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Observatório da Imprensa

Fontes viciadas: conformar-se ou formar

Publicado em 30 dezembro 2014

Por José Paulo Kupfer

A produção, no Brasil, de um jornalismo de qualidade, aquele em que são contemplados diversos ângulos das questões, com as necessárias contextualizações, vem passando por percalços. A relação entre fontes e repórteres, pilar crucial desse jornalismo, foi afetada por vícios de comportamento que contaminam o fazer cotidiano das redações.

Todas as editorias convivem com esse problema de fundo, que conduz a coberturas desequilibradas. Elas aceitam e reforçam interpretações parciais, preferidas pelo mainstream do pensamento nas diversas áreas cobertas, quase sem abrir espaço para a diversidade de fontes e visões divergentes. Isso afeta desde a pauta até a edição de textos e imagens.

A cobertura de economia não é a única em que o fenômeno se apresenta. Nos temas de saúde, nas questões da educação e nos assuntos urbanos, por exemplo, os mesmos problemas das fontes viciadas podem ser localizados. Mas é na economia que o problema parece mais disseminado.

Levantamentos cobrindo as menções, nas editorias de economia, a fontes e instituições, nos três jornais impressos de expressão nacional – Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo –, no período de um mês, de 2012 a 2014, dão indícios dessa concentração em determinadas fontes de informação. Conclui-se que a diversificação de fontes é baixa, ocorrendo um desequilíbrio entre as linhas de pensamento que sustentam as análises, com predominância de visões de política econômica com viés de mercado, ditas neoliberais.

Há forte incidência de instituições e fontes de governo, bem como a participação de representantes de associações setoriais e de categorias profissionais. No caso das instituições e fontes do setor privado, a predominância é daquelas que representam bancos, consultorias econômicas e instituições de ensino de corte declaradamente neoliberal, adeptas da aplicação de políticas econômicas ortodoxas. Coincide também serem instituições apoiadas por assessorias profissionais, no relacionamento com a imprensa.

Em 2014, por exemplo, apenas as dez instituições mais citadas responderam por metade do total de citações, confirmando a concentração de fontes. Dentre elas, 30% das menções vieram de órgãos do governo e 7%, de associações setoriais. Os demais 63%, ou seja, duas em cada três citações entre as dez mais citadas, vieram de instituições privadas representantes de bancos, consultorias e escolas de economia, todos de linha liberal. Destaques para a Fundação Getulio Vargas, do Rio de Janeiro, e a consultoria privada Tendências, que, entre as dez mais citadas, responderam por quase metade das citações.

Viés na cobertura

Deve-se relativizar o valor estatístico dos levantamentos, mas nem por isso seus resultados são menos valiosos para a confirmação do fenômeno das fontes viciadas. Os levantamentos abrangeram, a cada ano, as matérias publicadas no mês anterior aos congressos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), e, assim, as questões prevalentes nas épocas em que as pesquisas foram realizadas marcaram as pautas e, consequentemente, as instituições e fontes consultadas. Em março de 2012, por exemplo, as altas nas cotações do dólar eram tema de maior interesse da cobertura, assim como as concessões de infraestrutura, em setembro de 2013, e as perspectivas de baixo crescimento e outros problemas macroeconômicos, em junho de 2014. Consolidada nos últimos 15 anos, a característica da cobertura em economia – hegemonia das posições neoliberais como pano de fundo das análises e mesmo das pautas –, confirmada pelos levantamentos acima mencionados, poderia dar a impressão de derivar da aderência de conteúdo à linha editorial dos veículos. Coincidentemente, as páginas dos editoriais publicam análises da cena econômica a partir de visões identificadas com a ortodoxia econômica, criticando ou elogiando atitudes e políticas governamentais com base nessa régua.

Não é essa, porém, a melhor conclusão a que se poderia chegar cotejando as posições expressas nas páginas dos editoriais e a cobertura das seções de economia. As mesmas visões dos acontecimentos estão de fato presentes em ambas e talvez os editoriais forneçam um “regaço” confortável às escolhas das editorias. Trata-se, possivelmente, de um elemento que potencializa o fenômeno das fontes viciadas, mas não é, certamente, seu principal motor.

