Notícia

Revista Pesquisa Médica

Fôlego para a pesquisa

Publicado em 01 janeiro 2009

Por Andrea Polimeno

A produção científica brasileira vive momento de glória, favorecida por uma pressão social que levou os últimos governos a investir fortemente em pesquisa

Ricardo Renzo Brentani idealizou e implementou o primeiro curso de pós-graduação em um hospital privado brasileiro, o Hospital do Câncer A.C. Camargo - instituição de referência hoje na pesquisa, ensino e assistência oncológica. A produção científica do hospital tem impacto de 4,25% dos papers publicados nesta área, segundo Brentani. A revista Cancer Research chegou a dedicar uma capa a um estudo de seqüenciamento genômico que identificou o potencial de lesões benignas de tornarem-se malignas para o diagnóstico precoce de câncer de estômago com base na tecnologia molecular. Brentani passou as últimas três décadas entre as funções de diretor do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre Câncer de São Paulo, diretor do Hospital do Câncer A.C. Camargo, presidente da Fundação Antonio Prudente e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) - além de presidir o Conselho Diretor do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da FMUSP e integrar a diretoria da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e participar dos conselhos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ricardo Brentani diz querer mais: "O meu sonho é que nossa produção seja ainda mais volumosa e que tenha ainda mais qualidade". Na entrevista a seguir, ele fala sobre o conhecimento atual em oncologia, critica o ensino da medicina no Brasil e defende a volta do intercâmbio entre residentes na América Latina.

Pesquisa Médica - Como o senhor avalia o estado atual da produção científica em oncologia no Brasil?

Ricardo Renzo Brentani - Tenho acompanhado a demanda por custeio de projetos de pesquisa e posso observar que a área de produção de conhecimento em oncologia está crescendo muito. Há mais gente fazendo pesquisa, mais gente buscando apoio. Segundo os dados de Jorge Guimarães (presidente da Capes), a área de biomedicina é a mais prolífica no Brasil e, dentro da medicina, a que obtém mais impacto é a oncologia.

Pesquisa Médica - A pesquisa brasileira tem obtido recursos suficientes?

Ricardo Renzo Brentani - Sim. Os recursos para a pesquisa no Brasil aumentaram, de forma geral. O governo está gastando 0,8% a 0,9% do PIB [produto interno bruto] em ciência, mas o PIB também aumentou. Como a nossa comunidade científica ainda é relativamente pequena, temos dinheiro. Falta de recursos não é mais uma desculpa legítima para não pesquisar.

Pesquisa Médica - Quais fatores contribuíram para esse cenário favorável, na sua opinião?

Ricardo Renzo Brentani - Acredito que o cenário atual seja resultado de uma pressão social. A política funciona da seguinte maneira: se ninguém reclama, não se asfalta uma rua. Acho que houve a percepção de que ciência é, sim, um fator de promoção social.

Pesquisa Médica - A oncologia brasileira tem se destacado em qual área?

Ricardo Renzo Brentani - Diria que em cirurgia. Temos cirurgiões muito bons. A cirurgia é uma vocação, é extremamente pessoal. Alguns dos melhores cirurgiões estão aqui no Hospital do Câncer. Existe uma noção na sociedade de que se a pessoa possui dinheiro deve buscar atendimento em um hospital que não seja ligado ao SUS [Sistema Único de Saúde] - seja por causa da hotelaria ou da infra-estrutura. Mas essa idéia é equivocada porque ninguém tem tanta experiência no manejo de doenças como o câncer quanto os profissionais que atendem pelo SUS. Isso ocorre porque a casuística acaba sendo muito grande, e quem realiza 500 procedimentos por ano tem, evidentemente, mais experiência do que aquele que realiza 50 ou cinco.

Pesquisa Médica - Mas os médicos sabem disso?

