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Correio Popular

Férias, sol, praia, mar... e perigo

Publicado em 31 dezembro 2006

Por Agência FAPESP

Se você já está de malas prontas rumo ao Litoral, uma dica: não pegue a estrada sem ler essa reportagem. Antes de curtir o mar, é importante saber que nem só de beleza ele é formado. Nele habitam algumas espécies potencialmente perigosas, que estão distribuídas de forma homogênea em toda a costa brasileira, com pequenas variações.
"Temos muitas espécies, mas os animais mais perigosos não são encontrados no Oceano Atlântico e sim nos oceanos Pacífico e Índico. Por outro lado, podemos encontrar parentes próximos de espécies muito perigosas de águas-vivas e peixes no Brasil, cuja real perigo ainda não está estabelecido", alerta o médico e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Vidal Haddad Júnior.
De acordo com o especialista, os animais que podem provocar acidentes nas praias são os ouriços-do-mar, as águas-vivas, caravelas e alguns peixes venenosos como os bagres e, mais raramente, as arraias e os peixes-escorpião. Outros peixes podem causar traumatismos graves, como os tubarões, em situações mais raras.
Haddad Júnior ressalta que, apesar de águas-vivas e caravelas pertencerem a um mesmo grupo de animais (cnidários), as águas-vivas são transparentes e raramente visíveis quando na água, enquanto que as caravelas apresentam uma bolsa púrpura ou avermelhada que flutua acima da linha da água, sendo facilmente visível. "Assim, embora os acidentes por caravelas sejam mais graves, com dor intensa e podendo causar problemas cardiorrespiratórios, a chance de ocorrerem é menor, pois o contato com o animal pode ser evitado", disse. "É importante ainda saber que cnidários permanecem com capacidade de envenenar até cerca de 24 horas fora da água, o que deve ser levado em consideração pela possibilidade de crianças brincarem com cnidários encalhados nas praias", completou.
Segundo o professor da Unesp, as águas-vivas e caravelas aumentam em quantidade durante o Verão, provavelmente devido à época de reprodução dos animais e à chegada de correntes frias de alto-mar no Litoral brasileiro. "Isto faz com que os acidentes aumentem neste período e praticamente não ocorram em outros, afinal, nesta época os turistas também aumentam nas praias. Os acidentes por ouriços-do-mar também aumentam nesta época, mas somente pelo aumento dos turistas descuidados nas praias", disse.
Os peixes que mais provocam acidentes são pequenos bagres atirados nas areias e águas rasas por pescadores amadores (os bagres mantêm o veneno em seus ferrões por mais de 24 horas após sua morte). Deve-se tomar cuidado ainda com arraias, que permanecem enterradas na areia e podem provocar acidentes graves por meio de ferrões presentes na cauda.
Já os mergulhadores estão sujeitos a acidentes com mais espécies de animais perigosos que os banhistas. O peixe mais venenoso da costa brasileira é o peixe-escorpião, que fica camuflado nos fundos rochosos. As arraias também podem causar acidentes, assim como moréias, barracudas e outros peixes grandes. "A regra é olhar, mas não tocar, uma vez que quase todo animal marinho possui alguma forma de defesa. Pescadores amadores se acidentam ao retirar peixes venenosos dos anzóis, como bagres ou peixes-escorpião", explicou Haddad Júnior.

Saiba mais
Como evitar acidentes por águas-vivas?
Nos acidentes por águas-vivas, raramente se vê o animal, que é transparente (a menos que seja uma caravela, que tem uma bolsa flutuadora arroxeada). Quando acidentes deste tipo acontecem, a melhor coisa a se fazer é deixar a água, pois pode acontecer de haver um grande número destes bichos chegando à praia (embora animais isolados possam causar acidentes).O acidente deixa linhas avermelhadas extremamente dolorosas, correspondentes aos tentáculos dos bichos. A dor é instantânea e violenta. Deve-se retirar os tentáculos ainda aderidos sem usar as mãos nuas e se fazer compressas de água do mar gelada ou cold-packs (gelo artificial). Água doce piora o quadro. Banhos com vinagre ajudam a inativar o veneno.
Quais as medidas de primeiros socorros para um acidentado por ouriço-do-mar?
O ouriço-do-mar é recoberto por espinhos. Quando pisado, estes se quebram e penetram profundamente na pele da vítima. O acidentado deve ficar em repouso, evitando pisar sobre a área atingida, o que irá introduzir ainda mais os espinhos. Deve-se procurar atendimento hospitalar para extração dos espinhos, o que pode ser uma tarefa muito difícil, uma vez que estes se fragmentam.
O que ajuda a aliviar a dor?
É importante se ter em mente que todo acidente por peixe tem a dor aliviada por imersão do local em água quente (mas nunca quente demais).
E nos rios e lagos?
Não há necessidade de cuidados especiais em relação aos animais fluviais. Os acidentes ocorrem principalmente em pescadores, por ferroadas de mandis, mordidas de piranhas, dourados, etc. Nos rios da Amazônia, no entanto, existe um pequeno bagre parasita que pode penetrar na uretra humana (o candiru) e só pode ser extraído através de cirurgia, razão pela qual quem nada nos rios evita urinar na água e usa proteção para impedir a entrada do peixinho. Outro perigo são as arraias de água doce, que ferroam pessoas que as pisam em águas rasas.
E os tubarões?
Especialistas recomendam que os banhistas fiquem sempre em grupos e não se afastem demasiadamente da praia. O ideal é ficar onde os pés ainda alcançam o fundo e não nadar nem muito cedo e nem no final da tarde, quando os tubarões ficam mais ativos. Entrar com sangramentos na água também deve ser evitado, assim como usar objetos de adorno muito brilhantes.

Site revela informações sobre a fauna do oceano
O Sistema de Informações Biogeográficas dos Oceanos (Obis) acaba de consolidar um serviço muito útil aos pesquisadores brasileiros e aos curiosos em geral: o site do Obis Brasil — Atlântico Sudoeste Tropical e Subtropical, que disponibiliza, em português e gratuitamente, 37 mil registros sobre a vida marinha no país. O Obis, uma rede de dados georreferenciados sobre diversidade, distribuição e abundância da vida nos oceanos, é um dos principais componentes do projeto internacional Censo da Vida Marinha, que reúne cerca de 1,7 mil pesquisadores em mais de 70 países. As informações disponibilizadas pelo Obis são organizadas como um catálogo por denominação científica — espécie, gênero e outras categorias tradicionais de classificação — ou mesmo por nome popular dos organismos. É um sistema de busca gratuito e aberto para consulta, sem restrições. O site pode ser acessado pelo endereço http://obissa.cria.org.br:8080/about/OBIS_Brasil.