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Revista América Economia

Formação em tempos de transformação

Publicado em 01 fevereiro 2018

Por Educação- Ensino Superior - Paulo Hebmüller

Cabe a um engenheiro a tarefa de, nos próximos quatro anos, liderar a administração da Universidade de São Paulo (USP), a mais importante instituição de ensino superior do Brasil - responsável por 22% da produção científica nacional e por 15,5% dos títulos de doutorado e 7,6% dos títulos de mestrado concedidos por ano no país (veja quadro).

Vahan Agopyan, de 66 anos, formado na Escola Politécnica da própria universidade, afirmou em sua posse, realizada no dia 29 de janeiro em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, que está "confiante no futuro da USP": "Confio no talento dos docentes, na competência dos servidores técnico-administrativos e na qualidade dos nossos alunos", enfatizou. Os desafios de gerir uma instituição com quase 96 mil alunos não são pequenos. Um dos maiores talvez seja exatamente o de pensar a formação desses estudantes em tempos de mudanças tecnológicas tão grandes, nos quais carreiras tradicionais são sacudidas e novas habilidades são constantemente requeridas.

"Uma universidade de pesquisa, como é a USP, é uma instituição de formação, e não de ensino. Um estudante daqui é um profissional que consegue se adaptar e avançar", diz. Para Agopyan, as universidades de pesquisa no mundo inteiro estão tomando o cuidado de reforçar sua atividade de formação, com foco maior nas disciplinas básicas e estruturantes, e menos ênfase na informação, que "pode ser obtida facilmente". Além do reforço em formação, o novo reitor aponta outros três eixos importantes: o desenvolvimento de uma visão de empreendedorismo ("o aluno não está na universidade apenas para conseguir um bom emprego, mas para ser um bom profissional", justifica), a interdisciplinaridade e a internacionalização cada vez maior dos cursos. Com olhar nessas tendências, nos últimos anos várias escolas da USP - como a Faculdade de Medicina, a própria Poli e a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto - já têm trabalhado na reformulação de seus currículos, num processo que se estende para outras das 42 unidades. Agopyan acredita que esse é um dos caminhos para manter a USP num patamar de qualidade e referência não apenas para o Brasil, pois alguns de seus cursos estão nas primeiras posições em classificações internacionais.

No ano passado, por exemplo, a Odontologia e a Zoologia uspianas foram consideradas as melhores do mundo em suas respectivas áreas pelo Center for World University Rankings. Novas fontes Outro dos desafios com os quais a USP sempre se defronta - e é também constantemente questionada por setores da sociedade - é o seu financiamento. Na gestão anterior, o ex-reitor Marco Antonio Zago (2014-2017), de quem Agopyan foi vice, precisou implementar muitas medidas de cortes de verbas para responder a um crescente déficit e a um cenário de grande aumento dos gastos da USP, entre despesas com pessoal e obras de alto custo, registrado na gestão de João Grandino Rodas (20 10-2013 ). Os cortes incluíram medidas como redução nas vagas das creches para filhos de funcionários e alunos, diminuição nos atendimentos do Hospital Universitário e planos de demissão voluntária de servidores, gerando críticas e movimentos de oposição.

"Essa última crise nos ensinou duas lições importantes. Primeiro, não se pode deixar o reitor 'solto'. Em segundo lugar, não podemos depender exclusivamente de uma única fonte. Temos que discutir e vislumbrar novas fontes de receita", diz Agopyan. Na gestão de Zago foi criada uma controladoria e estabelecida a obrigatoriedade de que todas as grandes despesas sejam aprovadas pelo Conselho Universitário, órgão máximo da instituição. As três universidades públicas de São Paulo - USP, Unesp e Unicamp - são financiadas com o repasse de 9,37% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do estado, cabendo 5,02% dessa cota-parte à USP. O valor repassado depende, portanto, da arrecadação, que varia de ano para ano conforme os humores da economia. Dos R$ 5,1 bilhões previstos no orçamento da universidade para 2018, R$ 4,99 bilhões vêm da cota-parte, R$ 69A milhões são recursos próprios e R$ 109) milhões relacionam- se a recursos vinculados federais. Além disso, há verbas obtidas nas agências de fomento nacionais (como Fapesp, Capes e CNPq) e tam bém internacionais, destinadas diretamente à pesquisa e à produção científica. O reitor defende que é preciso tomar a iniciativa de buscar novas fontes de recursos. "Temos uma previsão de um pequeno déficit em 2018, e por isso é necessário ir à rua para conseguir mais recursos", diz.

Uma das alternativas é a adoção dos endowments, fundos patrimoniais criados a partir de doações de pessoas físicas e jurídicas e destinados de forma perpétua a uma determinada instituição. O modelo é uma das principais fontes de financiamento de destacadas universidades dos Estados Unidos, como Harvard e Yale, por exemplo, que recebem grandes somas de milionários e contribuições frequentes de ex-alunos. No Brasil, a prática ainda é pouco comum - entre outras razões, de acordo com professores e analistas, pela falta de uma legislação específica. Agopyan acredita que, no caso da USP, essa modalidade deve ser pensada e estruturada para um horizonte de dez a vinte anos.

Mais imediata é a possibilidade de que a universidade preste serviços tanto a empresas quanto a entidades ou órgãos públicos, oferecendo apoio e projetos a prefeituras, por exemplo. Essas iniciativas fazem parte da concepção do reitor de que a USP deve intensificar suas relações com a sociedade. Já na primeira semana no cargo, Agopyan assinou convênios com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e com o Tribunal de Contas do Estado para facilitar o trânsito dos conhecimentos produzidos na universidade. "Temos que nos aproximar cada vez mais do poder público para apresentar propostas de políticas públicas, e ampliar também a interação com o setor produtivo'; defende. ''A universidade sempre trabalha no limite. Q\Ianto mais dinheiro colocarmos na pesquisa, melhor'.