Notícia

Gazeta Mercantil

FHC quer mudar sistema de bolsa de estudo

Publicado em 26 setembro 1996

Por Isabel Versiani - de Brasília
Governo quer que dinheiro seja investido em projetos que realmente interessem ao País. Previsão é liberar US$ 1 bilhão em 1997 O presidente Fernando Henrique Cardoso determinou aos ministérios de Educação e da Ciência e Tecnologia uma reforma no sistema de concessão de bolsas de estudos para o exterior. O objetivo é garantir que os gastos com o financiamento de bolsas atendam, de fato, aos interesses do País, que hoje já tem uma pós-graduação considerada muito boa em várias áreas de pesquisa. A estimativa oficial é de que, no próximo ano, os gastos com bolsas, para dentro e fora do País, cheguem a US$ 1 bilhão. Como reclamou Fernando Henrique, em recente conversa informal, as bolsas têm sido distribuídas sem critérios rigorosos de escolha de candidatos e de áreas. Na sua opinião, há muita gente em Paris, Nova York e outras cidades igualmente caras e charmosas, gastando dinheiro público para se especializar em áreas consideradas secundárias para o desenvolvimento do País. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), um dos principais agentes financiadores de pesquisa do País, informa que já vai começar, a partir deste ano, a induzir estudantes que são candidatos a bolsas em 1997 a se especializarem em áreas mais carentes de pesquisa. Assim, 150 bolsas serão concedidas exclusivamente nas áreas de oceanografia física, microbiologia, engenharia sanitária e ambiental e métodos quantitativos nas ciências sociais. Segundo consulta feita às associações de pesquisa do País, essas cinco são as mais deficientes internamente. A Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação, também estará tentando estimular especializações em setores específicos, mas o critério será diferente. Ao contrário do CNPq, a Capes definiu sub-áreas de prioridade para cada uma das áreas em que são oferecidas bolsas. Na sociologia, por exemplo, será dada preferência aos pedidos de bolsas para pesquisa em teoria sociológica, metodologia de pesquisa e estudos comparados. Assim será feito com cada uma das áreas. O presidente da Capes, Abílio Afonso Neves, informou que esses campos também foram definidos pelos próprios cientistas da área, que levaram em conta a carência de pesquisadores nos diferentes setores. "Nosso objetivo, ao estabelecer as prioridades, é qualificar a demanda pelas bolsas, evitando que elas respondam apenas a desejos pessoais", afirmou Neves. Outra alteração que a Capes está promovendo diz respeito às exigências para inscrição. De agora em diante, todos os pedidos de bolsa terão de ser encaminhados por um professor sênior com atuação reconhecida na área. Caberá a esse professor não apenas recomendar o aluno, mas também justificar por que o futuro bolsista não pode aprofundar seus estudos no Brasil mesmo. A diretora de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do CNPq, Marisa Cassim, explicou que, com a criação de áreas prioritárias, o órgão quer "dar um valor estratégico" ao programa de bolsas para o exterior, que deve complementar o que já é oferecido pelas próprias instituições brasileiras. "Esse procedimento é coerente com a opção clara que o Brasil fez por ter sua própria pós-graduação", explica Cassim. Ela lembra que o Brasil tem hoje mais de quinhentos cursos de doutorado com qualidade reconhecida e. por isso, muitas vezes não faz sentido financiar a ida de alunos para fora. Além de tentar selecionar parte das bolsas que são oferecidas, o CNPq também está empenhado em tentar criar oportunidades para os pesquisadores que voltam ao Brasil. Assim, para as cinco áreas "de indução" estarão sendo criados núcleos de pesquisa correspondentes no Brasil. A idéia é que parte dos estudantes que vão se aperfeiçoar nessas áreas, volte, depois de quatro anos, para esses núcleos. Hoje, segundo Cassim, 50% dos bolsistas do CNPq que vão para o exterior não têm vinculação com institutos de pesquisa no Brasil. As bolsas oferecidas pelo CNPq no exterior são de US$ 1,1 mil, em média (o valor exato pode variar de acordo com o país e o número de dependentes do estudante). Incluindo os gastos com seguro de saúde, que também é oferecido, e o pagamento das taxas escolares, cada curso de pós-graduação custa cerca de US$ 100 mil ao CNPq. Para o ano que vem, o órgão terá R$ 471,9 milhões para financiar bolsas no Brasil e no exterior. No orçamento da Capes, estão previstos R$ 314 milhões para o financiamento de bolsas, dos quais R$ 77,6 milhões são para doutorado e pós-doutorado. Além do CNPq e da Capes, outras fundações mantêm bolsas para o exterior. No total, o investimento no próximo ano deve chegar a R$ 1 bilhão.