Notícia

Jornal Cidade (Rio Claro, SP)

Formação científica

Publicado em 09 junho 2021

Por Adilson Roberto Gonçalves

Os diários de Franz Kafka estão sendo publicados em nova edição no Brasil e cobrem um período importante da vida literária do escritor tcheco, coincidente com suas atividades burocráticas em escritório, das quais muito reclamava. Não se refere ao período de escolha do curso universitário a fazer e continuará a dúvida sobre sua decisão por fazer Química, curso que abandonou duas semanas depois de iniciar para seguir na formação em Direito. Em suas cartas da época nada consta sobre esse curto período, que me instiga sobremaneira: por que o transformador da literatura pensou em estudar a transformação da matéria? A revista Quatro Cinco Um deste mês traz uma resenha sobre o assunto, cuja versão digital está disponível para consulta no site: https: ww. quatro cinco um. com. lesas-literaturas-israelense/as-vidas-paralelas-de-kafka.

Especulo o quanto de formação nas ciências naturais influencia a poesia, a filosofia e a clareza no detalhamento de ideias. A Química tem pontuado a vida de outros escritores e personalidades políticas. Anita Leocádia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, é formada em Química Industrial pela UFRJ e doutora em Química Orgânica. Depois do exílio na antiga União Soviética, passou a estudar economia, filosofia e história. Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, escreveu sobre o que viu nos campos de concentração e era químico por formação, forte motivo de ter se mantido vivo, pois suas habilidades eram utilizadas. Até Angela Merkel, a chanceler alemã, é formada na mais bela das ciências.

A presença das chamadas ciências duras na formação daqueles que lidam com as Humanidades é muito importante e, a meu ver, dá uma margem para melhor embasar fundamentos e discussões. As Ciências Humanas são consideradas como de difícil entendimento pela variabilidade de respostas e sem uma evidente relação de causa e consequência.

Nas ações legislativas tal conhecimento também é necessário e no parlamento brasileiro há profissionais que atuam como assessores para a formulação de leis melhores. Estudos mostram que quanto mais baseada em ciência, mais robusta é a legislação. A Revista Pesquisa Fapesp do mês de maio, outro veículo importantíssimo para a divulgação científica, traz uma avaliação de tais funcionários no Congresso Nacional (revista pesquisa. fapesp. br assessoria cientifica).

As oitivas seguem na CPI da Pandemia no Senado Federal e vemos e ouvimos a falta que faz embasar perguntas e respostas em questões objetivas. A ciência está sendo vilipendiada, tanto no sufocamento orçamentário, quanto no desprezo e desentendimento de seus fundamentos. Esclarecimentos e indução à formação científica adequada têm sido feitos neste espaço e no Boletim Anti-Covid (https: sites. google. com/unesp. boletim-anticovid-19/), a questão são as distintas velocidades de construção e destruição do conhecimento. Construção é um processo longo, enquanto que a destruição- estamos vendo isso- pode ser obtida com algumas canetadas. #Iniciencias

(O autor é doutor em química pela Unicamp, livre-docente pela USP e pesquisador no IPBEN da UNESP- Rio Claro)