Notícia

Minas Petro

Força do carro flex pode embarreirar novas tecnologias de combustão, aponta RCGI

Publicado em 26 março 2021

Um estudo que avaliou a dinâmica do mercado de combustíveis automotivos aponta que a opção brasileira pelo flex-fuel – que predomina na frota com mais de 90% de participação – pode representar uma barreira para a expansão de veículos com novas tecnologias não poluentes, como elétricos ou movidos a hidrogênio.

Uma das conclusões é que a alternativa híbrida etanol-elétrico tem mais chances de competir e descolar a demanda pelos veículos gasolina-etanol.

Essa é, inclusive, a aposta do mercado de açúcar e etanol brasileiro para a descarbonização da frota e disputar com a tendência global de crescimento das frotas 100% elétricas, como ocorre em grandes mercados, como dos EUA e da China.

O estudo feito por meio do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI), centro de pesquisa da escola politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

“Acredito que algumas tecnologias, eletricidade e hidrogênio, por exemplo, devem virar nicho de mercado, assim como ocorreu com o gás natural nos carros de passageiros”, afirma o pesquisador.

O estúdio foi publicada pelo pesquisador Thiago Luís Felipe Brito, doutor em Energia pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP), na Transportation Research.

A política tem peso

Com o estudo, foi possível atestar que, de fato, políticas públicas de incentivo têm grande efeito em alterar os padrões de consumo. A iniciativa do flex, especialmente pós-2005, criou um mercado de veículos muito resistente a mudanças e representa 90% da frota nacional.

Isto é, o flex gasolina-etanol protege o consumidor da volatilidade nos preços dos combustíveis, dificultando a entrada de novas opções – um produto com inelasticidade próxima a zero, destacou o RCGI.

“Obviamente, que o preço dos combustíveis não é a única variável que afeta as vendas de carros, mas fica clara a necessidade de assegurar a competitividade de tecnologias que usam combustíveis alternativos, caso se queira abrir mercado para elas”, diz Brito, em comunicado para imprensa.

“A proposta desse estudo foi dar alguns parâmetros confiáveis de elasticidade para os formuladores de políticas públicas, pelo menos no que se refere à relação mercado de vendas de carros e preços de combustíveis”, conclui.

Em geral, o mercado brasileiro trabalha com uma relação de eficiência de 70% entre o etanol e a gasolina. Quando o biocombustível custa 70% ou menos que a gasolina, passa a ser vantajoso para o consumidor abastecer com etanol hidratado.

Isso de um ponto de vista do rendimento, já que pode pesar para o consumidor os benefícios ambientais do etanol.

Quatro décadas de políticas energéticas

A pesquisa analisou a elasticidade direta e cruzada dos preços dos combustíveis em relação à participação de mercado dos carros de passeio movidos à gasolina e etanol, entre 1980 e 2002, e posteriormente dos modelos flex, entre 2003 e 2017.

Usou dados da Associação Brasileira da Indústria Automotiva (ANFAVEA), do Escritório de Pesquisa Energética (EPE) e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB).

Entre 1980 e 1990, os carros movidos a etanol levaram vantagem, beneficiados pelos incentivos do ProÁlcool – Programa Brasileiro do Álcool, com subsídios para produtores de etanol, fabricantes de veículo e na venda dos veículos.

Com o choque no mercado nos anos de 1990 e o deslocamento da produção para o açúcar, combinados com incentivos para os carros de baixa cilindrada a gasolina, os modelos a etanol passaram a ser preteridos.

O perfil da compra dos veículos não se alterava nem sequer nos ciclos de baixos preços do etanol.

“A participação dos carros à gasolina tornou-se então altamente inelástica; por maior que fosse a variação do preço da gasolina, o consumidor continuava preferindo carros com essa tecnologia”, afirma Brito.

Nos anos 2000, especialmente a partir de 2005, quando melhorias na tecnologia flex resultaram em um aumento de 40% na eficiência energética, as vendas dispararam.

A pesquisa contou com a contribuição dos professores Towhidul Islam (University of Guelph – Canadá) e Marc Stettler (Imperial College London – Reino Unido), que orientaram Thiago Brito em seu doutorado sanduíche e contribuíram com a proposição da metodologia e a revisão dos cálculos.

Os professores Edmilson Moutinho dos Santos e Dominique Mouette, ambos do IEE/USP, acompanharam o trabalho do pesquisador e contribuíram com a visão nacional no estudo.

Com informações do RCGI

Editada por Gustavo Gaudarde ([email protected])