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Meu Próprio Negócio

Financiamento especial

Publicado em 01 maio 2009

Encontrar vantajosas opções de financiamento está entre os desafios do empresário brasileiro. A elevada concorrência exige aprimoramento contínuo, tanto de produtos quanto de processos. Mas nem sempre o proprietário dispõe de capital suficiente para manter seu negócio competitivo ou mesmo mão de obra especializada tendo em vista desenvolver as melhores soluções aos problemas existentes.

É exatamente com o objetivo de apoiar o empreendedor que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) estimula a pesquisa científica e tecnológica. Segundo João Furtado, coordenador de Inovação Tecnológica da Fapesp, o orçamento anual da Fundação ultrapassa R$ 600 milhões. "Recebemos 1% de toda a arrecadação tributária do Estado de São Paulo", detalha Furtado. E inúmeros programas são destinados ao avanço do conhecimento.

Um deles é a Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), cujos projetos devem ser elaborados por pesquisadores ligados às companhias interessadas em criar ou aperfeiçoar artigos ou serviços oferecidos ao mercado. É igualmente permitida a inscrição de propostas referentes à melhoria de processos internos. O coordenador resume a essência do Pipe. "Elevar a capacidade tecnológica das empresas, dar oportunidade de encontrar profissionais gabaritados e encontrar soluções capazes de promover a qualidade de vida nas cidades", declara.

O programa é dividido em duas fases. Na primeira, com duração de seis meses, a equipe precisa provar a viabilidade da idéia e, para isso, receberá até R$ 125 mil no período. Para aprovar o projeto, o pesquisador e a empresa precisam mostrar que a proposta é consistente e está apoiada em conhecimento sobre as soluções existentes. Na segunda, com prazo de dois anos, é necessário desenvolver e implantar o projeto. A verba recebida chega a R$ 500 mil. Se, ao final das duas fases, os relatórios forem aprovados, o empresário não tem nada a restituir, porque o objetivo da Fapesp foi alcançado e a sociedade receberá os benefícios da pesquisa. Detalhes podem ser encontrados no site www.fapesp.br/materia/58/pipe/pipe.

Veja na entrevista concedida à revista Meu Próprio Negócio os principais pontos do programa voltado ao pequeno empresário.

 

Meu Próprio Negócio - A Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) está entre os programas de investimento oferecidos pela Fapesp. Quais são seus objetivos?

João Furtado - O primeiro deles é propiciar não apenas o aumento da capacidade tecnológica nas companhias, mas também dar chance de elas contarem com profissionais qualificados a fim de aperfeiçoar seus produtos e processos. A segunda meta é gerar produtos e serviços inovadores. Por fim, a terceira finalidade consiste em criar soluções capazes de promover o desenvolvimento social e da qualidade de vida nas cidades. Pode ser na área da saúde, agricultura, meio ambiente, entre muitas outras.

MPN - Todas as companhias podem participar?

JF - Com certeza. Para nós, qualquer empresa com menos de cem funcionários é considerada pequena, independentemente do faturamento. E a Fapesp também aceita avaliar projetos de empresas em fase de constituição.

MPN - Qual o passo inicial a ser dado por quem pretende propor suas idéias?

JF - Elaborar um projeto no intuito de revelar como o produto ou serviço será desenvolvido ou aprimorado. Entretanto, para ter boas chances de aprovação é imprescindível ler atentamente o edital, preencher o formulário segundo as normas e estudar bem a proposta. Há outras iniciativas bastante valorizadas. Verificar se existem conceitos semelhantes no mundo (é possível descobrir pesquisando gratuitamente os bancos de patentes) são fatores decisivos. Conversar com empreendedores que tiveram a mesma experiência e sanar as dúvidas na própria entidade também ajuda bastante.

MPN - Pode citar os principais critérios de análise?

JF - O mérito da proposta é o mais relevante. Descreva porque ela é diferente dos exemplos X, Y, Z e quais as vantagens em relação a tais cases. Assim será possível demonstrar claramente sua originalidade. Outro ponto de análise está no nível dos responsáveis pela execução do plano; eles são qualificados e experientes? Ainda há diferentes pontos levados em consideração, porém não de primeira grandeza como os mencionados agora. O pesquisador e a empresa que submetem o projeto estão em sintonia? Eles costumam trabalhar juntos? Estão à procura de parceiros comerciais e outros financiadores?

MPN - Explique, por favor, como o Pipe foi estruturado e sua forma de desenvolvimento.

