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Revista Valor Especial

Força-tarefa para conter a covid-19

Publicado em 01 novembro 2020

Por Simone Goldberg

Com a pandemia, iniciativas das empresas se voltam a inovar em testes e insumos para atender à demanda em todo o território nacional

A pandemia de covid-19 praticamente monopolizou os esforços de inovação na área da saúde neste ano, mas ainda assim outras iniciativas encontraram seu espaço. O Hospital Israelita Albert Einstein, à Coppe-UFR], a manguinhos Fiocruz, o Hospital das Clínicas dl São Paulo (HC) e diversas empresas, como a Imuno biotech, a Brightmed, a Hoobox e a Neoprospecta/BiomeHub, muitas vezes em parceria, criaram alguns desses projetos inovadores para enfrentar o novo coronavirus como para outras enfermidades.

Segundo josé Luis Gordon, diretor de planejamento e gestão da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embra pii) que faz a ponte entre empresa e centros de pesquisa, além de aportar recursos-, neste ano quase todos projetos de pesquisa em saúde foram relacionados à covid-19: somaram cerca de 60 e receberam em tomo R$ 30 milhões de apoio financeiro. “O setor que mais apoiamos é a saúde, incluindo startups.”

Um dos projetos apoiados pela Embrapii envolveu a produçao de proteina S responsável pela entrada do virus no organismo humano e insumo para testes mais eficazes de detecção da doença. À produção, iniciada em fevereiro, ocorre em células geneticamente modificadas no Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares (Lecc) da Coppe/UFRJ. A proteína já é fornecida a vários parceiros.

Um deles é a gaúcha FK Biotecnologia imuno biotech, que vinha trabalhando em um teste de coronavírus com o insumo importado. A partir do desenvolvimento da proteina S na Coppe, a empresa substituiu o material importado e criou o ImunoScov, um teste nacional da covil-19 mais preciso do que os similares rápidos. O produto está disponível nas regiões Sul e Sudeste. Além da Embrapii e da FKImunobiotech, o projeto contou com apoio do Sebrae e da Fiocruz. Segundo a sócia-diretora da Imunobiotech, Katia Delgado, há capacidade de oferecer mais de um milhão de testes.

“Como a produção de todos os insumos é nacional, atingimos escala, gerando independência tecnológica. Podemos atender a uma demanda nacional, oferecendo custo competitivo”, diz Katia. A tecnologia está sendo transferida para laboratórios parceiros no Sul e no Sudeste.

A proteina S da Coppe também foi fornecida à Biomanguinhos/Fiocruz para produzir testes rápidos, ao Instituto Vital Brazil (IVB) para à imunização de cavalos e produção de soro anticoronavínus e ao Hemorio para monitoramento de anticorpos, visando tratamento de pacientes graves por transfusão de plasma.

Testes para detecção do novo coronavírus está no portfólio de inovações do hospital Albert Einstein. Este ano criou, entre outras soluções, o VarsVid, baseado em sequenciamento de nova geração. Usa algoritmos de inteligência artificial desenvolvidos e patenteados pelo Einstein, e tem precisão equivalente ao RT-PCR, considerado o padrão de referência.

A vantagem da inovação é permitir a realização simultânea de mais amostras, servindo de alternativa para a testagem em massa, “ação vital para à tomada de medidas imediatas de tratamento, previsão da demanda para o sistema de saúde e controle da expansão dos casos”, diz o presidente do Einstein, Sidney Klajner. Com investimentos de cerca de 2% a 3% da receita liquida em pesquisa e inovação, o Einstein redirecionou recursos para projetos de enfrentar a pandemia. É mantém o ecossistema de inovação Eretz. bio, com empresas que inovaram focando na covid-19,

A Hoobox e a Radi square são exemplos. Desenvolveram o Fevver, um equipamento de medição automática de temperatura com sensores térmicos infravermelhos, que foi incorporado na rotina do hospital. A tecnologia adianta a triagem ao enviar para os enfermeiros, por meio de um aplicativo, alertas sobre os pacientes que apresentarem febre. Dessa maneira, a primeira assistência é feita em ambiente isolado. O sistema de termografia foi instalado em todas as entradas do hospital.

“O Fevver é composto 100% por tecnologias proprietárias e sua forma de aferição de temperatura é validada cientificamente”, diz Claudio Pinheiro, COO da Hoobox. O produto está instalado em centros comerciais, fábricas, indústrias e outros hospitais, além do Einstein. "Estamos desenvolvendo soluções para serem incorporadas ao Fevver e, com isso, aumentar ainda mais o potencial de mercado da tecnologia”.

