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Correio Popular (Campinas, SP) online

Filhas tratadas como princesas

Publicado em 07 outubro 2018

Ela é linda, magra, tem cabelos longos e viverá feliz ao lado de seu príncipe encantado pelo resto da vida. Esse é um dos modelos clássicos de princesas dos contos de fadas, com belas mocinhas retratadas como jovens frágeis, cuja felicidade está sempre nas mãos de terceiros. Normalmente, muitos pais querem criar suas filhas como verdadeiras princesas, mas essa é uma situação pra se pensar.

“Acredito que pais e mães projetam em seus filhos alguns desejos não realizados em suas vidas. Ter a filha como princesa remete à proteção, perfeição e beleza entre outras qualidades. Querer que uma filha se comporte como um princesa, hipoteticamente nos remete a ter uma vida mais tranquila. Porém, isso é uma falsa ideia de vida feliz”, diz Debora Corigliano, neuropsicopedagoga do Instituto Brasileiro de Formação de Educadores (IBFE), Escola de Educação da Unità Faculdade.

Segundo ela, com esse tipo de comportamento dos pais, essas crianças, no futuro, com certeza terão um choque de realidade, com a possibilidade de desenvolver o Complexo de Cinderela, síndrome que se caracteriza pelo medo que as mulheres têm da independência e o desejo inconsciente de serem protegidas ou cuidadas a todo momento. “Por esse motivo é muito importante trazer a realidade para a criança de forma natural em cada fase da vida. Para que ela não sofra na adolescência e na vida adulta”, ressalta Debora. Em muitos casos, esse tipo de situação se deve ao comportamento da mãe querer transferir seu desejo para a filha. “Não vejo como frustração dela, entendo que muitas vezes a mãe quer que a filha não sofra e acaba por idealizar uma falsa felicidade.

Pensando que ser, agir e pensar como princesa a tornará feliz”, comenta a especialista. Ela acredita que, em determinada fase, as crianças precisam viver a fantasia do conto de fadas. “É importante para o crescimento emocional viver o conto de fadas, a fantasia e a imaginação. O que não é saudável é permanecer nesta fase estando com idade cronológica de outra fase”, pontua. Questionada sobre a existência de um curso de desprincesamento para meninas entre 9 e 15 anos na cidade chilena Iquiaque, que ensina valores de bravura, autodefesa e autoestima, e na contramão, no Brasil, em Uberlândia, Minas Gerais, haver uma Escola de Princesas, que ensina etiqueta, culinária e organização de casa só para meninas de 4 anos a 15 anos, a neuropsicipedagoga diz não gostar das extremidades, e pensa que toda postura 100% radical é prejudicial para o desenvolvimento da criança e do adolescente.

“Ter uma instituição que provoque um comportamento ou outro, tira da criança a oportunidade de vivenciar outras experiências. Acredito que os pais devam dar oportunidades para que seus filhos vivam experiências nas diversas fases da vida. Sim, deve-se dar a oportunidade da criança viver o momento da fantasia, de ser princesa, e também de viver o brincar de forma livre, prazerosa e com escolhas próprias”, completa a profissional.

Com atitude

Para Priscila Helena Pessôa Domingues, especialista em comunicação e marketing, mãe da bela Ana Beatriz, de 6 anos, é claro que os pais desejam que a filha tenha uma vida feliz como nos contos de fadas, onde encontram um príncipe encantado para viverem em um castelo. “Mas, no dia a dia, sabemos que a vida não é tão fácil assim e que a nossa história é construída desde pequenos com nossa orientação, exemplos e, muitas vezes, freio em algumas situações.

Orientamos a respeito da importância do estudo e da conquista do primeiro emprego. Incentivamos a amar cada parte do seu corpo, pois é um templo sagrado. Com atitudes mostramos que a vaidade faz parte da vida das meninas, mas que em excesso é prejudicial, afinal ela é uma criança. Tem que viver como criança, as fases de uma criança, como brincar descalça, não precisa sair de casa parecendo uma bonequinha. Tem que amar seus cabelos ondulados e armados, que são lindos. Se a roupa não estiver combinando, mas ela gosta, não tem problema em usar. Nosso papel é orientar, amar incondicionalmente e colocar limites”, completa Priscila, ao lado de Ana Beatriz, que é cheia de atitude e, apesar de gostar das princesas da Disney, sempre mostrou personalidade.

“A Ana veste o que a faz se sentir bem e, às vezes, usa vestidos e acessórios que não combinam, mas ela acha que está bom e usa mesmo assim. Não se incomoda se as amiguinhas vão falar alguma coisa. Essa história de ficar perfeita como a Cinderela é coisa do passado”, completa a mãezona.

Influência na vida das meninas

Para questionar o papel das princesas de contos de fadas na formação do que é felicidade na vida das crianças, a antropóloga Michele Escoura fez uma pesquisa que analisou a influência das princesas da Disney na vida das meninas, defendida na Universidade de São Paulo (USP) e financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em 2013.

Durante o estudo, Michele observou o comportamento de 200 crianças, de aproximadamente cinco anos, de três escolas, sendo duas públicas e uma delas particular, no interior de São Paulo. Foram analisadas as brincadeiras, os tipos de produtos com essas personagens, e análises a partir dos filmes como da Cinderela, da década de 50, e Mulan, do final dos anos 90. No fim da sessão, foi realizada uma roda de discussão com as crianças. “Muitas delas não percebiam a Mulan como princesa porque não tinha um vestido bonito. Quando pedi para elas desenharem a parte que mais tinham gostado, uma delas desenhou a Mulan com cabelos loiros”, disse Michele.

A antropóloga concluiu que as crianças, independentemente do sexo, tomam as princesas como um importante referencial de feminilidade, que reforça estereótipos recorrentes socialmente sobre o que é ser uma mulher ideal. “Os pais devem fi car atentos a tudo que as crianças fazem e mostrar o maior número de possibilidades de ser mulher. A beleza não deve ser a grande prioridade na vida. Ter felicidade não é sair comprando tudo e aceitar tudo dentro de um relacionamento”, explica a pesquisadora. De acordo com Michele, a própria Disney acompanha as mudanças do mercado e sociedade.

“A Disney investe em perfil de feminilidade menos passivo e contemplativo, devido à mudança de mercado, para atingir um público maior, atualizar as personagens e as mudanças na sociedade. Antes, a Cinderela era salva pelo príncipe, já a Mulan é antenada, heroína e quem salva todo mundo. A Disney aprofundou um pouco e teve a princesa Valente, que é a construção de uma heroína ativa, que produz o próprio salvamento, não precisa ser salva”, comenta Michele.