Fontes viciadas frequentam o noticiário nas mais variadas editorias. Uma área particularmente afetada é a de saúde, sobretudo nas pautas relacionadas com notícias dos transtornos mentais, seus impactos, abrangência e tratamentos. Pois também aqui é avassaladora a concentração de fontes no mainstream da psiquiatria.

Origem do problema

Visões alternativas, inclusive algumas das mais importantes e socialmente bem inseridas, fora da medicina, caso da psicanálise, estão praticamente alijadas dos debates reproduzidos ou promovidos pela imprensa. Não há razão objetiva para essa exclusão, até porque o conhecimento psicanalítico tem valor científico, o que é reconhecido pelo mundo acadêmico e comprovado pelas linhas de financiamento à pesquisa em psicanálise oferecidas por instituições de fomento à pesquisa, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no caso brasileiro, e de inúmeras outras, de grande prestígio, mundo afora.

O exemplo acima ajuda a argumentar que o problema das fontes viciadas não deriva de imposições ou vedações “de cima”. Se, no caso da economia ou, mais ainda, no da política, é fácil imaginar que as pautas obedecem a ordens ou pelo menos indicações “superiores”, muito mais difícil é considerar que também a predominância absoluta das fontes psiquiátricas, nas pautas de saúde mental, vem de indicações da direção das empresas.

Se o tradicional suspeito de sempre não parece ser o verdadeiro vetor das fontes viciadas, onde então é possível localizar a origem do problema? A resposta talvez esteja no modo predominante de produzir notícia hoje nas redações. Os jornalistas, ao longo das últimas décadas, foram se tornando cada vez mais passivos diante das informações que podem se transformar em notícia.

Não se pode determinar, sem estudos e levantamentos específicos, a parcela de notícias publicadas com origem em informações transmitidas a jornalistas, por iniciativa da fonte ou de assessores, em contraste com aquelas que são fruto de apuração própria do profissional. Mas é intuitivo que o porcentual seja alto e revelador de prática disseminada. Por múltiplas razões, que vão, entre muitas outras, das facilidades propiciadas pela internet – mecanismos instantâneos de busca e pesquisa, instrumentos de comunicação direta, como redes sociais, e-mails, skype etc. – a dificuldades de mobilidade urbana, passando por ciclos de produção contínuos e multiplicação de tarefas, a atividade de apuração jornalística tornou-se crescentemente sedentária.

Esse formato de produção ensejou tanto a necessidade quanto a oportunidade de ampliação da oferta externa de fontes de informação. Não por acaso, o mercado de agências de comunicação registrou, nas últimas duas décadas, expansão em escala chinesa. As assessorias de imprensa se multiplicaram, especializaram-se, transformaram-se em produtoras de informações básicas, num movimento de crescimento em sentido contrário ao vivido pelas redações. Enquanto as redações encolhiam, as assessorias inchavam. Não só isso, foi tomando corpo uma assimetria entre a preparação das assessorias para o relacionamento com a imprensa e a falta de preparo das redações para esse relacionamento. Refletindo esse momento, as caixas de e-mails dos jornalistas começaram a ser infestadas de ofertas de fontes.

O case da BB Investimentos, apresentado no Prêmio da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), em 2013, ilustra a situação. Decidida a incluir seus analistas na agenda dos jornalistas, a subsidiária de investimentos do Banco do Brasil desenvolveu um projeto específico de relacionamento com jornalistas que resultou num aumento de 445% nas pautas recebidas, entre o primeiro semestre de 2012 e o primeiro semestre de 2013. No mesmo período, a visibilidade da empresa na mídia, medida em pontos no Iqem – um índice ponderado de exposição na mídia, desenvolvido pela agência de comunicação CDN –, cresceu 75% no total e 194% no segmento de jornais nacionais.

