Notícia

Almanaque da Arte Fantástica Brasileira

Filmes do Fim do Mundo

Publicado em 07 janeiro 2021

Por Marcello

Filmes do Fim do Mundo: Ficção Científica e Guerra Fria (1951-1964), Igor Carastan Noboa. 189 páginas. São Paulo: LCTE Editora/Fapesp, 2013.

No cenário da ficção científica brasileira este é um livro incomum. Isso porque é dos poucos a tratar da ficção científica com um tema específico. Normalmente, os livros sobre o gênero o abordam de uma forma genérica. Mas Igor Carastan Noboa se propõe a um desafio instigante: analisar os filmes norte-americanos de FC que tratam, direta ou indiretamente, da Guerra Fria (1945-1991).

Este momento histórico marcou a segunda metade do século XX. É como o mundo se organizou politica e militarmente como resultado da Segunda Guerra Mundial, no qual sob os espojos da derrota nazista e da decadência dos países imperialistas (Reino Unido e França), emergiu duas superpotências que passaram a liderar e dividir a geopolíticaem duas vertentes opostas: Os Estados Unidos, com capitalismo e democracia liberal; e a União Soviética, com socialismo e totalitarismo político. Mas como vai mostrar Noboa em seu trabalho, o que mais acentuou o clima de rivalidade entre norte-americanos e soviéticos foi a possibilidade de uma guerra nuclear. Mas se ocorresse teria sido, muito provavelmente, o último dos grandes conflitos bélicos da humanidade.

O livro é consequênciade uma dissertação de mestrado defendida pelo autor no curso de História Social, na Universidade de São Paulo, em 2010. Lembro que em algum momento de 2009 o autor me procurou para consultar sobre uma lista de filmes básicos do cinema norte-americano de FC. Me enviou uma ótima lista que mantenho até hoje. Assim, quando em 2014soube que sua pesquisa tinha sido publicada, não tive dúvidas e fui atrás da obra, literalmente “caçando” o livro pela internet. Tive até de ligar para a obscura editora LCTE dizendo do meu interesse pelo livro. Ao que parece, até eles estavam surpresos pelo contato. Não deveriam porque o livro é ótimo. E uma prova institucional disso é o financiamento parcial que recebeu da Fapesp. Um selo de qualidade na publicação de obras acadêmicas.

Após uma boa introdução sobre o contexto de desenvolvimento da bomba atômica, o cenárioinicial da Guerra Fria e as mudanças pelo qual passou o cinema de Hollywood nos anos 1950, o autor parte para uma discussão sobre alguns conceitos que caracterizam a ficção científica, sua relação com o fantástico e, mais especificamente, o modo como evoluiu o cinema de FC nos EUA. Aqui, para chegar propriamente ao tema do livro: como o cinema do gênero abordou a problemática política da disputa ideológica entre o Ocidente e achamada Cortina de Ferro.

Ao invés de ir pela solução mais comum, de comentar vários filmes, Noboa optou por enfatizar apenas quatro deles: O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still;1951), Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers; 1956), A Bolha (The Blob; 1958) e Limite de Segurança (Fail Safe; 1964). Talvez do ponto de vista didático teria sido mais interessante a primeira opção, mas o enfoque em quatro filmes representativos, vistos em conjunto, tornou o trabalho mais profundo na análise e sólido em suas considerações.

O Dia em que a Terra Parou, dirigido por Robert Wise (1914-2005) é, dos quatro, o mais importante para a FC. Baseado na noveleta “Adeus ao Mestre” (“Farewell to the Master”; 1940), de Harry Bates,1 subverte o clichê do alienígena hostil. Ao invés, ele vem à Terra para impor a paz entre a nações, cessando a corrida armamentistaque poderia levar a uma guerra e ameaçar a segurança, até mesmo, das outras civilizações próximas no universo. Como pontua Noboa chama a atenção a forma como o processo de conhecimento e convencimento do alienígena Klaatu sai pelas margens, ou seja, depois de ser mal sucedido em contatar as autoridades, busca ajuda no povo comum e, posteriormente, na comunidade científica. É como se a chance de solução do problema tivesse de ser buscada na sociedade, pois a esfera da política estaria contaminada com a rivalidade e paranóia em relação ao inimigo. Neste filme não há uma vinculação direta com o comunismo em si, mas com a ameaça que representa o então recente desenvolvimento das armas nucleares, de parte a parte. Assim sendo, o filme serve como um interessante indicativopara as possíveis consequências que estariam por vir, anos à frente, quando, justamente, o mundo viveria sob o risco de um confronto nuclear. Klaatu envia sua mensagem de paz, mas na forma de um ultimato. De fato, talvez para cessar a corrida armamentista naquele momento, só seria possível um poder externo e superior.

