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Fortalezas antivírus

Publicado em 02 dezembro 2003

Por Carlos Fioravanti
Há hóspedes novos no arquipélago de Fernando de Noronha, a 545 quilômetros do Recife. São as garças que começaram a chegar da África alguns anos atrás e às vezes aparecem voando, aos bandos, nos arredores do aeroporto e das casas. Em outros países, nessas duas espécies de garça - a vaqueira, mais comum, e a branca - já foi encontrado o vírus da febre do Oeste do Nilo (o West Nile Virus, ou WNV), que tem preocupado os especialistas em saúde pública por estar se espalhando pelo mundo e provocar uma doença emergente de alta mortalidade. Desde que identificado, em 1937, no sangue de uma mulher de Uganda, o vírus do Oeste do Nilo alastrou-se pela África, ganhou o Oriente Médio e a Europa, espraiou-se pela antiga União Soviética, chegou à Índia e há três anos aterroriza os EUA. Já se espalhou por 44 estados norte-americanos e, numa rara demonstração de agressividade, infectou quase 7 mil pessoas, principalmente crianças e idosos, causando 145 mortes. Transmitido ao ser humano por meio de mosquitos que se alimentam do sangue contaminado das aves, o WNV causa inflamações severas no cérebro ou em órgãos vizinhos, como o cerebelo. 'Não há razão para supor que esse vírus não chegará ao Brasil', afirma o virologista Edison Luiz Durigon, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. O epidemiologista Eduardo Massad, da Faculdade de Medicina da USP, também chegou a essa conclusão, com base nos mesmos argumentos: o país está na rota das aves migratórias que espalharam esse vírus pelo mundo, e temos em abundância os transmissores - os mosquitos do gênero Culex, os pernilongos domésticos. Mas, lembram eles, é preciso conhecer informações básicas como a taxa de transmissão - apenas uma ou cem aves em um grupo de mil carregam o vírus? - antes de definir com precisão a gravidade da situação. Até agora, os cientistas brasileiros não contavam com laboratórios adequados para trabalhar em segurança com vírus como o do Oeste do Nilo ou o da síndrome respiratória aguda severa (Sars), os mais novos representantes das chamadas doenças emergentes, que causam danos severos porque o organismo ainda não está habituado a lidar com eles. A situação começa a mudar este mês com a inauguração, no dia 11, do Laboratório Klaus Eberhard Stewien, assim chamado em homenagem a um virologista alemão naturalizado brasileiro, hoje com 65 anos, que ajudou a conter a paralisia infantil no Brasil. Construído durante um ano e meio no segundo andar de um dos prédios do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o novo laboratório é o primeiro no país com o padrão NB3+ (nível de biossegurança 3+). É quase o máximo possível para a pesquisa civil - há instalações mais sofisticadas somente nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), de Atlanta, EUA, referência mundial em doenças emergentes. 'Esse laboratório da USP está servindo de referência para o desenvolvimento dos projetos da rede de 12 laboratórios NB3 que o Ministério da Saúde começou a construir este ano', diz Mário Althoff, coordenador geral da rede de laboratórios de saúde pública da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. (Agência Fapesp, 6/11)