Notícia

A Cidade (Ribeirão Preto)

Físico da USP cria método revolucionário

Publicado em 30 janeiro 2011

Aos quase 83 anos, vendendo energia, vivacidade e ideias geniais, o carioca Sérgio Mascarenhas, que mora em Ribeirão e atua no mundo, faz um método não invasivo para aferir a pressão do crânio.

O professor, cientista e físico brasileiro Sérgio Mascarenhas liderou uma pesquisa inédita que vai mudar a vida de mais de 150 mil acidentados no país com traumas cranianos, segundo as estatísticas.

O novo método é capaz de diminuir os riscos de morte e os custos de internação de pacientes que necessitem de monitoramento constante da pressão intracraniana (PIC), por causa de doenças como AVC (acidente vascular cerebral), traumatismos, epilepsia, tumores cerebrais e hidrocefalia, entre outras.

O método desenvolvido consiste em acoplar um pequeno sensor ao osso da caixa craniana, através de uma pequena incisão na pele, ao invés de perfurar o crânio do paciente para realizar o monitoramento, como acontece atualmente. A esperança é ainda maior para quem depende do SUS (Sistema Único de Saúde).

Imagine um acidente de trânsito onde a vítima sofra um trauma craniano. Em casos assim o paciente fica sem o exame imprescindível para salvar sua vida. Isso porque só o sensor custa R$ 4 mil e não é bancado pelo governo. A nova técnica desenvolvida custa 10 vezes menos, é genuinamente brasileira e só depende da aprovação da Anvisa para ser comercializada.

O equipamento desenvolvido pela USP está estimado em R$ 6.000,00, valor do monitor, mais cerca de R$ 300,00 por cada sensor. Já o equipamento tradicional mais utilizado nos hospitais custa R$ 50.000 o monitor, e R$ 1.500 cada sensor.

O professor Mascarenhas diz que a comercialização será feita depois da aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Ele espera que isso aconteça dentro de poucos meses, porque o método já foi aprovado pelas comissões de ética hospitalar, tanto da Faculdade de Medicina de Ribeirão preto, quanto da UFSCar.

A pesquisa toda foi feita durante dois anos e envolveu dez cientistas das equipes de Neurocirurgia, Eletrônica e Física. As cirurgias para testar o método foram feitas na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

Para Mascarenhas, o método prova que o Brasil tem capacidade de criação e também de inovação. E ele acrescenta: "O que é preciso é apoio, como da Fapesp, e de empresas que se dispõem a fazer desenvolvimento. Falta interação do governo para fornecer financiamento, para universidades e empresas. O nosso caso mostrou a interação dos três. É a cadeia ideal para desenvolver o País e desenvolver inovação e tecnologia".

"Essa pesquisa foi desafio da minha vida"

- Quanto tempo demorou a pesquisa e como foi desenvolvida?

- Desenvolvi esse método após eu ter tido uma doença chamada hidrocefalia de pressão normal em 2007. Fiquei sabendo do diagnóstico e que teria de operar. O único jeito que os médicos teriam para curar a doença seria por meio de uma cirurgia invasiva. Desde então considerei esta pesquisa como um desafio na minha vida. Aí inventei esse método que não precisa furar a cabeça. Procurei a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) há dois anos e propus o desenvolvimento do meu método dentro do programa PIPE (Programa de Inovação para Pequenas Empresas). Apresentei junto com uma empresa familiar, a Sapra Assessoria. É uma prova da importância da inovação para pequenas empresas. O método foi patenteado. Trata-se do PIC (pressão intracraniana cerebral) desenvolvimento por meio de tecnologia brasileira que substitui os atuais métodos invasivos. Até agora era preciso furar a cabeça e colocar um sensor lá dentro. A minha solução foi mais simples. Coloquei um chip externamente. Ele emite um sinal elétrico quando o osso se deforma. A deformação é causada pela pressão intracraniana. Então eu posso correlacionar o sinal elétrico do meu chip com a pressão intracraniana. A primeira vantagem é que nesse método Você tem que fazer apenas uma pequena incisão no couro cabeludo e colar o chip. É minimamente invasivo. Não precisa de anestesia geral e pode ser feita em um tempo muito curto, em média de 5 minutos. E poderá até ser aplicada por paramédicos.

- E o método tradicional, tem muitas desvantagens?

- O método invasivo é muito agressivo. A pessoa deve ser mantida sob antibióticos e passar dias na UTI. Isso porque ao entrar uma câmera invasiva, ela levava também bactérias. Assim que fiz o método procurei a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da USP e ofereci a oportunidade de transformar em tese acadêmica. A tese foi desenvolvida pelo departamento de Cirurgia, pelo doutorando Gustavo Frigieri, inscrito na Física de São Carlos, com a colaboração do professor Benedito Colli. A tese foi realizada com o apoio do Hospital das Clínicas de Ribeirão. Quem se beneficiou academicamente foi a USP. Estou orientando outros três.

Qual a importância dessa inovação?

- O SUS não permite a utilização do método invasivo no caso de um trauma porque é muito caro. Só o sensor para o procedimento custa R$ 4 mil. Então o pessoal de renda inferior fica sob um risco maior. Só no caso de acidente automobilístico, temos 150 mil traumas cranianos por ano. E essas vítimas ficam sem medir um fator fundamental de sobrevivência. Meu método é muito mais barato. Porque meu sensor custa cerca de R$ 300. É dez vezes mais barato do que o invasivo. E foi desenvolvido por nós. Não é uma caixa preta. Se precisar de manutenção, será feita aqui no Brasil. Há um interesse social muito grande. Interessou tanto ao Ministério da Saúde brasileiro que eles resolveram me proporcionar um contrato através da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), vinculada à Unesp. A Opas quer financiar a disseminação do meu método no Brasil. Foi uma grande vitória no mês passado. Agora, esse aparelho poderá ser posto em ambulâncias, por ter-se tornado um procedimento simples.

Oito pacientes já fizeram a cirurgia

Além dos oito pacientes que testaram o método, com sucesso, o professor Mascarenhas conta que foram operados mais de dez animais, entre ratos e coelhos. "O resultado foi totalmente satisfatório. Também aplicamos a mesma ideia em outras patologias, como epilepsia e ganhamos um prêmio. Fizemos o teste em um rato e foi a primeira vez que se viu a pressão intracraniana durante uma convulsão. Prevemos a aplicação do mesmo sistema para tratar casos de câncer. Posso acompanhar a evolução do tumor pela pressão intracraniana. Vai baratear o processo e poderá até eventualmente ser usado em um posto de saúde" diz ele.

O método também poderá ser usado para o diagnóstico de AVC: "Estamos fazemos um estudo na Unidade de Emergência da USP, com uma equipe formada por Otávio Pontes, Antonio Carlos Santos e João Leite". O professor também desenvolve outro sistema paralelo: "Já está praticamente pronto. Vamos usá-lo para estudar enxaqueca, meningite e vamos colocá-lo na UTI"