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Terra da Gente

Formigueiros têm até 12 rainhas na Ilha do Cardoso (SP)

Publicado em 16 agosto 2013

Estudos realizados por pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) demonstram que as colônias da espécie de formiga Odontomachus hastatus podem ter mais de uma rainha. Com a escassez de lugares adequados para fundar colônias, elas fazem alianças para garantir sua sobrevivência e formar o maior exército possível de operárias.

Porém, após consolidar a colônia, elas estabelecem uma hierarquia, por meio de lutas ritualizadas, na qual uma se sagra a rainha-alfa e assume a tarefa de pôr a maior quantidade de ovos. As rainhas perdedoras se tornam subalternas e, apesar de também serem fecundadas, são obrigadas a pôr menos ovos do que a rainha-alfa e a desempenhar a função de operárias.

"É contra nossa intuição imaginar que, em um formigueiro, existam alianças seguidas de conflitos nos quais uma formiga rainha bate na outra de forma ritualizada e a inibe de se reproduzir para se tornar a rainha-alfa, como pudemos observar durante a série de estudos", disse Paulo Sérgio Oliveira, professor do IB e coordenador do projeto.

Oliveira e sua equipe estudaram nos últimos anos diversos ninhos de formigas da espécie Odontomachus hastatus no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, litoral Sul de São Paulo. Uma das constatações feitas foi a de que a maior parte das colônias tinha entre duas e 12 rainhas capazes de pôr ovos. A descoberta foi publicada em um artigo na revista Insectes Sociaux.

Estratégias sociais

Ao analisar estudos realizados em 2007 por pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Toulouse, na França, na Reserva Natural de Nourages, na Guiana Francesa, com a mesma espécie de formiga, os pesquisadores brasileiros observaram que os colegas não encontraram nenhuma colônia do inseto com mais de uma rainha no país sul-americano.

Uma pesquisa comparativa revelou que formigas da espécie Odontomachus hastatus adotam comportamentos e estratégias sociais adaptadas a diferentes circunstâncias ecológicas para assegurar sua sobrevivência.

A mata de restinga do Parque Estadual da Ilha do Cardoso cresce sobre a areia e frequentemente alaga, pois o local registra mais chuvas durante o ano do que na própria Amazônia. Com isso, as rainhas fecundadas fazem seus ninhos em raízes de bromélias fixadas no tronco das árvores. As bromélias mais utilizadas como ninhos são as que possuem um tufo de raízes com diâmetro superior a 30 centímetros, mais raras de serem encontradas na mata da Ilha do Cardoso.

A floresta equatorial amazônica da Reserva Natural de Nourages, no entanto, oferece muito mais locais para as formigas construírem suas colônias, como em palmeiras e outras árvores, troncos secos e até mesmo no solo da região.

Como o número de bromélias de tamanho adequado no Parque Estadual da Ilha do Cardoso é limitado, as formigas rainhas desenvolvem estratégias sociais - como as alianças para ninhos conjuntos - a fim de assegurar a sobrevivência de sua colônia.

"Como encontrar uma bromélia desocupada de tamanho apropriado para formar ninhos é algo difícil na Ilha do Cardoso, deve haver uma pressão para as formigas fundarem colônias juntas ou, no caso das rainhas-filhas, voltarem para casa após serem fecundadas", avaliou Oliveira.

Confira a íntegra da matéria na Agência Fapesp