Do enfoque das possíveis consequências da rivalidade em si, o filme a seguir é o que discute o aspecto ideológico de forma mais profunda. Como se sabe, Vampiros de Almastrata de uma invasão extraterrestre numa pequena cidade, em que vagens se transformam em copias perfeitas, assumindo a identidade e existências das pessoas. Dirigido por Don Siegel (1912-1991)e baseado no romance de mesmo nome de Jack Finney (1911-1995), foi interpretado, principalmente, como um alerta contra o possível avanço do comunismo na sociedade norte-americana. As novas pessoas não teriam emoções, seriam todas disciplinadas e sem livre-arbítrio, como se seguissem algum comando. O filme é extremamente efetivo em trabalhar a forma como as pessoas vão mudando seu comportamento, e a luta de um casal para evitar a situação e denunciar este estado de coisas. Mas esta é a análise mais conhecida. O que Noboa acrescenta na obra são outras trêspossíveis: o alienígena como ameaça às mudanças políticas e liberdades constitucionais, a radiação como invasora de corpos e a ameaça alienígena aos valores patriarcais do homem branco. Na primeira, inverte-se a paranóia anticomunista. É o discurso machartista que persegue o indivíduo e sua liberdade de pensar e agir; no segundo, há uma denúncia dos experimentos científicos e militares em torno da tecnologia nuclear2e na terceira, uma crítica ao conservadorismo machista da sociedade norte-americana. Todassão interessantes mas creio que as duas primeiras tem mais a dizer sobre a proposta da obra, tanto o romance, como o filme. Pois se a interpretação mais comum é aquela do anti-comunismo, ao meu ver, a segunda é a mais reveladora, pois mostraria como a sociedade tinha se tornado paranóica e desta forma – e não pelos supostos valores igualitários do comunismo –, é que o modo de vida americano e sua democracia, estavam sendo corroídos.

Por uma outra via, mas também nesta linha, é que Noboa selecionou A Bolha como o terceiro filme a ser analisado. Dirigido por Irvin Yeaworth (1926-2004), é mais identificado como um filme B e para adolescentes, de fato, não foi tão levado a sério à época, mas ganhou relevância e o status de cult décadas depois. Isso porque, como mostra o autor do livro, A Bolha insinua suas relações com o tema da Guerra Fria de uma forma diferente. Interna aos valores em mudança da sociedade norte-americana, da grande prosperidade do país no pós-guerra, mas que aprofundou também várias contradições, como a desigualdade social, as relações entre homens e mulheres, a luta dos negros por seus direitos civis e políticos e o conflito de gerações entre pais e filhos. Nesse sentido é o filme menos diretamente relacionado com a Guerra Fria enquanto fenômeno político-ideológico da época, mas como os EUA lidavam com suas próprias tensões neste contexto. Assim, o elemento catalizador é a queda de um meteoro, que trará a chegada da bolha, uma criatura assassina vinda do espaço. Pois parte destas contradições sociais ficarão expostas no enfrentamento do problema maior, que é a destruição da bolha. Interessante que, assim como nos dois filmes anteriores, o plano de ação principal para a resolução do drama se situana sociedade e não no ambiente político dos governos ou dos militares. Estaria aí, de certa forma, a recorrência de uma crítica à incapacidade do ambiente institucional de se aproximar dos problemas ao nível dos cidadãos, para de fato protegê-los de ameaças concretas, e não de questões fora de suas realidades cotidianas, aquelas vinculadas à disputa macro entre os países e suas supostas razões de Estado, para garantir a tal da “segurança nacional”.

