boa idéia na gaveta, talvez seja a hora de colocá-la em prática. De forma geral, todos esses padrinhos dos empreendedores têm sites na Internet, abertos a projetos pioneiros. O seu, mesmo entre muitos, pode ser selecionado. Mas prepare-se: "Você só saberá se a idéia é boa e o seu plano de negócios consistente depois de testá-los no mercado, avisa o professor Marcos Cortez Campomar, da Faculdade de Economia e Administração da USP". Ou seja, a receita inclui também uma dose de risco. Boa sorte.