Notícia

O Estado do Paraná

Felinos de estirpe

Publicado em 08 janeiro 2006

Agência FAPESP - A saga dos felídeos sobre a face da Terra começou na Ásia. A primeira grande radiação (ou derivação) moderna desse grupo teria ocorrido há 10,8 milhões de anos, com o surgimento da linhagem Panthera, da qual fazem parte o leão, a onça, os leopardos e o tigre.
Depois disso, os felídeos se espalhariam para os outros continentes. Na América do Sul, chegaram há cerca de 2,3 milhões de anos. Mas essas migrações não foram as únicas, como mostra um artigo publicado nesta sexta-feira (6/1) na revista Science.
"Podemos dizer que o total de dez eventos migratórios, como identificado em nosso estudo, chega a ser até pouco", explica Eduardo Eizirik, professor da Faculdade de Biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). O pesquisador, que também está associado ao Instituto Pró-Carnívoros e ao Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, é um dos autores do artigo.
Depois de muitas lacunas sobre a evolução e as relações filogenéticas dos felídeos ao longo dos tempos, os cientistas podem afirmar que, pelo menos agora, com o novo estudo, existe uma análise consolidada. "Além das informações moleculares, usamos também dados dos fósseis. Com isso, foi possível identificar os principais nós dessa evolução", explica o pesquisador da PUC/RS.
Para chegar à árvore filogenética dos felídeos, os pesquisadores usaram tanto informações do DNA cromossômico dos animais como também dos DNAs mitocondriais. Foram considerados também dados obtidos de fósseis estudados por outros pesquisadores e conseguidos com base na distribuição atual das espécies pelos continentes — com exceção da Antártica e da Oceania, onde os felídeos, carnívoros altamente eficientes, não chegaram.
"Alguns dos mais importantes eventos migratórios coincidem com períodos nos quais o nível do mar estava mais baixo e, por isso, os continentes se encontravam mais próximos", diz Eizirik. Dois desses exemplos foram registrados há 8 milhões de anos (a passagem de uma das linhagens da Ásia para a América Norte pelo estreito de Bering) e há 6,7 milhões de anos (quando uma linhagem retornou à Ásia).
Além de indicar os momentos de derivação dos oito principais grupos de felídeos identificados até hoje, e os locais em que tais separações teriam ocorrido, o estudo, liderado por Stephen O'Brien, da Universidade A&M do Texas, nos Estados Unidos, também conseguiu outros avanços.
"A relação dentro desses grupos principais também ficou mais bem definida. E quatro espécies, que não se sabia onde deveriam ser inseridas, agora têm seus lugares", diz Eizirik, em referência aos gatos marmorado, serval, vermelho-malhado e pallas.
Pelo estudo, a linhagem do gato doméstico surgiu há 6,2 milhões de anos, na Ásia. Das sete espécies que surgiram dentro desse grupo, o Felis catus, do atual gato doméstico, foi o último a aparecer. Além dele, três espécies continuam ligadas à mesma região, enquanto as demais três migraram para a África.