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Fatores socioeconômicos influenciam no combate à tuberculose resistente

Publicado em 07 dezembro 2020

Por Vitória Pierri

O estudo feito por pesquisadores da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP avalia desenvolvimento da doença no estado de São Paulo e mostra que o novo coronavírus surge como um novo marcador da forma resistente de tuberculose

Os doentes de tuberculose multidroga resistente (TB-MDR) têm seus destinos marcados por questões socioeconômicas. Pessoas de baixa renda têm maiores chances de desenvolverem a forma resistente da tuberculose. É o que mostram pesquisadores da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP em uma pesquisa sobre os determinantes da tuberculose multidroga resistente nos municípios paulistas. Agora, para somar ao difícil cenário, a covid-19 surge como um novo marcador de dificuldades àqueles que já lutam contra uma doença infecciosa. Tratamento inadequado ou incompleto também estão no topo da lista de empecilhos para combater a tuberculose.

Pesquisa intitulada Estudo misto dos determinantes da tuberculose multidroga-resistente no estado de São Paulo: Da abordagem bayesiana à percepção dos profissionais de saúde e pacientes surge da curiosidade dos pesquisadores em descobrir fatores associados ou determinantes da tuberculose resistente, bem como verificar as áreas críticas, riscos de disseminação da doença e descobrir se as unidades prisionais contribuem para a condição da tuberculose multidroga resistente (TB-MDR). Já a escolha do estado de São Paulo para o estudo, se deu pelo fato de ser a segunda região no Brasil com mais casos da doença, além do grande número de unidades prisionais.

Assim, a condição do estado motivou pesquisadores do Grupo de Estudos Epidemiológico-Operacional (GEOTB) da EERP, da Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose (REDE-TB) e da Nurse and Allied Professionals da International Union Against Tuberculosis and Lung Disease a buscarem dados científicos para fomentar políticas públicas e ações estratégicas para conter a disseminação da tuberculose resistente devido ao seu tratamento mais difícil, além de acarretar mais custos aos sistemas de saúde e aos pacientes e família.

Para Ricardo Alexandre Arcêncio, coordenador do estudo e professor do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da EERP, “desenvolver um estudo misto tem permitido compreender os desafios enfrentados pelos pacientes em tratamento contra a tuberculose, especialmente aqueles que desenvolveram TB-MDR”. O estudo é fomentado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mesmo sendo uma doença curável, a tuberculose mata um milhão de pessoas todos os anos, segundo o Ministério da Saúde. E, sua forma resistente torna ainda mais longe o seu fim. O bacilo de Koch, causador da doença, cria resistência aos medicamentos de primeira escolha para o tratamento, rifampicina e isoniazida. Assim, a TB-MDR tem duas classificações: pós-primária e adquirida. A primeira se desenvolve em pessoas contaminadas com o bacilo resistente e, nunca antes tratadas para tuberculose. Já a segunda, se desenvolve durante o tratamento da doença, quanto este é inadequado ou incompleto. A alternativa para pacientes de tuberculose multidroga resistente são medicamentos de segunda linha, levofloxacino e moxifloxacino. Os doentes de tuberculose e tuberculose resistente são assistidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o tratamento da infecção.

“Se comparado com o tratamento da tuberculose sensível, o período mínimo de tratamento da TB-MDR varia entre 18 meses, a depender da resistência da cepa, podendo ultrapassar esse período. Por ser um tratamento mais longo, torna-se desafiador a adesão das pessoas acometidas pela TB-MDR ao tratamento. Os efeitos adversos também podem ser um fator determinante para que ocorra a adesão ao tratamento”, afirmam os pesquisadores.

A descoberta de que fatores socioeconômicos são uma das causas da tuberculose multidroga resistente aconteceu na etapa quantitativa do estudo, que avaliou 194 mil fichas de notificação de casos de tuberculose no estado de São Paulo, entre 2006 e 2016. Os dados fornecidos pelo Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac e registrados no TBweb – Sistema de Controle de Pacientes com Tuberculose, informam as principais características sociodemográficas e clínicas dos pacientes. Entre os fatores analisados na primeira fase do estudo, está a qualidade de assistência à saúde das cidades dos participantes. A primeira etapa do projeto foi publicada no periódico Tropical Medicine and International Health e pode ser acessada por aqui.

A importância de cada cidade desempenhar seu papel no combate a TB-MDR é nítida na pesquisa, já que os municípios menos ativos em ações de prevenção e controle da tuberculose, apresentaram maiores chances de desenvolvimento da doença resistente em sua população. “Destaca-se como parâmetros para essa análise, a testagem do HIV em todos os pacientes diagnosticados com a tuberculose e a necessidade de identificar e diagnosticar precocemente os indivíduos sintomáticos”, dizem os pesquisadores.

Municípios paulistas com maior proporção de pessoas com baixa renda também fazem parte da faixa de risco da doença infecciosa mais mortal do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Para os pesquisadores, “a etapa quantitativa da pesquisa trouxe evidências de que o controle e prevenção da tuberculose multidrogas resistente no estado de São Paulo necessita de intervenções amplas” e englobe “os fatores de risco individuais e as próprias condições de vida e de acesso aos serviços de saúde das pessoas”.

Agora, a pesquisa avança na etapa qualitativa, que envolve profissionais de saúde e pacientes de tuberculose. Devido à pandemia do novo coronavírus, que pede o distanciamento social, o contato com os participantes do estudo fica restrito à internet e telefonemas. Com isso, os pesquisadores encontram dificuldades para entrar em contato com os profissionais de saúde, já que muitos estão na linha de frente do combate a covid-19 e, mais ainda, para localizar os pacientes da TB-MDR.

Para os profissionais de saúde entrevistados, informam os pesquisadores, as questões socioeconômicas, etilismo, uso de substâncias ilícitas e não adesão dos pacientes ao tratamento da doença são fatores que explicam a tuberculose multidroga resistente e, agora, a covid-19 se revela outra ameaça ao combate da doença. “A maioria dos pacientes seguia em tratamento diretamente observado e eram supervisionados por estes profissionais da saúde, e agora eles estão realizando o tratamento de forma auto administrada, com apenas um dia de supervisão em Ribeirão Preto”, explicam os pesquisadores. No estudo, o novo coronavírus surge como um “novo marcador da tuberculose multidroga resistente”.