Notícia

Jornal do Brasil

FH quer união entre empresas e universidade

Publicado em 09 setembro 1997

O presidente Fernando Henrique pediu ontem, na abertura da 6ª Conferência Geral da Academia de Ciências do Terceiro Mundo, no Rio, que haja "um laço mais forte" entre o setor produtivo e a universidade. Segundo ele, o país investe US$ 1 bilhão por ano em bolsas de estudo para mestrado e doutorado, mas o mercado não está aproveitando bem os profissionais formados pelas universidades. O presidente reafirmou que até o fim do mandato todas, às crianças em idade escolar estarão matriculadas em escolas públicas. (Página 3): FH quer unir universidade e empresas Presidente diz que bolsas de estudo substituem empregos para graduados e nega ter prometido pôr crianças na escola até 1998 Diante de uma platéia de 400 cientistas de vários países, reunidos na abertura da 6ª Conferência Geral da Academia de Ciências do Terceiro Mundo, o presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu que o sistema de oferta de empregos do país não está aproveitando bem os profissionais que passam pelas Universidades. Com isso, criticou o presidente, o sistema de bolsas de estudo "está sendo um substitutivo do emprego para aqueles que se formam nas universidades". Depois de cometer uma gafe ao cortar a palavra da funcionária que fazia a tradução simultânea de seu discurso do português para o inglês, o presidente foi aplaudido ao defender "um laço mais forte" entre os setores produtivo e universitário. Segundo ele, só isso poderá evitar que ocorra um contra-senso: uma melhoria crescente na qualificação profissional, através das universidades, e um aproveitamento cada vez menor das pessoas qualificadas no sistema produtivo. O presidente lembrou que o governo investe por ano quase US$ 1 bilhão em bolsas de estudo para mestrado, doutorado e pós-doutorado. Mas lamentou que esse investimento não seja acompanhado por uma oferta de bons profissionais à sociedade. Segundo ele, os recursos para bolsas de estudos universitárias subiram, nos últimos cinco anos, 12% ao ano. Mesmo com as críticas, Fernando Henrique defendeu um sistema de incentivos ao ensino de 3º Grau: "Se não houver isso, a universidade talvez crie profissionais, mas dificilmente criará produtores de conhecimento." Fernando Henrique lembrou como é difícil um presidente da República, membro da Academia e professor de universidade, priorizar o ensino fundamental em detrimento dos níveis secundário e terciário. O presidente disse também que é preciso, desesperadamente, ampliar o acesso à informação e manter e acelerar os níveis de excelência. Segundo ele, se isto não for feito, o Brasil não poderá enfrentar o futuro. Acompanhado pelo ministro da Ciência e Tecnologia, José Israel Vargas, Fernando Henrique entregou prêmios a cientistas que se destacaram nos dois .últimos anos em pesquisas de diversas áreas do conhecimento. Entre os agraciados estavam os brasileiros Henrique Eisi Toma (Instituto de Química da Universidade de São Paulo), César Leopoldo Camacho (Instituto de Matemática Pura e Aplicada - Rio de Janeiro)e Flávio Moscardi (Centro Nacional de Pesquisa de Soja - Londrina, Paraná). A conferência está sendo realizada no Hotel Rio Palace e vai até o próximo dia 11. No início da tarde, o presidente participou, no Palácio Laranjeiras, de almoço que lançou as bases para a criação do Centro Brasileiro de Relações Exteriores (Cebri) - entidade que terá como missão estudar e acompanhar a inserção cada vez mais rápida do país no cenário internacional. Além do anfitrião, o governador Marcello Alencar, compareceram ao almoço os ministros das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, e da Fazenda, Pedro Malan, o prefeito Luiz Paulo Conde (PFL), o senador Artur da Távola (PSDB), diplomatas, políticos e parlamentares fluminenses. Desafio - Depois de negar que prometera pôr nas salas de aula todas as crianças brasileiras em idade escolar até o fim do mandato, em 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso apelou ontem à sociedade para que se junte ao governo no desafio de universalisar o ensino básico no país. "Eu gostaria que todos os brasileiros aceitassem esse desafio. E não que fosse visto como uma promessa do presidente ou do ministro da Educação, para no fim cobrarem: 'Fez ou não fez?' Quem tem que fazer somos nós todos, nacionalmente." Ainda no Palácio Laranjeiras, o presidente participou da entrega do Prêmio Educação para Qualidade do Trabalho a 10 instituições e empresas que se destacaram pela adoção de programas de alfabetização de "adultos. Já contando com a presença do ministro da Educação, Paulo Renato Souza - e ainda do presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Carlos Eduardo Moreira Ferreira, e o presidente das -Organizações Globo, Roberto Marinho, premiados pelo programa Telecurso 2000 -, Fernando Henrique disse que a meta é aumentar o percentual de escolaridade básica das crianças brasileiras a patamares semelhantes aos 95% dos Estados Unidos e da França e aos 99% da Coréia. O Brasil, atualmente, tem 91% das crianças em idade escolar nas salas de aula. "O desafio é que nós temos as condições para, até o fim do ano que vem, ter todas as crianças, estatisticamente falando, nas escolas", declarou, para explicar que, como entre os americanos, franceses e coreanos, ..sempre há uma margem que escapa". Fernando Henrique assinalou que a universalização do ensino básico é vital para o avanço do país na virada do milênio. "Democracia sem educação não existe. Crescimento econômico pode haver, mas desenvolvimento, não. Distribuição de renda não haverá, alertou, para apontar o ensino como "variável fundamental" para o Brasil. O compromisso de dar escola a todas as crianças fora manifestado pelo presidente no domingo, em -Brasília, em discurso pela passagem do Dia da Independência. "Não é uma promessa. Não cumpre prometer isso. Cabe um esforço, que não é meu só, não. É de todos nós", concluiu o presidente. O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, vai apresentar ao presidente, em outubro, plano de ação para o governo encarar o desafio da escola para todos, com mapeamento de áreas críticas do país e dos principais entraves que mantém mais de 200 mil crianças longe das escolas. "O presidente pediu que quantificássemos as necessidades financeiras para isso. Muitos desses recursos já estão no orçamento do ministério. Outros, nos estados e municípios. Temos que ver o que será necessário a mais", disse o ministro, prevendo aumento da dotação do MEC para o ensino básico em 1998 - em 97, a previsão é de R$ 1,7 bilhão.