Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Ferrovias e o futuro de Campinas

Publicado em 02 maio 2007

Por Prof. Dr. Luiz Cláudio Bittencourt

As ferrovias paulistas estão em processo de sucateamento e saques desde os anos sessenta, quando as políticas públicas para a área de transportes focalizaram suas atenções exclusivamente no transporte rodoviário, voltado para montagem do parque industrial rodoviário que conhecemos hoje. Esse processo continua, infelizmente...
Ferrovias em Campinas nos remete à noção de significativo parque industrial, base para as transformações pré-industriais paulistas, e a conseqüente remodelação urbana e urbanística de cerca de 90% das cidades neste território. Mudou o padrão tecnológico e o modo de vida urbano, pois até este momento as cidades eram feitas de terra, madeira e pedra, além de depender de escravos para o seu funcionamento.
A ferrovia trouxe o ferro para as ferramentas e para a arquitetura, diminuiu as distâncias, possibilitando a imigração de trabalhadores livres, acostumados ao padrão de civilização europeu. Esta transformação social e econômica possibilita avanços qualitativos surpreendentes para as pequenas e grandes cidades.
As pessoas passam a se organizar em grupos sociais para a política, trabalho, diversão e estudos. Algo semelhante, mas restrito, já havia ocorrido com as cidades mineiras no século 18. Se as cidades mineiras possibilitaram a "criação do circuito mercantil interno à colônia", as ferrovias com seus parques industriais viabilizaram a formação de capital financeiro, organizações sociais, transformações tecnológicas e espaciais, convergindo para estabelecer os primeiros aspectos da diversidade característica do modo de vida urbano da cidade industrial.
Quando nos impressionamos com os saques que estão ocorrendo sobre esse patrimônio, precisamos lembrar que esta hecatombe já vem há mais de três décadas, fato que distancia nossa percepção sobre o tamanho da destruição e apagamento impostos ao acervo.
Quando Roma foi destruída e saqueada durante a Idade Média, evidenciava espacialmente a nova realidade em que seus edifícios perderam a função, não havia mais sentido fórum, termas, teatro, odeon, anfiteatro, basílica etc. Certo é que esta tragédia custou caro à humanidade que, desde o Renascimento, investe fortunas em levantamentos arqueológicos capazes de explicar parte daquela cultura urbana.
Gastamos cem anos para construir a cultura ferroviária paulista a partir de Campinas, e sua liquidação, em trinta anos, aguarda o último gesto: destruir, saquear e privatizar os pátios, os leitos, os edifícios, as vilas e os bairros. Seria inútil chamar a atenção para a sabedoria acumulada e desperdiçada. Soa a abstração de preservacionista chato, nostálgico.
Antes da morte do então Prefeito Toninho, ele assinou Decreto de Utilidade Pública para preservar este acervo. À época, sua intenção não era nostálgica, mas certamente articular o passado com o futuro da cidade de Campinas. Restaurar o Centro Histórico com qualidade de vida é o norte — aliar presente e passado no desenvolvimento econômico, urbano, social, cultural e ambiental da cidade.
Todos têm a consciência de que este acervo pertence ao povo e ao futuro de Campinas e sua Região Metropolitana. Este é um fato inexorável, não há como pensar em transporte segregado de qualidade em Campinas sem os cinco leitos ferroviários que desenharam a estrutura urbanística da cidade desde a segunda metade do século 19.
Podemos fazê-lo como homens contemporâneos, que dominam seu tempo e lugar com sensibilidade e razão, ou como bárbaros estranhos que ignoram a articulação existencial entre passado, presente e futuro, deixando para seus sucessores o custo desta fatura. O custo deste método já foi observado em relação ao meio ambiente, que hoje suplica cuidados de conservação, preservação e, reparação do que já foi exaustivamente mutilado.
Prof. Dr. Luiz Cláudio Bittencourt é coordenador do Civitas-Campinas, FAU-Ceatec-PUC-Campinas, e CNPq/Fapesp