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Correio da Paraíba online

Fim da picada

Publicado em 16 novembro 2008

São Paulo (Agência Fapesp) -  A expressão “mexer num ninho de vespas” indica encrenca séria. O mesmo vale para as abelhas. São insetos sociais que trabalham em equipe inclusive quando o assunto é se defender de inimigos. Por isso quem esbarra num desses ninhos tem grandes chances de acabar no hospital com centenas de ferrões cravados na pele. E com toxinas na corrente sangüínea que por dias produzem danos principalmente no fígado, nos rins e no coração, dissolvendo a matriz que une as células e causando problemas crônicos. “Só agora entendemos como o veneno desses insetos funciona”, conta o bioquímico Mário Palma, do Centro de Estudos de Insetos Sociais (Ceis) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. Ele buscou reforços na Universidade de São Paulo (USP) e no Instituto Butantan, formando uma equipe que conseguiu um feito inédito: desenvolver um soro contra ferroadas de abelhas.

De acordo com Palma, a dificuldade em produzir um soro específico contra a ferroada de insetos estava justamente no pouco que se sabia sobre a composição dessas substâncias. “Ao contrário do que acontece em serpentes, cujo veneno se baseia em proteínas complexas, 70% dos venenos de abelhas e vespas são compostos por peptídeos”, explica, se referindo a moléculas aparentadas às proteínas, porém pequenas. Ele partiu da observação de que esses venenos funcionam de maneira diferente. Uma vítima de picada de cobra – sobretudo as que viram refeição, como roedores – morre rapidamente. É, afinal, uma estratégia de caça. Já abelhas e vespas usam o veneno como defesa: os frágeis ferrões, que só conseguem penetrar a pele macia do rosto de um macaco em busca de mel, de uma ave com gosto por insetos ou de uma pessoa incauta, deixam uma lembrança bem dolorida que marca o local a se evitar.

Este ano, o Ministério da Saúde prevê que ocorrerão entre 10 mil e 15 mil acidentes com abelhas e vespas – número provavelmente muito subestimado, porque pessoas que tomam uma única ferroada e não têm reação alérgica forte não procuram atendimento médico. Ao contrário do que acontece em encontros com serpentes (mais de 20 mil mordidas por ano no país), a maior parte dos pacientes sobrevive. Mas as pequenas moléculas do veneno dos insetos se espalham com facilidade pelo organismo. Por isso, 98% das vítimas de múltiplas ferroadas têm seqüelas como problemas crônicos nos rins e no fígado.

Até recentemente o método para encontrar soros e vacinas se baseava em tentativa e erro: produzia-se o soro e se testava seu efeito. “Cada vez que não funciona, perde-se um paciente”, diz o pesquisador da Unesp. É um resultado que se deve evitar mesmo quando são testes em camundongos de laboratório, mas até agora ninguém tinha conseguido desenvolver testes in vitro para avaliar a eficácia de soros.

A estratégia de Palma foi montar um laboratório de ponta para análise de proteínas, com ajuda de um projeto de bioprospecção financiado pela FAPESP. O resultado é marcante: em quatro anos, sua aluna de doutorado Keity Souza Santos, co-orientada por Fábio Castro, encontrou no veneno das abelhas cerca de 200 compostos além das cinco proteínas já conhecidas. Como não basta saber a composição, os pesquisadores partiram para investigar seu efeito no organismo. Foi fundamental nesse ponto a colaboração com a equipe do Hospital das Clínicas (HC) da USP, liderada pelo imunologista Jorge Kalil e pelo alergologista Fábio Castro. Ao atender pessoas ferroadas por abelhas ou vespas, os médicos compilaram uma lista com cerca de 50 sintomas que incluem dor, vermelhidão, inchaço, coceira, visão escurecida, falta de con-sciência, cansaço nas pernas e falta de memória. Ao cruzar esses dados com a lista de peptídeos e proteínas do veneno, a equipe pôde avaliar como cada composto age no organismo humano.