JF - Ele possui duas fases. Na primeira, a meta é mostrar a viabilidade da idéia sem a necessidade de chegar ao resultado final. E preciso provar o funcionamento da proposta para o período de seis meses. Nesse tempo são disponibilizados até RS 125 mil a serem investidos na compra de insumos, equipamentos e, sobretudo, na remuneração de profissionais gabaritados. A segunda fase tem o objetivo de implantar o projeto em 24 meses.

MPN - As idéias podem ser apresentadas em qualquer época do ano?

JF - Sim, porém estipulamos três períodos de julgamento: março, julho e novembro. Caso o empresário já tenha provado por meios próprios a viabilidade da melhoria, é permitida a entrada direto na segunda fase. Assim, a primeira etapa não deixa de ser necessária, simplesmente foi realizada de maneira independente em outro período, com recursos próprios e/ou de outra fonte.

MPN - Em quanto tempo as propostas são analisadas e quais os responsáveis pela tarefa?

JF - O julgamento da primeira fase demora de 120 a 150 dias. Pesquisadores formam uma equipe de 7 mil voluntários ligados a universidades, institutos de pesquisa e empresas. Todos reúnem capacidade técnica e científica de julgar; nós os chamamos de pareceristas (dão o parecer). É com base neles que a diretoria científica recomenda ou não o projeto.

MPN - Então a Fapesp não mantém equipe própria de julgadores?

JF - De acordo com certo dispositivo de nosso estatuto, a Fapesp não pode gastar mais de 5% do orçamento com a atividade meio. Trata-se de norma vigente desde o início das atividades. No mínimo 95% da verba total recebida do Estado deve ser destinada ao financiamento dos programas. Não temos equipe própria. Todas as pessoas auxiliadas pela Fapesp estão comprometidas a ajudá-la no julgamento das idéias.

MPN - Por qual razão elas são reprovadas?

JF-A leitura apressada do edital é o principal motivo responsável pela rejeição. Muitos empresários elaboram os documentos correndo, mas não adianta nada. Por volta de 30% do total são aceitos anualmente, taxa bastante alta. Em termos de comparação, as peneiras das escolas de futebol aproveitam menos de 5% dos garotos submetidos aos testes, e as boas faculdades aprovam em média 10% dos vestibulandos.

MPN - Quando o projeto é negado, é possível apresentá-lo novamente?

JF - Claro, e com a possibilidade de conseguir a aprovação dele em outra época. Todos os pedidos rejeitados recebem a resposta por escrito explicando as razões do resultado obtido. Os empresários responsáveis por documentos bem elaborados, todavia com pequenas deficiências, podem reunir novas competências visando à resolução dos problemas detectados. Fatos assim acontecem regularmente. Porém, quem se equivocou muito na primeira tentativa, raramente é capaz de superar as dificuldades iniciais. Tentam até corrigir, mas o resultado não passa de mero remendo.

MPN - Quais providências são tomadas logo após a aprovação na primeira fase?

JF - E solicitada a apresentação dos documentos exigidos, bem como a assinatura do Termo de Outorga (contrato). Os recursos são liberados conforme a necessidade do gestor. Ele precisa de determinada máquina? Basta pedir o dinheiro, seguindo o cronograma fornecido.

MPN - Para participar do projeto é obrigatório atrair pessoas de fora da companhia?

JF - Não é obrigatório, mas muito importante, pois elas têm a função de levar conhecimento às empresas. Representam o sangue novo, a oxigenaçào da atmosfera corporativa, além de trazerem visões neutras e independentes. O empresário tem liberdade total ao escolher seu pesquisador responsável. Pode ser determinado engenheiro trabalhando junto a seu fornecedor de máquinas, certo professor universitário e até consultores em áreas extremamente específicas, ligadas ao tema em questão.

MPN - Mas quando todo o processo de pesquisa acabar, ele não manterá vínculos com a empresa, correto?

JF - A Fapesp gostaria de saber, ao final do processo, que houve a contratação de alguém com elevada capacidade técnica visando ao contínuo aperfeiçoamento do item pesquisado. Não é obrigatório, mas trata-se de uma atitude interessante. A empresa passa a contar assim com um departamento de tecnologia robusto e com capacidade de renovação.

MPN - Fale sobre os requisitos exigidos tanto do pesquisador responsável pelo estudo quanto do microempresário.

JF - Do pesquisador, a capacidade técnica. Não precisa ter doutorado, mestrado, nem diploma de engenharia, por exemplo. Caso o indivíduo reúna experiência e conhecimento, o resultado do trabalho será melhor. Mas só experiência ou conhecimento não proporciona bons trabalhos. E exigido da companhia oferecer ao pesquisador condições adequadas ao estudo, bem como estar em ordem com as obrigações fiscais, tributárias, trabalhistas, ambientais etc. A Fapesp não apoia quem está à margem da regularidade.