Ricardo Renzo Brentani - Sabem, e as pessoas, no geral, deveriam pensar sobre isso: o peso da experiência como uma qualidade do atendimento. Isso é muito importante na hora de buscar um profissional. A questão da qualidade do ensino me preocupa. Estamos tendo cada vez mais comprovações inequívocas de que as faculdades de medicina não ensinam medicina. Saiu recentemente uma avaliação do MEC [Ministério da Educação] sobre a qualidade de ensino. Os números eram muito desfavoráveis. Fecharam alguma escola? Não. Vão fechar? Não sei. Então, isso é preocupante.

Pesquisa Médica - O Cremesp também aplicou uma avaliação recentemente...

Ricardo Renzo Brentani - Exato. O Cremesp [Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo] aplicou um exame aos formandos que se apresentaram voluntariamente. O resultado foi 61% de reprovação. Esse exame não tem validade formal, ou seja, essas pessoas irão exercer a medicina exatamente como aquelas que foram aprovadas. Portanto, muitos pacientes poderão ser prejudicados pela qualidade dos médicos que irão atendê-los. Foi publicado um paper recentemente com os resultados do estudo CONCORD (Cancer survival in five continents: a worldwide population-based study1) mostrando um dado óbvio: a mortalidade de câncer no Brasil é maior do que seria razoável de se esperar. Por quê? Porque o ensino da medicina é ruim.

Pesquisa Médica - Qual é o papel dos médicos e qual é o papel das políticas públicas na área de oncologia no País? Como estão caminhando um e outro?

Ricardo Renzo Brentani - Ambos desempenham papel importante na prevenção da doença, em primeiro lugar. O impacto da mudança de hábitos de vida para prevenir o câncer é indiscutível e inúmeros trabalhos comprovam a influência de atitudes simples, como adotar uma dieta adequada e praticar exercícios físicos. Deveríamos ser capazes de prevenir todas as doenças cujas causas conhecemos e hoje sabemos as causas de 75% dos tumores. Sabemos que pelo menos 35% das causas de câncer estão relacionadas ao cigarro; 98% dos cânceres de pulmão são causados pelo tabagismo e 15% estão relacionados ao álcool. Em relação à maioria dos vírus que causam câncer, que correspondem a 10% dos tumores, há vacina. A cobertura vacinal contra a hepatite B, por exemplo, teve início há cerca de 25 anos e hoje temos dados mostrando claramente uma redução muito significativa de câncer de fígado. Recentemente passamos a dispor da vacina contra o HPV [papilomavírus humano], que corresponde a 7% dos tumores humanos. Sem dúvida, dentro de 20 anos, representará um impacto positivo na prevenção, embora hoje a vacina não proteja contra todos os tipos de HPV. Em contrapartida, o governo atual está menos preocupado com a erradicação do tabaco do que os governos anteriores. É uma pena, porque o Brasil continua a ser o país onde houve o maior percentual de redução no número de fumantes. Programas como esses são papel da política pública. Quanto aos médicos, devem fazer um esforço para se atualizar. A medicina está evoluindo muito. Aqui no hospital A.C. Camargo temos a preocupação de propor cursos de atualização, de especialização, de maior ou menor duração. Os médicos têm de estar preparados para orientar corretamente as pessoas.

Pesquisa Médica - O A.C. Camargo foi o primeiro hospital privado a oferecer cursos de pós-graduação e hoje está entre as melhores instituições brasileiras...

Ricardo Renzo Brentani - Sim. Ainda hoje é o único hospital privado a oferecer mestrado e doutorado em Oncologia. E é o terceiro ano consecutivo que o A.C. Camargo obtém a nota máxima na avaliação da Capes.

Pesquisa Médica - Como surgiu a idéia de implementar um programa de ensino no hospital?

