Notícia

Gazeta Mercantil

Finep concentra crédito em projetos privados

Publicado em 14 dezembro 1998

Por Andréa Háfez - de São Paulo
O milagre da multiplicação dos eucaliptos já está em andamento, inclusive com um dedinho do governo. A empolgação do consultor florestal da Flosul Indústria e Comércio de Madeiras Ltda., Leonel Freitas Menezes, com o projeto de biotecnologia de clones das melhores plantas assemelha-se ao de qualquer criador. Mas, o sopro de financiamento não veio do céu, chegou por meio da agência governamental Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Mesmo sem grandes aumentos de recursos, as liberações feitas pela Finep nestes últimos dois anos estão se voltando mais para os pequenos criadores e direcionadas principalmente ao setor dos chamados "agronegócios". A preferência também é para parceiros do segmento privado. No papel de indutora da política do governo, a agência tem buscado incentivar a modernização e inovação tecnológica, com foco na exportação e geração de emprego. De acordo com o presidente da Finep, Lourival Mônaco, aproximadamente 80% dos R$ 3% milhões liberados em 1998 foram para o setor privado. Já o crescimento dos valores destinados às área de agronegócios chegou a 12% no último ano em relação 1997. Foi esta oportunidade que a Flosul aproveitou para desenvolver um projeto que dependia de recursos para ter continuidade na área de biotecnologia. "Os valores nem eram tão altos, R$ 430 mil, mas para pesquisa genética, não conseguiríamos esses recursos de outra fonte", afirma o consultor florestal da empresa, Menezes. Com a facilidade de estar pagando, por enquanto, apenas os juros do financiamento, a empresa espera conseguir com o projeto um ganho de até 30% de produtividade em oito anos. O longo prazo para o retorno é um dos motivos à dificuldade de obtenção de financiamento no setor. Mas os ganhos não são somente de caráter econômico. Quando a Flosul planejou desenvolver matrizes melhoradas geneticamente de eucaliptos, pensou, é claro, no aumento de faturamento. O resultado, porém, vai além. Para cada hectare de eucalipto plantado, são dez hectares de floresta nativa preservados. Com maior resistência, o eucalipto melhorado geneticamente substitui o uso de madeiras consideradas nobres na produção de móveis. Uma saída a mais para diminuir a exploração de mogno, cerejeira e jatobá, por exemplo. Na idade de 14 a 16 anos, o eucalipto já está pronto para se transformar em móveis. O mogno atinge essa "maturidade" apenas entre os 60 e 65 anos. Hoje o eucalipto, normalmente melhor utilizado na fabricação de papel e celulose, chega a ser usado para móveis. "Mas é aproveitado apenas em 50%", diz Menezes. "Com o mapeamento de DNA das plantas, e sabendo a possibilidade de transmitir as melhores características, chegamos a resultados em que o aproveitamento pode atingir 70% dos eucaliptos'*, afirma Menezes. Essa otimização pode levar a uma queda de preços dos produtos da empresa, como os painéis colados, em até 12%. "Mais consumo, mais produção, mais exportação e, como conseqüência, mais empregos", afirma o consultor florestal. Para a Flosul, que hoje conta com 120 funcionários com uma jornada de 8 horas, pode significar um aumento de turnos e multiplicação do quadro de empregados. Quanto à exportação, atualmente, 50% do faturamento decorre dessas operações. "Se crescermos, o efeito nas exportações será o mesmo." Na busca pela rota das exportações, a Cerca Agropastoril também procurou a ajuda da Finep. Foram R$ 4 milhões de financiamento para serem utilizados em um período de oito anos. Hoje, as 3 mil e quinhentas cabeça de gado, todas com brincos com códigos de barras para facilitar a identificação, fazem parte do projeto de melhoramento genético da raça nelore. "Praticamente 80% do gado brasileiro é nelore, raça proveniente da Índia, que teve melhor adaptação no Brasil", diz o Carlos Augusto Salvagni, responsável técnico pelo Projeto Aricá. Em Aruanã, no estado de Goiás, ele tenta, junto com a ajuda da Universidade de Ribeirão Preto, tornar o gado mais precoce. "O nelore é abatido apenas quando atinge a idade de quatro anos, outras raças de origem européia, com dois anos já estão boas para corte." O tempo neste caso não colabora, não só por conta da demora, mas pela perda de qualidade. No gado de quadro anos, apenas 50% do peso é aproveitado como carne para venda. Com dois anos o percentual sobre para 60%, além da carne ser mais macia. A busca da precocidade do nelore, porém, tem seu prazo para surtir efeitos: pelo menos mais cinco anos para conseguir atingir um gado que tenha condição de ser exportado. "A parceria com a Finep é fundamental, pois os bancos não fazem este tipo de financiamento, principalmente, em razão do tempo para retorno", diz Salvagni. "As instituições subestimam a pesquisa genética, mas para o governo interessa com a perspectiva de aumentar as exportações". Quanto à criação de empregos, Salvagni não esconde. O desenvolvimento da tecnologia de produtividade e competitividade do setor, pode colaborar, mas o principal resultado não gerará muitos postos de trabalho. "A pecuária dê corte não cria muitos empregos". A empresa agropastoril conta hoje com 30 funcionários.