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Fóssil de tartaruga mostra como era Minas no Cretáceo

Publicado em 20 dezembro 2005

No dia em que uma certa tartaruga cambará morreu, há 70 milhões de anos, no período Cretáceo, a temperatura estava próxima dos 50 graus. Para os padrões de hoje, seria um clima bem árido, quase desértico e, portanto, bastante desconfortável.
Além disso, aquela jovem tartaruga, que tinha apenas 25 centímetros de comprimento, não devia ter uma vida fácil, tendo que conviver com grandes répteis e dinossauros.
"Logo após morrer e perder os tecidos, ela, por algum motivo, acabou enterrada virada para cima. Isso fez com que sua carapaça protegesse internamente os ossos do aparelho locomotor", explica o geólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro, diretor do Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, de Uberaba (MG).
Por causa da providencial posição, o fóssil é o mais bem preservado e completo entre as mais de 2,5 mil peças catalogadas em 14 anos de pesquisas na instituição mineira.
Mas a importância é ainda maior, pois se trata do primeiro registro da espécie Cambremys langertoni em todo o mundo - Cambará era o nome do bairro no século 19 e Langerton da Cunha um morador do local que encontrou importantes fósseis nas décadas de 1960 a 1980.
Descoberto em 1995 pela equipe do centro mineiro em sedimentos da Formação Marília, a 2 quilômetros ao norte de Peirópolis, bairro rural de Uberaba, o fóssil ficou um tempo esquecido, até que Max Cardoso Langer, professor do Departamento de Biologia da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, resolveu se debruçar sobre ele.
O resultado foi a descrição da espécie em artigo publicado na edição de outubro da revista Geodiversitas, do Museu de História Natural de Paris. O estudo foi assinado por Langer e pelo pós-graduando Marco Aurélio Gallo de França, como primeiro autor.
Características inéditas O quelônio proveniente do jazigo fossilífero de Peirópolis estava a 500 metros de distância de um fóssil do réptil Uberabasuchus terrificus, apresentado à comunidade científica no início de 2005, que também tinha várias características inéditas.
"Eles são da mesma época, apesar de estarem em regiões geográficas um pouco diferentes. Os 2,5 mil achados paleontológicos nos últimos anos, dos quais a maior parte é de dinossauros, mostram a importância da região de Uberaba em termos de produção de fósseis", lembra Ribeiro.
Além do estudo do Cambremys langertoni, o Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price também apresentou, na semana passada, uma reconstituição de como seria viver, durante o Cretáceo, na região conhecida hoje como Triângulo Mineiro.
"Havia pouca vegetação, provavelmente apenas ao redor de lagos e rios", explica Ribeiro. "O hábito de vida dessa tartaruga pode ser comparado o das encontradas hoje na Amazônia. Elas não viviam apenas na terra, mas também não eram exclusivamente aquáticas. Comiam plantas dos rios e lagos, frutas, peixes e insetos", disse o pesquisador.
Para o pesquisador, além da importância científica, os trabalhos no interior de Minas Gerais têm também impacto social e econômico. "Estamos num bairro a 20 quilômetros do centro de Uberaba com 200 moradores, metade dos quais trabalha com o turismo relacionado com a paleontologia", conta.
Para quem estiver interessado em conhecer a região - onde felizmente as temperaturas não chegam mais aos 50ºC -, Ribeiro tem uma dica: "No início de 2006, vamos fazer mais um anúncio importante. Será sobre a garra de um dinossauro, também encontrada aqui", revela.

Agência Fapesp