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EcoDesenvolvimento

Fertilizantes usados na cana de açúcar emitem GEE, afirma especialista

Publicado em 13 agosto 2009

Reduzir as emissões dos gases de efeito estufa (GEE), principais causadores do aquecimento global é uma missão de todo o mundo que passa, necessariamente, pela substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia. Nesse quesito, o Brasil tem papel de destaque, devido ao desenvolvimento do etanol a partir da cana de açúcar. O problema é que os fertilizantes usados para acelerar e melhorar a produção do biocombustível podem responder por uma boa dose da própria emissão de GEE.

"Quando usamos a cana-de-açúcar para produzir biocombustível temos que avaliar o impacto dessa cultura no balanço de GEE. O nitrogênio entra nessa equação porque ao penetrar no solo, por meio de reações microbiológicas, ele provoca a liberação de pequenas quantidades de óxido nitroso, um importante GEE", explicou à Agência Fapesp Heitor Cantarella, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), em Campinas (SP), e especialista em fertilidade do solo e adubação.

Para Cantarella, que também é um dos coordenadores do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), o papel do uso dos fertilizantes nas emissões de GEE precisará de estudos aprofundados a fim de que se possa compreender o balanço ambiental da cultura canavieira. Segundo o pesquisador, a intensidade do efeito estufa provocado por cada molécula de óxido nitroso é quase 300 vezes maior do que aquele causado por uma molécula de dióxido de carbono.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que cerca de 1% do fertilizante nitrogenado utilizado em plantações acaba sendo enviado à atmosfera na forma de óxido nitroso. "Mas é importante observar que os números do IPCC são gerais. Existem poucas avaliações sobre a produção do óxido nitroso aplicado à cultura de cana-de-açúcar. É preciso medir, nas condições de produção da cana, qual é a real contribuição da adubação nitrogenada", ponderou Cantarella.

Desafios da equação

O uso de fertilizantes na cultura de cana-de-açúcar costuma ser eficiente. Com a mesma quantidade de adubo utilizada em outras culturas, a cana tem uma produção muito maior de biomassa. "Ainda assim, a cultura de cana-de-açúcar, por sua extensão, responde por uma parcela de 13% a 17% de todo o fertilizante utilizado na agricultura brasileira", observou Cantarella. Por outro lado, a adubação ficou mais exposta com as mudanças tecnológicas recentes, sobretudo com o aumento das áreas de colheita mecanizada, o que facilitaria a emissão dos GEE por meio desses resíduos.

"Com o aumento das áreas com colheita mecanizada, temos uma grande quantidade de palha na superfície do solo. Isso dificulta a incorporação de fertilizantes, que muitas vezes são deixados expostos. E um dos principais fertilizantes nitrogenados usados nessa cultura, a ureia, está sujeito a grandes perdas por volatilização", alertou Cantarella. Uma das soluções possíveis para o problema, segundo o pesquisador, seria o uso de uma fonte diferente da ureia. "Mas esse tipo de alternativa é mais cara e menos abundante", ponderou.

Outras possíveis soluções, de acordo com o especialista, seriam:

• A incorporação mecânica dos fertilizantes;

• O uso de aditivos que reduzissem perdas;

• Inoculação de microorganismos mais eficientes;

• Seleção de variedades de cana de açúcar que respondam melhor ao processo.

Cantarella participou, na terça-feira, 11 de agosto, do workshop Tecnologias em biocombustíveis e suas implicações no uso da água e da terra, que está sendo realizado em Atibaia (SP). O evento foi promovido pelo Bioen em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Biotecnologia para o Bioetanol.

*Com informações da Agência Fapesp