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Ambientebrasil

Fim da picada

Publicado em 02 abril 2007

Por Murilo Alves Pereira, de Curitiba, Agência FAPESP

Do forro da casa, a aranha-marrom desce sorrateira até o piso. Inquieta, percorre toda a residência, esgueira-se pelo vão da porta, passa pela fresta do móvel e se esconde dentro do sapato. Todo o movimento é registrado pelas lentes das quatro câmeras instaladas na casa e que acompanham dia e noite o animal.
A observação faz parte de um projeto realizado por uma equipe de pesquisadores do Paraná sobre os hábitos da aranha-marrom (Loxosceles intermedia). O objetivo é definir as melhores formas de controle e manejo do animal que provoca, em média, 2.580 acidentes anuais apenas na capital paranaense, de acordo com registros oficiais — uma média de sete casos diários.
Os trabalhos, com apoio do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), do governo federal, e da Fundação Araucária, têm conclusão prevista para o início de 2008, mas já começam a dar resultados — além de aprofundar o conhecimento sobre a espécie, os pesquisadores entraram com pedidos de patentes de dois produtos desenvolvidos para o controle do aracnídeo.
Na primeira fase do programa, os cientistas infestaram, de forma controlada, uma residência com aranhas-marrons. A partir de observações da dinâmica populacional da espécie e de seus hábitos, testaram formas de controle conhecidas e criaram algumas novas.Na segunda fase do projeto, as técnicas de manejo serão aplicadas, uma a uma, na casa-modelo. Os resultados orientarão a população sobre como combater o animal, de acordo com o biólogo Eduardo Novaes Ramires, da Universidade Tuiuti do Paraná, responsável pela parte do estudo referente ao manejo. O projeto de pesquisa é coordenado por José Domingos Fontana, professor emérito da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
"Inicialmente, todas as aranhas na casa foram marcadas em cores diferentes, de acordo com o cômodo em que seriam colocadas. A movimentação da aranha entre os cômodos e de fora para dentro da casa ficou bastante evidente", disse Ramires à Agência FAPESP.
Segundo o pesquisador, a principal característica da L. intermedia é sua intensa locomoção. As teias são ralas e pouco trabalhadas, prova da vida errante do animal. Em seu doutorado, o biólogo comparou a espécie do Paraná com outras duas, a L. gaucho e a L. laeta, comuns em São Paulo e no Chile, respectivamente. Além de se movimentar mais, a L. intermedia prefere habitar o interior de residências.
"Ter um animal que fica dentro de casa e não pára quieto é sinal de problema", explica Ramires. Segundo conta, 30% dos acidentes com aranhas-marrons ocorrem quando a vítima dorme. O animal não é particularmente agressivo, mas, ao ser comprimido contra o corpo da pessoa, como forma de defesa ele pica e injeta o veneno.

Predador ausente
Para Eduardo Novaes Ramires, o grande número de casos de acidentes com aranha-marrom em Curitiba pode ser explicado pelo escassa presença de seu predador natural na cidade — as lagartixas. O motivo é que o inimigo natural da aranha-marrom não se adaptou ao clima da capital paranaense. No litoral, onde há mais predadores, as aranhas não são grande problema.
Ao devorar a aranha, a lagartixa usa uma enzima que digere o veneno. Se picada, a lagartixa morreria em poucos minutos, por isso precisa usar de astúcia. "Quando as duas se encontram, a lagartixa ataca por trás e devora a aranha. A última parte que ela come são as quelíceras de onde saem o veneno", explicou Ramires.
Os testes da pesquisa apontaram que, devido à alta taxa metabólica, uma lagartixa adulta pode devorar até 12 aranhas por dia. "Recomenda-se que as pessoas não matem as lagartixas em casa, pois elas ajudam no combate à aranha-marrom", apontou o biólogo.
Além da ausência do predador e da intensa mobilidade, outra característica da aranha-marrom contribui para a proliferação dos acidentes: a alta reprodutibilidade. "Quando uma aranha macho se encontra com uma fêmea elas copulam prontamente. Graças à mobilidade, isso ocorre muitas vezes por dia", disse Ramires.
A fêmea é fértil por vários meses do ano e copula com vários machos. Esses, por sua vez, também copulam com muitas fêmeas. "Foi detectado um som diferente produzido durante a reprodução", disse Ramires. Além dessa vibração emitida, as aranhas se comunicam expelindo uma espécie de hormônio. "Elas podem se reconhecer a uma distância de até 40 centímetros."

Duas patentes
Os pesquisadores paranaenses testaram 16 produtos indicados pela população como úteis no combate à aranha, como óleo de cravo, cânfora, naftalina e formol. Alguns se mostraram bastante eficientes, outros nem tanto. "No caso do óleo de cravo, a aranha passa por cima e nem toma conhecimento", brincou Ramires.
Dos produtos, cinco passaram pelo primeiro teste. Uma equipe comandada por Francisco de Assis Marques, professor do Departamento de Química da UFPR, separou os componentes de cada produto. O resultado foi uma substância que se mostrou eficiente para matar o aracnídeo.
"É uma substância simples, sintetizada por uma planta de uso na alimentação humana", disse Ramires. Em conjunto, a Universidade Tuiuti do Paraná e a UFPR entraram com pedido de patente para o repelente. O acordo entre as duas instituições prevê a abdicação da patente caso o governo do Paraná se interesse em fabricar o produto e distribuir para a população.
Outra patente gerada pelo projeto de pesquisa é a de uma máquina que produz um fluxo de calor letal para a aranha marrom — em uma temperatura de 60ºC ela morre em cinco segundos; com 130ºC a morte ocorre em meio segundo.
Segundo Ramires, o calor atinge diretamente o coração da aranha, que fica imobilizada instantaneamente e morre. A temperatura corporal sobe 26ºC em meio segundo e sua musculatura sofre uma alteração irreversível. "Ainda não sabemos, em relação à bioquímica, qual molécula específica é afetada para causar essa paralisação", destacou.
Se fabricada, a máquina, que se assemelha a um secador de cabelo, deverá ter custo baixo e ser útil para atingir aranhas em buracos de tijolos, frestas de móveis e no saco coletor do aspirador de pó.
(Fonte: Murilo Alves Pereira / Agência Fapesp)