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Físico comenta diretrizes da Fapesp

Publicado em 18 fevereiro 2003

Considerações sobre definições como 'Ciência de Ponta' Mensagem de Fábio L. Braghin, do Instituto de Física da USP (e-mail: braghin@if.usp.br): Sou bolsista de pós doutorado da Fapesp desde 97 e estou realizando meu projeto de pesquisa no Instituto de Física da USP, vinculado aos Projetos Temáticos "Física de Hádrons" e "Física das Interações Hadrônicas". Gostaria de tecer alguns comentários relativos às diretrizes adotadas pela Fapesp, principalmente com relação ao programa de pós doutoramento e outros assuntos relacionados. O conjunto de políticas concernentes que têm sido implementado pela Fapesp é louvável. No entanto, pretendo realizar uma análise baseada em um ponto de vista que leva em conta outros fatores, não necessariamente contemplados com tais diretrizes. Parece-me que os projetos de pesquisa elaborados e executados pelos 'Jovens Pesquisadores' (que às vezes não são tão jovens no sentido de já terem mostrado certa maturidade científica após o término do doutorado) podem ser divididos em pelo menos dois tipos: os individuais e outros realizados em colaboração com pesquisadores de alguma Instituição. Parece-me que estes dois tipos, não necessariamente excludentes, servem a propósitos diferentes. O primeiro pode ser uma alavanca rumo à "independência" do pesquisador e o segundo, em primeira análise, visa o avanço ou fortalecimento de um ramo de pesquisa já existente na Instituição, principalmente de quem supervisiona o trabalho. Seria muito interessante e frutífero ainda situar tais projetos frente ao panorama estadual da área para que o proveito do trabalho seja multiplicador. Além disso, é interessante ressaltar que a alteração de quantidade pode levar a mudanças qualitativas muito boas principalmente se realizada de maneira consistente e coerente. Com isto não estou mostrando apoio a uma avaliação baseada exclusivamente ou principalmente na quantidade de trabalhos publicados. Creio que isto tem sido favorecido pela Fapesp. Isto pode ser melhor perseguido, agora extrapolando para outra esfera de atuação, através da realização de Grandes Projetos Nacionais onde os esforços e recursos, como input, são por um lado concentrados e, por outro, amplificados na medida em que há otimização dos esforços e aumento dos benefícios coletivos. Mas este é uma assunto extremamente complicado e cheio de viés, como por exemplo a inadequação da imposição de uma linha de pesquisa a um pesquisador. Os Encontros e Reuniões organizados pela SBF são ocasiões muito oportunas para tais mecanismos. Nesse contexto, vejo que pode ser muito interessante para a Ciência (e também Tecnologia) a definição de conceitos que permeiem o estabelecimento de metas e prioridades, como tenho inclusive notado na concepção da Fapesp e Capes, por exemplo. Assim, atenho-me particularmente ao conceito de "Ciência de Ponta" (CP). Usualmente esta noção é indiscriminadamente associada aos últimos paradigmas (os mais investigados e articulados) em outros países. Parece-me haver muitas vezes, no entanto, um equívoco nesta "importação" de parâmetros que guiam aspectos dos mais variados da sociedade e cultura de uma nação. Entre estes, o que se considera CP. Acredito que este questionamento seja válido para outras áreas do Conhecimento. Para que se possa definir uma genuína CP é imprescindível um conhecimento razoavelmente aprofundado dos recursos (humanos, físicos, econômicos, técnicos e conceituais) disponíveis e dificuldades enfrentados pela comunidade e sociedade. A partir daí pode-se visualizar soluções e canalizar ações para que a sociedade e a comunidade se desenvolvam de maneira equilibrada socialmente e eficaz. Isto inclui a capacidade de definir certos parâmetros de análise da realidade inerentes à tal comunidade/sociedade e com isso ser independente que significa antes de mais nada não depender de uma "imagem" que possa ser eventualmente considerada padronizada e necessária. Obviamente, os objetivos últimos das áreas de pesquisa são também relevantes para essa determinação de uma CP. Podemos associar a esta construção, associada a um análogo do conceito de vantagem comparativa das ciências econômicas, como uma definição conceitual de CP. Acredito que os pós doutorandos, assim como os estudantes, podem se tornar peças-chaves no processo de (contínua?) redefinição conceitual que poderia então ser visto como dinâmico. A formação de recursos humanos, nas diversas etapas em que pode ser dividida, poderia ser encarada com base em dois Princípios aparentemente contraditórios: o da continuidade e o da ruptura. Por continuidade entendo os elementos que permitem à pessoa a análise das teorias existentes enquanto conjunto de paradigmas aceitos, compreensão e aquisição (e também elaboração) de técnicas/instrumentos de ação efetivos e eficazes que lhe permitam um "entrosamento sólido" com tais paradigmas. Por outro lado, deve ser encarada também como esssencial a busca por rupturas conceituais. Estas possibilitariam as mudanças que toda comunidade dinâmica necessita. Para isso seria importante valorizar as boas idéias e intervenções críticas construtivas e suas eventuais modificações em contextos diferentes. Isto pode auxiliar a evitar o efeito "rolo compressor" que me parece tão presente em nossa sociedade e que muitas vezes altera a "auto-imagem" (incluindo auto estima) das pessoas (e consequentemente ações e pensamentos). Nesse contexto - que define uma espécie de "dimensão interior" que permeia a criatividade -, parece-me que há hierarquias que podem ser prejudiciais para o desenvolvimento de uma sociedade. Contudo, parece-me que a ação (quase) unilateral por parte de um subsistema de um grande conjunto, como um país, pode ter consequências não tão vantajosas para o sistema todo como se houvesse uma ação conjunta, mesmo que espacialmente não regular - afinal os recursos físicos podem ser diferentes em cada lugar. Com isso me refiro a outros Estados da União com suas FAPs. JC e-mail 2223