Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Filho de alcoólatra tem mais chance de herdar o vício

Publicado em 05 maio 2006

Por Da Reportagem
Filhos de alcoólatras têm mais chance de desenvolver o mesmo vício. A conclusão é de uma análise comportamental realizada com 175 pessoas nos Estados Unidos e que será publicada na edição deste mês da revista Alcoholism: Clinical & Experimental Research. Quem divulga o estudo é a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
A pesquisa examinou características cognitivas e comportamentais de pessoas de 18 a 30 anos, todos não alcoólatras. Do total, 87 tinham histórico familiar de alcoolismo.
''Alguns estudos além deste, demonstram que os filhos de alcoolistas demonstram quatro vezes mais predisposição de se tornarem alcoólatras'', declara o psiquiatra Everardo Furtado de Oliveira.
Pela avaliação do psiquiatra, baseada em estudos, a prevalência de alcoolismo é três ou quatro vezes maior para homens do que para mulheres. Além disso, os adolescentes abusam do álcool com mais frequência do que de outras drogas.
''Os fatores ambientais ou patologia psiquiátrica têm incidência no alcoolismo'', explica. Os fatores ambientais podem ser desemprego, estresse no trabalho ou familiar. As patologias psiquiátricas são depressão e hiperatividade, por exemplo.

Homens
Segundo a pesquisa norte-americana, os riscos são maiores para filhos homens com comportamento desinibido. No entanto, os cientistas ressaltam que a combinação das duas características — histórico familiar e desinibição — indica apenas maior propensão e não certeza de desenvolvimento do problema.
Os voluntários que participaram do estudo foram classificados em níveis de desinibição de acordo com uma escala de sociabilidade e todos foram submetidos ao teste de ''Stroop'' de cores e palavras.
Este exame verifica características da memória funcional. Os participantes tinham que ler uma lista de nomes de cores impressa em tintas que não correspondiam às cores. Em seguida, precisavam ler apenas as cores das tintas.
O teste foi combinado a outro feito com cartas de baralho. Os participantes foram percebendo quais conjuntos representavam os maiores ganhos ou as maiores perdas. Isso permitiu que se examinasse as estratégias de jogo.
Os resultados indicaram um desempenho pior por apresentar maior déficit na memória funcional entre os indivíduos com histórico de alcoolismo na família. As avaliações também apontaram que os homens mais desinibidos demonstraram maior atração para os aspectos de desafio relacionados aos riscos de jogo do qual participaram.
A íntegra do artigo pode ser lida por assinantes na internet (www.alcoholism-cer.com).

Testemunho
Ilha (codinome) foi alcoólatra durante 20 dos seus 40 anos. ''Estou em recuperação faz sete anos. Eu tomava quatro litros de cachaça por noite e era muito agressivo dentro de casa. Chegou uma fase em que perdi minha família, o emprego e troquei o bem-estar pelo álcool. Hoje creio que estou 85% curado. Antes, para manter meu vício limpava terrenos em troca de cachaça''.
Ilha faz parte do grupo Alcoólicos Anônimos. Os filhos mais velhos participam de atividades em uma irmandade paralela para evitar o vício e também eliminar os traumas sofridos quando eram crianças. ''Era muito difícil ver meu pai naquela situação'', diz o filho de Ilha, de 19 anos.