Ricardo Renzo Brentani - Pouco depois de chegar à instituição, na década de 1980, passei a interagir com os jovens médicos e pude convencê-los da importância de produzir conhecimento e defender teses. Tinha em mente unir minha experiência como professor titular de medicina da USP à existência de uma área de pesquisa em oncologia no próprio hospital. Na época, vários desses jovens se qualificaram, pudemos formar uma equipe e o hospital passou a ter produção científica própria. Passamos a atender aos critérios determinados pela Capes para obter a aprovação do nosso programa de pós-graduação. A Capes o aprovou sem grandes questões.

Pesquisa Médica - No início, a sua ida para a instituição não estava relacionada à criação de um programa de ensino propriamente...

Ricardo Renzo Brentani - Cheguei ao Hospital do Câncer para criar uma fi lial do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo, em 1983. Em 1990, passei a presidir também a diretoria executiva do hospital e durante todo esse período fui professor titular de Oncologia da FMUSP. Dirigi o Ludwig até 2005, quando o instituto passou a não mais integrar a mesma planta física do hospital, mas mantivemos a cooperação científica. O programa de ensino foi sendo desenvolvido nesses anos todos e o resultado é que hoje temos 54 docentes e mais de 100 alunos nos cursos de mestrado e doutorado. Cerca de 50% são procedentes de outras instituições do País. E 60% dos formandos saem para exercer a profissão em outros lugares.

Pesquisa Médica - A instituição incentiva o fluxo internacional de alunos?

Ricardo Renzo Brentani - Ainda não, mas é uma possibilidade que passamos a considerar recentemente e já conseguimos obter uma bolsa específica para isso. A Capes tem convênios com universidades de vários países e uma delas é a Universidade do Texas, que se tornou nossa parceira científica. Queremos negociar agora uma parceria docente, em que os títulos obtidos aqui sejam aceitos lá e vice-versa. Outro projeto é voltar a trazer residentes de outros países da América Latina. Isso era relativamente simples até 20 anos atrás, mas os processos foram se tornando mais formais, mais burocratizados e acabaram por impedir o fluxo de residentes latino-americanos.

Pesquisa Médica - E por que houve esse obstáculo?

Ricardo Renzo Brentani - O Conselho Regional de Medicina entende hoje que o residente estrangeiro pode não ter recebido a formação médica adequada no seu país de origem. Como não há metodologia para aferir o ensino, não pode simplesmente aceitar o diploma. Mas precisamos fazer um esforço e mudar isso, porque é importante ter alunos estrangeiros para o intercâmbio de conhecimento. No A.C. Camargo recebemos estudantes do país todo. Queria espalhar o verbo para outros países.

Pesquisa Médica - A pesquisa do Hospital do Câncer está inserida em projetos de rede, como a Rede Brasileira de Pesquisas sobre o Câncer, do CNPq?

Ricardo Renzo Brentani - Pensamos bem e preferimos integrar os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. É um edital em conjunto entre o CNPq e a Fapesp, no caso do estado de São Paulo, para financiar projetos de pesquisa multicêntricos. Os projetos têm de envolver pelo menos oito pesquisadores de três instituições de dois estados da união, por isso não deixam de ser uma rede. A impressão que temos é que existe um esforço entre as várias instituições para fazer tudo em comum. A colaboração entre pessoas e instituições só pode ser espontânea. Há cerca de 12 anos, por exemplo, formei o primeiro grupo brasileiro de príons e as pessoas quiseram entrar espontaneamente.

Pesquisa Médica - A produção científica do A.C. Camargo é extremamente profícua hoje..

Ricardo Renzo Brentani - O fato de se ter uma produção profícua não significa que seja boa. O meu sonho é que nossa produção seja ainda mais volumosa e que tenha ainda mais qualidade. O impacto médio da nossa produção entre todos os papers médicos é de 4,25%. No entanto, temos poucas publicações em revistas de grande impacto. Eu quero mais.

Referência

1. Coleman MP, Quaresma M, Berrino F, et al. Cancer survival in fi ve continents: a worldwide population-

based study (CONCORD). Lancet Oncology. 2008;9(8):730-56.