Na área de medicina da Universidade de São Paulo (USP), a covid-19 exigiu inovações em curto espaço de tempo. Desenvolvida pelo Instituto de Radiologia (InRad) da USP e pelo InovaHC- braço de inovação é tecnologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP- e lançada em abnil, a RadVid é uma plataforma que usa a inteligência artificial para diagnóstico do novo coronavirus. Disponível grátis para todo o Brasil, realiza a leitura de raios X e tomografias computadorizadas e indica a probabilidade de a pessoa estar ou não infectada.

“ O processo, rápido e simples, acontece via identificação de padrões comuns da doença nos exames de imagem. A ferramenta mostra o grau de comprometimento pulmonar e, assim, cria um banco de dados, que pode auxiliar mélicos a definir a conduta e possivel tratamento mesmo antes do resultado de outros tipos de teste ”, diz Giovanni Guido Cerri, presidente do conselho diretor do InRad e presidente da comissão de inovação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

A plataforma foi viabilizada pelo movimento Todos pela Saúde, com apoio do ltaá Unibanco e da Petrobras. Entre os parceiros tecnológicos estao Amazon Web Services, GE Healthcare, Huawei Cloud e Siemens Health ine eis. Além do virus, hã uma série de inovações em curso ou sendo utilizadas.

A startup Brightmed, incubada no InovaHC, criou uma terapia digital analgésica, voltada para doenças musculoesqueléticas. O cientista-chefe cla empresa, Marcelo Sousa, diz que a terapia foi desenvolvida a partir de pesquisas sobre foto bio modulação (FBM) conduzidas na USP e em Harvard, validadas por ensaio clínico do HC e que permitem tratar de forma personalizada cada paciente. O investimento chegou a cerca de R$ 5 milhões e as vendas começaram em janeiro deste ano para médicos.

Os procedimentos de fotobiomodulação terapêutica (FBMT) mais usuais são realizados por iluminação de baixa potência, que não aquece a pele. É aplicado diretamente no local da dor ou da lesão para acelerar os processos celulares, que levam ao alívio do incômodo e à diminuição da inflamação. Sousa teve várias fontes de recursos e parceiros na sua jornada: Fapesp, crowdfunding e um primeiro investidor de capital de risco, o Parallax Ventures. Agora, está em nova fase de captação de recursos, visando uma expansão nos Estados Unidos. “A pandemia retardou o nosso crescimento, mas em média nosso aumento mensal de vendas neste ano foi de 50%”, diz. Para 2021, a expectativa é de um salto de cinco vezes no faturamento.

Ainda no campo dos medicamentos, a Farmanguinhos/Fiocruz está desenvolvendo uma nova primaquina, medicamento para malária, tornando-o mais estável, seguro eficaz. À primaquina é o único composto capaz de eliminar a forma hepática ou dormente da doença.

À Farmanguinhos obteve a autorização para a produção e distribuição da nova formulação de primaquina em agosto deste ano e está trabalhando na aquisição dos insumos para a produção industrial A instituição se prepara para a entrega de mais de cinco milhões de doses do novo medicamento para o Programa Nacional de Controle e Prevenção da Malária, que fará a distribuição do medicamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Juliana Johansson, responsável pela clivi sao de desenvolvimento tecnológico de Farmanguinhos/Fiocruz, é dificil discernir entre uma reinfecção pelo parasita da malária e um quadro de resistência medicamentosa.

A startup Neo prospecta, do ecossistema de inovação do Einstein, criou uma plataforma para controle de infecção hospitalar, que mapeia áreas contaminadas e analisa os perfis dos micro-organismos. As informações sao acessadas por meio de um software que auxilia os profissionais nas tomadas de decisão. A vantagem, além de salvar vidas, é a redução dos custos, “porque um paciente internado com infecção hospitalar pode gerar uma despesa de até quatro vezes mais do que outro sem infecção”, diz Luiz Felipe Valter de Oliveira, fundador e CEO da BiomeHub e cofundador da Neo prospecta.

A BiomeHub, nascida da Neo prospecta, desenvolve tecnologias relacionadas à análise de microbioma com foco em saúde humana. À empresa pretende colocar no mercado, até o primeiro trimestre de 2021, um teste de microbioma c ér vico vaginal, chamado de HerBiome, que está em fase de validação. Também mira o mercado odontológico. O Probiome, um teste do microbioma intestinal que ajuda mésicos a entender melhor a relação do microbioma intestinal dos seus pacientes com a condição clinica que está sendo analisada, já está no mercado. “ Um dos pontos que fazem com que tenhamos uma alta capacidade de inovação é a quantidade de colaboradores com mestrado e doutorado ”, diz Oliveira.