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Fóssil perdido há 100 anos revela nova espécie do Jurássico (4 notícias)

Publicado em 11 de agosto de 2025

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Por Arthur Felipe Farias

“Já vi essa pose antes” , pensou o paleontólogo brasileiro Victor Beccari ao abrir uma gaveta do Museu de História Natural de Londres , no Reino Unido.

Assistente científico na Coleção do Estado da Baviera para Paleontologia e Geologia, na Alemanha, ele observava um fóssil de réptil com o corpo esticado e o pescoço inclinado. A cena lhe parecia familiar: lembrava um exemplar que havia analisado anteriormente no Museu de História Natural Senckenberg , em Frankfurt.

Após investigar, Beccari constatou que as duas peças eram partes distintas de um mesmo espécime jurássico, como fatias de um sanduíche, sendo uma o molde e a outra o esqueleto. Reunidas, revelaram uma nova espécie, batizada de Sphenodraco scandentis, descrita em julho na revista Zoological Journal of the Linnean Society.

O fóssil havia sido coletado em 1930 e, provavelmente, dividido e vendido separadamente a museus diferentes. Por décadas, apenas a metade guardada em Frankfurt era conhecida, classificada como Homoeosaurus, um gênero extinto de rincocéfalos, grupo aparentado aos lagartos e hoje representado apenas pelo tuatara, da Nova Zelândia.

Beccari, que examinou fósseis desse grupo em diversos países durante seu doutorado, só percebeu a conexão ao estudar a anatomia do animal. Membros longos sugeriam hábitos arborícolas, o que o diferenciava do terrestre Homoeosaurus. Outras características, como cabeça triangular, dentes inclinados para trás e formato singular do úmero, também destoavam.

A confirmação veio com o uso da morfometria geométrica, técnica que compara formas anatômicas por meio de pontos de referência em ossos como crânio, úmero e fêmur. Segundo a paleontóloga Annie Hsiou, da USP, o método mostrou que a nova espécie se distingue claramente das demais.

A descoberta ajuda a revisar a visão de que os rincocéfalos eram pouco variados.

“Antes do surgimento dos lagartos, eles ocupavam diferentes nichos: marinhos, terrestres e arborícolas”, explica Beccari. Hoje, o único sobrevivente do grupo é o tuatara, mas no passado eles viveram em todos os continentes e foram bem-sucedidos até o final do Cretáceo, há cerca de 66 milhões de anos.

No período jurássico, S. scandentis habitava um arquipélago com pequenas árvores, pterossauros, aves e dinossauros de pequeno porte. A linhagem também prosperou na América do Sul: no Brasil, três espécies do grupo já foram identificadas no Triássico do Rio Grande do Sul.

A história do grupo está ligada ao supercontinente Gondwana, que unia América do Sul, África, Austrália, Índia e Antártida. O clima mais ameno da Antártida na época pode ter servido como rota de dispersão para a Oceania. Quando a Nova Zelândia se isolou, tornou-se um refúgio para os últimos rincocéfalos, incluindo o resistente tuatara.