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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Físico que trouxe Internet cresceu em Bauru

Publicado em 20 dezembro 2009

Por Adilson Camargo

O ano de 1922 entrou para a história da humanidade como o ano em que nasceu a União Soviética. Enquanto isso, no Brasil a data ficou marcada por ter sido o ano da Semana de Arte Moderna, evento que deu início a uma nova concepção estética nas artes e levou à ruptura com as tradições acadêmicas. Em Portugal, nascia José Saramago, um dos maiores escritores da língua portuguesa. E na Itália, mais exatamente em Milão, em 26 de março, nascia Oscar Sala, que mais tarde se transformaria em um dos principais nomes da física mundial. Entre outros feitos, foi o precursor da chegada da Internet ao Brasil.

Embora tenha nascido em Milão, Sala viveu boa parte de sua vida em Bauru. Filho de pai brasileiro e mãe italiana, ele veio para cá com 2 anos. E foi em Bauru que ele descobriu sua vocação para a física. Depois de ter freqüentado o Colégio São José e concluído o ensino médio (antigo ginásio) no Colégio Guedes de Azevedo, Sala foi fazer engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Quando estava de férias em Bauru, no campo de aviação havia uma grande movimentação com os balões que eram soltos a grandes altitudes para medirem a radiação cósmica. Ele estava lá acompanhando tudo quando começou a conversar com um senhor. O nome dele era Gleb Wataghin, o homem que ensinou aos brasileiros os fundamentos da física moderna.

"Eu já tinha lido um pouco sobre radiação cósmica e fiz algumas perguntas a ele. Estranhou um pouco um caipira estar lá querendo saber de física. Perguntou o que eu fazia e, afinal, me convenceu a sair da Poli e eu entrei na física", disse ele numa entrevista concedida a Amélia Império Hamburger, do Instituto de Física da USP.

Mas por muito pouco o destino não muda toda essa história. Ao invés de físico, Sala poderia ter sido músico. Descendente de uma família de músicos, ele se formou em piano no Conservatório Dramático e Musical de Bauru, que ficava na rua Bandeirantes esquina com a Araújo Leite, hoje transformado em estacionamento.

"Meu pai, desde cedo, era apaixonado por música. Viu a guerra de 1914 como uma oportunidade para ir estudar na Itália. O governo italiano, nas circunstâncias, pagou-lhe a passagem. Mas em vez de estudar música meu pai ficou quatro anos na guerra", relatou ele à colega Amélia.

Nos exames finais do curso de piano, Sala foi avaliado por uma comissão do Conservatório de São Paulo, da qual fazia parte o pianista e compositor Frutuoso Vianna. A apresentação de Sala agradou tanto que Vianna ofereceu a ele uma bolsa de estudos para aperfeiçoamento. "Respondi que ia fazer exame vestibular na Escola Politécnica e, se entrasse, iria fazer engenharia. Como entrei, meu destino de músico não se realizou. Nunca mais toquei piano, só ocasionalmente, e há muito tempo nem o piano tenho em casa", disse ele na entrevista.

"Ele tocava muito bem", elogia a prima Léa Sala Franco De Bernardis, que mora em Bauru. Sala não se apresentava em público, mas tinha o costume de tocar quando a família se reunia. "E como somos uma família de italianos, você já sabe, tem de ter música", brinca.

Sala graduou-se em 1941 no curso de física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, estagiou na Universidade de Illinois e na Universidade de Winconsin. Entre suas contribuições para a física está a inovação de uma técnica precursora na produção de instrumentos multicanais. Ele desenvolveu um voltímetro para altas tensões, publicou grande número de artigos em revistas especializadas sobre raios cósmicos, física nuclear, instrumentação e física de aceleradores.

Foi orientador de diversas teses de mestrado e doutorado em diversas áreas da física. Entre outros prêmios, recebeu a medalha de Honra ao Mérito da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1973. Sala é tido como o principal responsável pela chegada da Internet ao Brasil. "Visualizei a importância da comunicação que os cientistas teriam através daquele computador, a evolução que a ciência poderia ter, a rapidez com que as informações de outros países chegariam ao Brasil e aí eu quis contribuir", contou ele em uma entrevista concedida em 2006.

Sala foi diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) de 1969 a 1974 e presidente do Conselho Superior de 1989 a 1993. Foi eleito presidente da SBPC em 1973 e reeleito, exercendo o cargo até 1979.

Após seu retorno ao Brasil, Sala foi responsável por instalar e coordenar pesquisas baseadas em grandes geradores eletrostáticos de Van der Graaff. Mais tarde, ajudou na construção de um pelletron (acelerador eletrostático de partículas) na USP, o primeiro na América Latina.

Vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) que o deixou com algumas seqüelas na fala e na locomoção, Sala está com 88 anos, e recentemente foi indicado pela comunidade científica bauruense para receber as homenagens da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, como reconhecimento pela trajetória vitoriosa em favor do desenvolvimento científico do País.

Por causa do problema de saúde, Sala não compareceu à cerimônia de entrega dos diplomas de reconhecimento de mérito e da moção de aplauso oferecida pela Câmara Municipal, mas encaminhou por e-mail seus "sinceros agradecimentos" pela homenagem.