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Feno enriquecido extrusado inova na alimentação de cavalos

Publicado em 17 agosto 2009

Por Valéria Dias

Em breve, os criadores de cavalos estabulados não precisarão mais se preocupar com o desperdício de feno ou a busca por um alimento volumoso adequado durante o processo de alimentação desses animais. Uma parceria envolvendo pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP e um grupo de empreendedores possibilitou a criação do feno enriquecido extrusado, um produto totalmente inovador na alimentação de eqüinos.

Foram reunidas, em um só produto, as duas frações usadas tradicionalmente na alimentação desses animais: o volumoso (feno, capim verde, etc.) e a ração (milho, farelo, minerais, etc). Além de não haver desperdício de volumoso, os testes realizados pela equipe do professor Alexandre Augusto de Oliveira Gobesso, do Departamento de Nutrição e Produção Animal da FMVZ, no campus de Pirassununga, indicaram que o feno enriquecido extrusado apresenta viabilidade econômica para produção em larga escala, além de não ter interferido no comportamento alimentar e saúde dos animais.

Gobesso explica que rações completas enriquecidas extrusadas já existem no mercado, mas são direcionadas para outros animais como bovinos e caprinos. "A idéia de desenvolver um produto para cavalos surgiu de um grupo de irmãos empreendedores. Foram eles que tiveram a idéia de desenvolver um processo onde o volumoso não fosse desperdiçado."

"Professor Pardal"

Segundo Gobesso, um dos problemas iniciais foi com a máquina extrusora, pois ela entupia durante a produção do produto enriquecido. "Eles acabaram fazendo uma modificação no maquinário que resolveu o problema. O título de Professor Pardal parece adequado a eles", brinca o professor, lembrando do personagem dos quadrinhos de Walt Disney, famoso por suas invenções. "Toda a idéia do processo de produção do feno enriquecido foi desenvolvida por eles com base em um conhecimento puramente empírico de criação de animais", comenta.

O grupo de irmãos acabou patenteando todo o processo de produção, incluindo a modificação na extrusora. No início de 2008, Gobesso foi procurado pelo grupo. Eles buscavam uma análise técnica, para saber se o produto era seguro e qual era a sua viabilidade de mercado. A equipe do Laboratório de Pesquisa em Alimentação e Fisiologia do Exercício de Equinos da FMVZ apresentou uma planilha de custos para a realização dos testes do produto e o grupo aceitou. O professor desenvolveu então um projeto científico para validar o feno enriquecido e formular a dieta adequada, apontar os ingredientes e as quantidades necessárias, e fazer os testes nos animais.

Os experimentos foram realizados durante 70 dias, em 4 cavalos que passaram por 4 repetições por tratamento, a partir de um modelo estatístico chamado de "quadrado latino". "Usamos 4 animais, mas como eles passam pelos 4 tratamentos, é como se estivéssemos usando 16 cavalos", explica.

Os testes tiveram o objetivo de comparar uma dieta tradicional de excelente qualidade com dois modelos do produto: no primeiro, volumoso composto por feno e gramíneas de baixa qualidade e concentrado a base de milho, farelo de soja e uma mistura mineral. No segundo modelo, havia alteração do volumoso cuja qualidade era alta.

Os resultados apontaram que não houve mudança no comportamento alimentar dos animais: o feno enriquecido extrusado poderia ser usado na dieta dos cavalos, em substituição à dieta tradicional de alta qualidade. "Houve apenas uma diferença em relação a digestibilidade, devido à baixa qualidade do volumoso usado em um dos testes."

Mercado viável

A análise da viabilidade econômica do produto foi feita pelo professor Augusto Hauber Gameiro, do Departamento de Nutrição e Produção Animal da FMVZ, em Pirassununga. Ficou constatado que o preço do feno enriquecido extrusado poderia ser igual ao preço da ração concentrada e de volumoso, girando em torno de R$1,00 o quilo, com a vantagem de não haver desperdício de volumoso.

O professor conta que foi convidado pelo grupo de irmãos para ampliar a parceria Universidade-empresa por meio de um edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) direcionado a apoiar pequenas empresas. "A Fapesp entra com recursos para implantação da empresa e, após 6 anos, as instalações são patrimoniadas para a USP", explica. A previsão, segundo ele, é que este projeto seja implantado em 2010.

De acordo com Gobesso, o grande lucro da USP é o fato de ter sido ela a instituição que validou a qualidade de um produto inovador no mercado mundial. "Já produzimos dois artigos científicos sobre o assunto. Isso traz notoriedade no meio científico, colocando o nome da USP em evidência", destaca.

Para o professor, o projeto é inovador não apenas por oferecer um produto inédito no mundo para alimentação de cavalos, mas também porque foi possível agregar ensino, pesquisa e extensão em um único projeto. "A assessoria técnica a uma empresa (extensão) forneceu suporte para que realizássemos pesquisa de alto nível que, por sua vez, deu suporte para o ensino de graduação e de pós-graduação. Agora precisaremos ensinar aos alunos que é possível sim a produção de um alimento único que reúna as frações concentrado e volumoso para cavalos, o que antes era considerado impossível", aponta o pesquisador.

Mais informações: (19) 3565-4222 ou email gobesso@fmvz.usp.br, com o professor Alexandre Augusto de Oliveira Gobesso