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Portal Luis Nassif - Blogs

Formação de Profissionais Qualificados

Publicado em 26 março 2012

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Em fevereiro de 2011, foi oferecido pequeno jantar para o presidente Obama no Vale do Silício da Califórnia. Foram convidados uma lista restritiva de convidados entre os líderes da tecnologia norte-americana. Steve Jobs, sentado ao lado do presidente, quando este pediu a cada um que sugerisse linhas de ação governamental, insistiu que era preciso encontrar maneira de formar maior número de engenheiros americanos.

A Apple tinha 700 mil operários trabalhando na China, disse ele, e essa era a razão por que ela precisava de 30 mil engenheiros no local, para supervisionar esses operários. "Você não encontra esse tanto nos Estados Unidos para contratar", argumentou. Esses engenheiros de fábrica não precisavam ser gênios nem ter doutorado; precisavam apenas ter uma formação básica de Engenharia de Produção. Poderiam se formar em escolas técnicas, faculdades locais ou cursos profissionalizantes. "Se você pudesse formar esses engenheiros, presidente Obama, poderíamos trazer mais fábricas para cá", concluiu.

Deng Xiaoping encerrou, em 1977, os abusos da Revolução Cultural. Começou a articular uma visão da modernidade chinesa. Enfatizou a importância da descentralização de decisões em país vasto com imensa população e diferenças regionais. Para tanto, a tecnologia moderna tinha de ser introduzida na China, dezenas de milhares de estudantes chineses seriam mandados para o exterior, porque, disse, "nada temos a temer com a educação ocidental".

"A chave para conquistar a modernização", argumentou, "é o desenvolvimento da ciência e tecnologia. E, a menos que prestemos especial atenção na educação, será impossível desenvolver a ciência e tecnologia. Devemos ter conhecimento e pessoal treinado para tirar o atraso em relação aos países desenvolvidos".

Diferentemente de Mao, além da ênfase na aquisição de conhecimento, Deng governou retomando outra tradição chinesa: invisibilidade do governante. Muitas culturas fortalecem a autoridade do governante mediante contato demonstrativo com os governados, onde a oratória é considerada um ativo para governar. Mao foi uma exceção, pois não existe tradição geral de oratória na China. Os líderes chineses por tradição não baseiam sua autoridade em habilidades retóricas ou no contato físico com as massas. Na tradição mandarim, operam essencialmente fora das vistas, legitimados pelo desempenho.

Decretando que "pobreza não é socialismo", Deng proclamou que a China necessitava obter tecnologia, especialização e investimento direto estrangeiro para remediar suas deficiências. Condenou os "tabus intelectuais" e o "burocratismo". O mérito deveria substituir a patrulha ideológica.

Dilma Roussef adotou o slogan "país rico é país sem pobreza". Deve resgatar a tradição brasileira de tropicalização antropofágica miscigenada das boas "ideias de fora".

Artigo de minha autoria (FNC), publicado originalmente na Revista FENAE Agora. Edição 73a. ano 15 - jan/fev 2012.

 Comentário meu no site dele:

 Caro Prof. Fernando,

 Pegando um gancho em seu artigo, em Deng Xiaoping, a cultura chinesa de milênios e o Brasil latino.

Por um lado, talvez nos extremos de duas frases bem conhecida de Deng Xiaoping, entre "pobreza não é socialismo" e "ficar rico é glorioso", e por outro, a pergunta de Henry Kissinger ao Primeiro Ministro Chinês, Zhou En Lai, no início dos anos 70, o que ele pensava, numa perspectiva histórica, sobre a revolução francesa de 1789. A resposta de quem tem cinco mil anos de história, de quem não é apenas uma nação, mas sim uma civilização: "É ainda muito cedo para dizer" ("it was too early to tell").

 O caminho oswaldiano da antropofagia que foi o nosso "modernismo tardio" (para usar uma expressão cara a "Escola de Campinas", João Manuel Cardoso de Mello e Ernest Mandel) em relação aos europeus, mas que leva as últimas consequências e se diferencia dele, ou seja, levar adiante a idéia européia, que foi a volta da cultura primitivista européia do fim do século XIX e início do XX, que tanto influenciou a pintura e as artes na Europa, "Manifesto Futurista" (1909), "A sagração da Primavera" (Igor Stravinsky, 1910), "O Bom Selvagem" (Rousseau, séc. XVIII), aqui no séc. XIX com Gonçalves Dias, José de Alencar, etc.

 O caminho oswaldiano nos leva a muitos outros, como o escritor inglês, Arnold J. Toynbee, que disse sobre o Brasil, "the melting pot of civilizations" (o caldeirão das civilizações), A journey around the world), de 1958.

 E nos leva ao Mestre Darcy Ribeiro,

(...) "a convicção a que eu chego é de que uma das coisas mais belas do mundo foi a aventura do Brasil se fazendo a si mesmo. Um povo que constitui um novo gênero humano. Não tem novidade nenhuma em fazer a Austrália: pega um bocado de ingleses e escoceses e joga no terreno vazio e eles matam os índios e ficam lá e fazem uma Inglaterra sem graça [risos]. Isto daqui é bobagem. Mas fazer um gênero humano novo, fundir herança genética e cultural, índia, negra e européia num gênero humano novo, numa coisa nova, que nunca houve. É isso a aventura brasileira e que eu resumo dizendo que o que nós somos, mesmo, é uma nova Roma." (...) "Então nós somos a nova Roma. A nova Roma é o Brasil. Uma Roma lavada em sangue índio, lavada em sangue negro, melhor, tropical, e que está chamada a representar um importante papel no mundo." (http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/63/entrevistados/darcy_ribeir...)

 Feito essa volta, vamos ao caminho que temos hoje, "país rico é país sem pobreza", ou como dizia mestre Darcy: "O mais importante, inventar o Brasil que nós queremos".

É preciso ter como linha do horizonte, o "longue durée" (Braudel e Annales), é preciso fazer um corte em nossa história, e esse corte na minha percepção é a constituição de 1988, somente nas últimas duas décadas, pela primeira vez em nossa história, o Brasil conseguiu realizar um projeto de educação para todos, coisa que nunca tivemos em nossos quase dois séculos de independência, e que os países do norte têm como tradição desde o século XIX. Portanto quando comparamos a educação e a ciência do Brasil com China, Coréia (principalmente, que iniciou esse processo nos anos 50), temos que levar em conta nossa realidade histórica e ter consciência que esse é um projeto de nação, de Estado e não só de governo.

O futuro não é dado, o futuro é construído, quem viver verá!

Sds,

Conti-Bosso

"engenharia dos laços sociais"