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Flor do Cerrado que surge um dia após ser queimada é identificada

Publicado em 28 março 2019

O fogo é peça-chave na evolução das plantas do Cerrado – foi o que reforçou um estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) publicado na Revista Ecology. Os pesquisadores analisaram uma espécie de planta que inicia a sua floração em apenas 24 horas após a queima. “Trata-se da Bulbostylis paradoxa, uma erva perene da família Cyperaceae, conhecida popularmente como cabelo-de-índio”, disse a primeira autora da pesquisa, Alessandra Fidelis, professora da Unesp, à Agência Fapesp.

Com o apoio da agência, Fidelis tem investigado o assunto com seu projeto “Como a época do fogo afeta a vegetação do Cerrado”. Desde 2009 a pesquisadora tem estudado a regeneração pós-fogo do Cerrado, mas a rapidez com que a Bulbostylis paradoxa floresce depois da queima a deixou surpresa. “É o único evento desse tipo descrito até o momento no mundo”, afirmou.

A planta é muito encontrada na América do Sul – na região da Venezuela até o sul do continente. Nos experimentos com a espécie, os pesquisadores fizeram uma queima com prática de manejo, até que as plantas fossem reduzidas em condição de tocos carbonizados. Elas começaram a apresentar pontinhos brancos 24 horas depois de serem queimadas.

“Esses pontinhos são as inflorescências despontando”, diz pesquisadora (Foto: E.P. Mallory/Creative Commons)

“Esses pontinhos são as inflorescências despontando. Em pouco mais de uma semana, as flores se encontram completamente formadas e aptas à polinização. A rapidez da resposta constitui uma grande vantagem para a planta, porque possibilita que ela floresça, frutifique e disperse suas sementes por meio do vento em um espaço livre, com o solo descoberto, sem barreiras nem competidores. Apenas 40 dias depois do fogo já é muito difícil encontrar sementes, porque elas se disseminaram”, contou Fidelis.

De acordo com o comunicado de divulgação da pesquisa, as sementes que se espalham após as queimadas que ocorrem no Cerrado servem de recurso para animais predadores como formigas e aves. Quando as plantas brotam, as folhas são consumidas por mamíferos de grande porte, como veados e bois.

O fogo só traz prejuízos ao ecossistema quando ele tem viés criminoso ou quando ocorre de modo natural e se alastra muito desastrosamente. Muitos animais, segundo Fidelis, ficam presos nos incêndios, e espécies sensíveis da flora podem não sobreviver às chamas. “É preciso haver um manejo criterioso do fogo. A queima preventiva, nas épocas certas, com zoneamento da área total e rodízio das parcelas a serem queimadas, constitui a melhor defesa contra os incêndios desastrosos”, defendeu a pesquisadora.

Fonte: Galileu.com