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Força natural na criação de novos fármacos

Publicado em 16 novembro 2006

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Luiz Carlos Dias, da Unicamp, fala sobre o desenvolvimento da área de síntese de produtos naturais bioativos no Brasil e sua importância para a descoberta de novos fármacos

A síntese de produtos naturais bioativos tem progredido no Brasil e poderá desempenhar um papel decisivo no desenvolvimento de novos fármacos.
Mas, para que isso ocorra, é fundamental que haja maior interação entre os grupos que trabalham em diferentes áreas, como síntese orgânica, química medicinal, produtos naturais, espectroscopia de ressonância magnética nuclear e espectrometria de massas.
As afirmações são de Luiz Carlos Dias, professor do Departamento de Química Orgânica do Instituto de Química da Unicamp.
Um exemplo dessa interação foi a própria presença de Dias no 3º Simpósio de Química Medicinal, em São Pedro (SP), onde se encarregou de mostrar o que é possível fazer em termos de síntese orgânica no Brasil.
"Destaquei a importância da área de síntese orgânica para o desenvolvimento de fármacos e os progressos recentes em nosso grupo de pesquisa. Mostrei que, no Brasil, podemos sintetizar moléculas de alta complexidade estrutural — e certamente também moléculas simples do ponto de vista estrutural", disse Dias à Agência Fapesp.
Dias lidera, na Unicamp, um grupo de 15 pesquisadores que se dedica à síntese total de moléculas isoladas a partir de fontes naturais.
"Trabalhamos com síntese de produtos naturais bioativos e também não naturais, com atividade farmacológica destacada. Temos interesse em compostos isolados, por exemplo, de plantas e esponjas marinhas. Sintetizamos esses compostos para fornecer material para futuros testes clínicos. Sintetizamos moléculas como imunossupressores, agentes antitumorais, inibidores de HIV protease, inibidores de gama-secretase — as duas últimas puramente sintéticas — e outras com atividade como antibióticos", explicou.
Um exemplo do trabalho desenvolvido pelo grupo foi a síntese da molécula conhecida como calistatina A, que apresenta potentes propriedades antitumorais.
A molécula foi isolada de uma esponja marinha em quantidades muito pequenas — um quilo da esponja fornece apenas um miligrama do produto natural. Mas os pesquisadores sintetizaram a molécula em laboratório e puderam obter 15 miligramas do material, possibilitando testes clínicos.
"A síntese orgânica permite a obtenção em maior escala de compostos isolados de fontes naturais. Este trabalho é extremamente importante no sentido de preservar nossa fauna e nossa flora", disse Dias.
Um exemplo disso é o taxol, molécula estruturalmente complexa empregada no tratamento de alguns tipos de câncer.
"Este composto foi isolado em 1962, da casca da árvore Taxus brevifolia. Como para se obter um quilo de taxol seria preciso derrubar 3 mil árvores, foi empregada a alternativa da síntese total", explicou.

Novos fármacos
A área de síntese orgânica no Brasil é relativamente nova.
"Há muita gente trabalhando, mas não especificamente com a síntese total de moléculas. É uma área que depende muito de suporte financeiro, já que os reagentes são importados. A maior parte dos trabalhos nessa área é feita no Estado de São Paulo, graças ao apoio da Fapesp", explicou Luiz Carlos Dias.
Segundo o pesquisador, há uma conjunção de fatores favoráveis para se descobrir novos fármacos.
O químico de produtos naturais isola essas substâncias para que a estrutura química das moléculas seja confirmada — usando métodos espectroscópicos e técnicas de raio X — e para que sejam realizados testes de atividade biológica com esses compostos.
Depois, se a molécula for interessante do ponto de vista da atividade farmacológica, busca-se a síntese orgânica para obter maiores quantidades para realizar testes in vitro e in vivo.
A importância da síntese se reflete no mercado. A revista norte-americana Chemical Engeneering News publicou em 2005 uma lista de 46 drogas que tiveram enorme impacto na saúde. Cerca de 80% são compostos sintéticos.
"A lista vai da aspirina, molécula simples que é o analgésico mais consumido no mundo, ao viagra, passando pelo crixivan (utilizado no tratamento de Aids), taxol (para o câncer) e ritalina (tratamento de déficit de atenção em crianças)", explicou.
Nos últimos cinco anos, de acordo com Dias, cerca de 65% das novas drogas aprovadas para testes clínicos em várias fases eram derivadas de produtos naturais — sendo que cerca de 5% eram produtos naturais e 60% produtos sintéticos baseados em produtos naturais.
Os outros 35% eram produtos puramente sintéticos, o que mostra a importância da síntese de produtos orgânicos para a descoberta de novos fármacos.
Dos dez produtos mais vendidos da indústria farmacêutica, segundo Dias, nove são produtos sintéticos e o outro é uma proteína.
"Outro ponto extremamente interessante é que os dois líderes na lista, as drogas Lipitor, em primeiro na lista, com vendas que superaram US$ 12,7 bilhões em 2005, e Zocor (US$ 5,6 bilhões em 2005), cujos ingredientes ativos são a atorvastatina e a simvastatina, respectivamente, são compostos sintéticos formulados com base em informações obtidas a partir de produtos naturais", disse Dias.