Estavam sendo assentadas assim as bases para o desenvolvimento do que se poderia chamar de “jornalismo de prateleira”. O “jornalismo de prateleira” pode ser qualificado como tal porque opera de modo similar ao funcionamento de um supermercado, onde os produtos expostos em gôndolas são escolhidos e colocados nos carrinhos pelos consumidores. Nas redações, as fontes oferecidas pelas assessorias de imprensa são alcançadas pelos jornalistas para fornecer dados, números, interpretações e aspas que comporão os textos ou, diretamente, produzirão análises para ajudar a contextualizar os fatos noticiados.

Com os devidos créditos profissionais, que as tornam elegíveis para aspas, as fontes oferecidas são treinadas para atender aos jornalistas no tempo curto de que dispõem e com argumentação sintética, recheada de números comprobatórios de suas análises, sob medida para os textos resumidos e “objetivos” exigidos pela edição. Facilitam, enormemente, desse modo, o trabalho dos jornalistas e se tornam tão mais assíduas nas páginas quanto mais aprendem a se adaptar às necessidades de concisão e rapidez dominantes nas redações. Sem filtros ou controles, e muito menos exigências de diversificação, a repetição das fontes se torna regra e o vício das fontes se instala.

Participação no debate público

Não há nada de errado no trabalho das agências de comunicação e de suas assessorias de imprensa. É obviamente legítimo treinar assessorados para o relacionamento com a imprensa. Esse trabalho colabora, inclusive, para reduzir ruídos na comunicação e ajudar na transmissão mais correta das informações transmitidas. É claro também que todo esse esforço atende a interesses das fontes em participar do debate público de temas do momento pela imprensa. A exposição nas páginas editoriais tem valor excepcional para a captura e manutenção de clientes ou, no mínimo, para luzir o ego do entrevistado e reforçar seu prestígio entre pares e na sociedade. Há, sim, moeda de troca envolvida, mas, se ela se restringe ao fornecimento de informações, é natural e bem-vinda.

O problema é que a facilidade de acesso às fontes assessoradas, o que inclui a hoje importante possibilidade de encomenda de artigos assinados, para entrega em poucas horas, no tamanho combinado e com texto final, vicia. O resultado é uma repetição excessiva das mesmas fontes, empobrecendo o debate e, mais do que isso, fechando espaços a visões e interpretações divergentes. O objetivo clássico do jornalismo – oferecer diversos ângulos do fato – fica inteiramente comprometido.

Possíveis fontes divergentes, não assessoradas profissionalmente para o relacionamento com a imprensa, costumam, salvo poucas exceções, permanecer invisíveis para os jornalistas. Além de exigirem esforço adicional do jornalista para “descobri-las”, demandam em geral trabalho paciente de formação. É preciso convencê-las do valor social de sua participação no debate público via mídia e “treiná-las” para o tempo e os formatos, normalmente mais rápidos, concisos ou mesmo mais superficiais, típicos do jornalismo e diferentes daqueles com os quais elas estão acostumadas, notadamente o acadêmico. Em uma palavra, além de descobrir fontes diversificadas, é necessário, quase sempre, formá-las.

Transformar o quadro atual exigiria um retorno aos tempos, meio século atrás, em que, no Brasil, as editorias de economia ganharam espaço próprio e começaram a se desenvolver, na esteira do “milagre econômico” e das restrições impostas pela ditadura militar à cobertura de política e mesmo de assuntos do cotidiano. Nas décadas de 1960 e 1970, os jornalistas da área precisavam formar suas fontes, treiná-las nesse fazer específico, depois de convencê-las a dar entrevistas e fornecer informações.

Com a cristalização do vício das fontes, torna-se relevante decidir o que cabe aos jornalistas e aos comandos da redação: conformar-se com a situação ou formar novas. Se jornalismo de qualidade depende de fontes diversificadas de informação, está mais do que na hora de adotar novas exigências e novos procedimentos, capazes de assegurar sua diversidade. Medidas simples, como o controle metódico das fontes mencionadas e a adoção de metas de diversidade já ajudariam a evitar repetições exageradas, que rebaixam a qualidade do jornalismo praticado nas redações.

*** José Paulo Kupfer é colunista do Estado de S.Paulo, comentarista da TV Estadão e articulista do jornal O Globo

Reproduzido da Revista de Jornalismo ESPM nº 11 (outubro, novembro e dezembro de 2014)