Espécies vulneráveis são substituídas por outras mais generalistas e resistentes, resultando em florestas mais homogêneas
Pesquisadores brasileiros monitoraram 20 anos de recuperação de florestas degradadas na Amazônia, incluindo áreas queimadas. Recuperação ocorre sob nova composição, com perda de diversidade e maior vulnerabilidade a incêndios e secas. Apesar da resiliência, estudo alerta para necessidade de proteção frente a riscos de degradação e mudanças climáticas.
Mesmo depois de incêndios, secas intensas e tempestades de vento, florestas degradadas na Amazônia conseguem se recuperar, inclusive com o retorno de espécies arbóreas. A conclusão vem de uma pesquisa publicada na última segunda-feira (20) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), baseada em 20 anos de monitoramento de campo e liderada por pesquisadores brasileiros.
A recuperação, porém, não é plena. O processo ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e maior suscetibilidade a novos distúrbios. Espécies vulneráveis são substituídas por outras mais generalistas e resistentes, resultando em florestas mais homogêneas. Os autores ressaltam, no entanto, que isso não significa uma tendência à savanização, ao contrário, reforça a resiliência do bioma.
Estudo
Os pesquisadores acompanharam três parcelas de 50 hectares cada na Fazenda Tanguro, área experimental em Mato Grosso, localizada na zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado, região considerada especialmente vulnerável ao aquecimento global. Uma parcela serviu de controle, sem queimadas; outra foi submetida a queimas anuais entre 2004 e 2010; e a terceira passou por queimas a cada três anos no mesmo período.
Com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura interna da floresta foi relativamente rápida, com diversidade de espécies razoavelmente estável. Nas bordas, porém, o processo foi bem mais lento: a riqueza de espécies caiu entre 20% e 46% entre 2004 e 2024.
As gramíneas, inclusive espécies invasoras de origem africana, como Andropogon gayanus, tiveram papel central ao alimentar incêndios de alta intensidade e dificultar a regeneração de árvores. Com o fechamento do dossel a partir de 2016, elas recuaram drasticamente, o que, para os pesquisadores, afasta o cenário de transformação definitiva em savana.
Dados
A composição original de espécies não se reconstituiu mesmo após 14 anos, especialmente entre as chamadas “especialistas de floresta”, árvores de madeira densa e vida longa. A fauna local, como antas, macacos e aves, foi apontada como fator relevante para a dispersão dessas espécies e a regeneração da floresta.
A pesquisa também identificou vulnerabilidades específicas: a casca fina das árvores aumenta o risco em incêndios; a baixa densidade da madeira agrava os danos em tempestades; e em secas severas, algumas espécies operam perto do limite de colapso hidráulico.
“A principal mensagem é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios”, disse Leandro Maracahipes, primeiro autor do estudo, atualmente pesquisador na Yale School of the Environment e colaborador do Ipam.
Contexto
Apesar de uma queda de 35% no desmatamento da Amazônia Legal entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, a degradação florestal segue em ritmo preocupante, foram 2.923 km² afetados no mesmo período, segundo o sistema Deter, do Inpe.
Para 2026 e 2027, cientistas alertam para a possibilidade de um “super El Niño”, que poderia ser o mais intenso em 140 anos, segundo projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo. O fenômeno tende a intensificar secas e incêndios justamente nas regiões mais vulneráveis do bioma.
Para o ecólogo Rafael Silva Oliveira, do IB-Unicamp, co-autor do estudo, os modelos climáticos até então superestimaram o risco de colapso total da floresta ao simplificar demais os ecossistemas tropicais. “A Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem.”
Ainda assim, a conclusão dos pesquisadores é clara: resiliência não dispensa proteção. “Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, afirma Maracahipes.
A pesquisa foi publicada sob o título “Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia” e contou com apoio da FAPESP.
*Com informações da Agência FAPESP.