MPN - Como os recursos financeiros são usados pelo empreendedor?

JF - Além da compra de insumos, máquinas e contratação de profissionais, também devem ser produzidas amostras com a finalidade de submetê-las a testes em instituições especializadas até chegar ao resultado final. Se após dois anos o relatório for aprovado -, e saiba que 98% dos casos conseguem êxito -, o gestor segue o próprio caminho colhendo os frutos da dedicação e da disciplina. Cumpriu seu papel proporcionando benefícios à sociedade e não precisa restituir nada.

MPN - E se o relatório não for aceito, o que ocorre?

JF — A reprovação geralmente acontece por causa de gastos equivocados. Então a área jurídica da Fapesp providenciará a restituição integral dos valores repassados.

MPN - Todas as despesas estimadas são financiáveis?

JF - Só podem entrar no orçamento os itens tecnicamente indispensáveis. A Fapesp não paga despesas de caráter administrativo, nem salários. O consultor convidado recebe seus honorários por intermédio da concessão de bolsas ou em colaborações pontuais, serviços de terceiros. A Fundação não pode criar vínculo empregatício. Caso a empresa seja muito pequena, praticamente recém-fundada, a Fundação pode fornecer a bolsa para remunerar o pesquisador.

MPN - A prestação de contas precisa ser bem detalhada a fim de evitar dúvidas, correto?

JF - Ao assinar o contrato, o empresário já possui todas as informações necessárias. Não se trata de nada complicado; pelo contrário, são condições criadas para garantir a seriedade na aplicação dos recursos disponibilizados. Se o dono recebe dinheiro dirigido à aquisição de equipamentos e, por exemplo, vai viajar, a Fapesp não aceita a despesa. Quando o capital é utilizado de forma diferente da combinada, exigimos o reembolso imediato.

MPN - O orçamento pode ser alterado quando surge algo imprevisível?

JF - Exclusivamente em condições muito excepcionais a Fapesp pode aceitar modificações dessa natureza. Quer exemplos? Certa vez, uma máquina agrícola seria testada numa região cuja safra daquele ano se antecipou. Não havia como fazer o teste ali. Então, a Fapesp concedeu verba adicional para avaliar o experimento em outra região. O equipamento foi desmontado e levado a outro lugar. Resumindo: apenas circunstâncias impossíveis de serem previstas com antecedência e totalmente fora do controle do empresário terão chance de análise e aprovação.

MPN - A quantidade de colaboradores é elevada; quantas sugestões vocês recebem anualmente?

JF - Em média, 250 propostas de pesquisa e cada uma passa pelo crivo de opiniões independentes. A decisão dos pareceristas também é avaliada pela Fapesp, tendo em vista checar possíveis erros ou questões mal-resolvidas. Depois a Fundação decide se aprova ou não a idéia.

MPN - Pode citar as propostas que mais alcançaram os ideais do Pipe?

JF - Determinada indústria de artigos em cerâmica tinha problema com a matéria-prima. O dono convidou especialistas naquele insumo, fizeram exames e propuseram soluções, depois de pesquisas aprofundadas. A questão foi sanada, a qualidade do produto melhorou e o faturamento cresceu. Outra empresa desenvolveu um software visando à captação de imagens aéreas e criação de mapas terrestres. A tecnologia permitiu realizar o levantamento topográfico com elevada precisão e rapidez. O produto foi muito útil na área de transporte e de energia elétrica.

MPN - Os equipamentos ficam com a empresa quando termina o contrato?

JF - A Fapesp não pode doá-los aos responsáveis, que os usam pelo tempo necessário em regime de comodato. Então o empresário dá as máquinas às instituições públicas de pesquisa. A função do Pipe está cumprida, pois ajudou a aperfeiçoar produtos e processos. Caso o dono deseje participar novamente com outra idéia, a iniciativa é permitida.

MPN - Quantos financiamentos foram feitos até hoje?

JF - Mais de mil, e alguns deles geraram faturamento de dezenas de milhões de reais ao ano às empresas responsáveis. Quem entende bem as regras do jogo e a intenção da Fapesp consegue reunir as competências necessárias ao desenvolvimento esperado. No final, constrói rendimentos substanciais.

MPN - O programa de desenvolvimento é voltado exclusivamente às companhias paulistas?

JF - Empresas de quaisquer estados podem participar, sob a condição de ter alguma unidade em atividade dentro de São Paulo. A pesquisa também precisa ser realizada aqui e trazer benefícios ao Estado.