Desta forma, o contraponto é justamente o último filme analisado, Limite de Segurança, dirigido por Sidney Lumet (1924-2011) e, assim como o filme de Wise e o de Siegel, também baseado numa história previamente publicada. Neste, a ação se passa inteiramente no ambiente político e militar, no qual, devido a um erro técnico, caças norte-americanos armados com armas nucleares se dirigem para destruir Moscou. Embora a premissa possa ser questionada como pouco verossímil, na verdade o filme realiza uma crítica contundente à tecnologia e ameaça de que decisões humanas sejam entregues a máquinas, por mais sofisticadas que sejam. Ainda mais numa questão sensível como esta. De fato, o filme explora de forma intensa o drama para evitar uma guerra, e dos quatro é o mais realista, o que dialoga de forma mais próxima com a situaçãoda época. A narrativa realmente incomoda pelo alto nível de suspense embutido e surpreende com o desfecho. Como aponta Noboa, contra as convenções do cinema comercial norte-americano.

Após analisar de forma exaustiva os quatro filmes, Noboa ainda apresenta no capítulo final instigantes discussões sobre as relações entre os filmes, onde torna mais claras as diferentes críticas e perspectivas que cada filme adota sobre os temas do militarismo, tecnicismo e conformismo, que permeiam as obras e o contexto geral, principalmente nos EUA dos anos da Guerra Fria, em especial nas décadas de 1950 e 1960.

Neste trabalho acadêmico está bem ilustrado os dois temas mais caros ao autor, que os discute por meio do cinema: a ficção científica e a sociedade norte-americana. O pano de fundo para as extensas discussões sobre os filmes, mais que à Guerra Fria e suas consequências em si, é sobre as características e rumos dos EUA naquela época histórica. Tanto é assim que ele continuou nesta seara em sua tese de doutorado, defendida na mesma USP em 2019. Com o título de O Futuro e o Passado estão Além da Imaginação: A Viagem no Tempo e os EUA no Contexto do Segundo Pós-Guerra, ele mantém o mesmo tema geral, mas com um novo enfoque: aviagem no tempo (no lugar da ficção científica em geral) e da série de TV Além da Imaginação (no lugar do cinema). Ou seja, mergulha num subgênero da FC e numa série de TV. Tive um contato apenas breve com a obra, que pode ser baixada no site www.teses.usp, mas sugere que o autor explora, de forma mais abrangente, os valores culturais dos EUA, ao associar o tema da viagem no tempo – por meio dos episódios da série –, com a relação de tradição versusmodernidade, conservadorismo versusradicalismo, numa sociedade que cada vez mais expunha suas contradições, que se tornariam mais agudas e dramáticas nos anos 1960.

Igor Carastan Noboa é professor de História da rede municipal em São Paulo e do Centro Universitário Sumaré, e faço votos para que esta tese de doutorado também seja publicada. É um pesquisador e crítico talentoso, e que mostra o potencial da ficção científica como meio privilegiado de interpretação da realidade social e histórica. E vem a se juntar a outrosbons pesquisadores que nesta última década tem apresentado trabalhos acadêmicos, tendo o gênero como campo de pesquisa. Que esta tendência se consolide e que os melhores trabalhos – como este resenhado aqui – possam ser publicados e colocados à disposição dos leitores em geral.

– Marcello Simão Branco

1Publicado na antologia Máquinas que Pensam: Obras-Primas da Ficção Científica (Machines that Think: The Best Science Fiction Stories about Robots and Computers), organizado por Isaac Asimov, Patricia S. Warrick e Martin H. Greenberg, publicado pela editora L&PM em 1985, e como Histórias de Robôs, em três volumes, 2005.

2A meu ver o filme mais impactante a abordar este aspecto nos anos 1950 foi O Incrível Homem que Encolheu (The Incredible Shrinking Man, 1957), de Jack Arnold (1916-1992), em que um homem, sob o efeito de um gás radioativo, diminui inexoravelmente de tamanho. Foi baseado num romance homônimo de Richard Matheson (1926-2013).