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Boletim Behaviorista

Fatores que afetam o grau de relacionamento de classes de estímulos equivalentes

Publicado em 23 dezembro 2019

Por revistadasrevistas

Nós já falamos sobre o paradigma de equivalência de estímulos em posts anteriores (como aqui (https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2018/09/07/equivalencia-de-estimulos-e-coisa-so-de-humano/) e aqui (https://boletimbehaviorista.wordpress.com/2016/11/17/o-paradigma-de-equivalencia-de-estimulos-precisa-de-ajustes/). Em resumo, o paradigma de equivalência de estímulos é uma maneira de verificar experimentalmente relações chamadas de simbólicas. Assim, após o ensino de duas ou mais relações, testa-se a emergência de relações não diretamente ensinadas, e quando se atesta três propriedades (reflexividade, simetria e transitividade), diz-se que os estímulos de uma classe são equivalentes entre si. Quando dizemos que os estímulos são equivalentes, isso significa que eles são substituíveis em algumas ocasiões, como quando a palavra “sorvete” é utilizada para se referir a um sorvete.

Por ser um tópico bastante estudado na área, e pela sua relevância científica e social (e.g., estudos sobre aquisição de linguagem, estudos sobre preconceito), até o momento, foram investigadas diversas variáveis que afetam a formação e a reorganização de classes de equivalência. Isso é importante, porque auxilia no avanço teórico da área e, consequentemente, na sua aplicação. Por exemplo, uma vez que os estímulos equivalentes são considerados substituíveis uns pelos outros, por implicação, isso significaria que eles seriam igualmente relacionados uns com os outros. Entretanto, descobriu-se que os estímulos podem ser diferencialmente relacionados, apesar de serem considerados equivalentes. Pode parecer um contrassenso, mas vamos pensar um pouco: você pode ter aprendido que as palavras “sério”, “relevante”, notável”, e “influente” são sinônimos da palavra “importante”. Entretanto, em um contexto no qual alguém diz que está com um “problema importante”, nós dificilmente usaríamos a palavra “influente” para nos referir a magnitude deste problema; os outros sinônimos apresentados seriam, portanto, mais equivalentes à palavra “importante” que o termo “influente”.

Um dos fatores que afeta esse relacionamento diferencial entre os estímulos de uma classe de equivalência é a chamada distância nodal, ou seja, o número de nódulos que separam um estímulo de outro que seja equivalente a este. Por exemplo, imagine que a palavra “importante” (estímulo A) foi relacionada a palavra “relevante” (B), que a palavra “relevante”, por sua vez, foi relacionada com a palavra “notável” (C) e, por fim, que esta foi relacionada a palavra “influente” (D). Nesse caso, nós dizemos que, entre o estímulo A e o D, existem dois nódulos. Quanto maior o número de nódulos, menor o grau de relacionamento entre os estímulos, ou seja, menos relacionados eles estão (apesar de serem considerados todos equivalentes).

Outra descoberta relativamente recente se refere à preferência por um ou outro tipo de relação emergente. Imagine que você foi treinado a relacionar A com B, B com C, e assim por diante, formando uma classe com os estímulos A – B – C – D – E – F – G. Em seguida, a experimentadora dá um novo teste, e você percebe que ambos os estímulos de comparação são considerados corretos, com base no seu treino prévio (por exemplo, diante de D1, ter como estímulos de comparação G1 e A1). O interessante desse teste é que uma das relações (D1G1) constitui uma relação transitiva, e a outra (D1A1), de equivalência, mas ambas possuem o mesmo número de nódulos (o número de estímulos entre D e G é dois, assim como entre D e A). Diante de escolhas desse tipo, na qual se avalia a preferência entre uma relação transitiva e outra de equivalência, ambas com o mesmo número de nódulos, os participantes tendem a escolher, com uma maior frequência, as relações transitivas às equivalentes. Assim, infere-se que a força das relações transitivas é maior que a das relações de equivalência, e isso tem sido chamado de “efeito do tipo de relação/tipo relacional”.

Pois bem, o objetivo do estudo conduzido por Leif Albright, Lanny Fields, Kenneth Reeve, Sharon Reeve e April Kisamore, publicado recentemente no periódico The Psychological Record foi verificar se o grau de relacionamento dos estímulos seria afetado pela distância nodal e pelo tipo de relação/tipo relacional em conjunto. Para isso, eles recrutaram 29 participantes, os quais foram expostos a um treino que os ensinava a relacionar os estímulos A – B – C – D – E – F – G – H – I (A com B, depois B com C, C com D, e assim por diante). Os estímulos A, B, F, G, H, e I eram palavras sem sentido, e os estímulos C, D e E eram estímulos familiares (carro, caneca, gato, maçã). Esses estímulos familiares foram utilizados pois existem evidências de que eles facilitam a formação de classes de equivalência, e como as classes a serem formadas eram grandes, isso facilitaria o aprendizado.

Os participantes eram expostos a um treino onde todas as relações (AB, BC, CD, DE, EF, FG, GH, HI) eram treinadas em um bloco, seguidas por treinos com redução do feedback, onde nem todas as tentativas eram consequenciadas, e por fim, por blocos de testes que verificavam se os participantes formariam as classes. Esse tipo de treino no qual todas as relações são treinadas de uma vez é difícil, mesmo com os estímulos familiares auxiliando. Assim, somente oito participantes formaram as classes. Após formarem as classes, eles faziam outro teste. Nesse teste, o estímulo-modelo e os dois estímulos de comparação faziam parte da mesma classe de equivalência, de modo que ambas respostas estariam corretas de acordo com o treino prévio. Em todas as tentativas, modelo e comparação eram separados por um nódulo nas relações de equivalência testadas, enquanto nas relações de transitividade, modelo e comparação eram separados por um, dois, três, quatro ou cinco nódulos (C era o estímulo modelo, e as comparações AE, AF, AG, AH, e AI). Desse modo, os experimentadores poderiam verificar o ponto (o número de nódulos) no qual a preferência por uma relação equivalente era igual a preferência por uma relação transitiva.

Os resultados desse teste de preferência mostraram que relações transitivas de dois nódulos foram igualmente preferidas as relações de equivalência de um nódulo. Adicionalmente, a exposição a esse tipo de teste não alterou o desempenho dos participantes em um teste de relações derivadas dado após os testes de preferência. Apesar de ser uma pesquisa básica, esse tipo de trabalho pode ter implicações práticas importantes, principalmente quando se usa esse paradigma para ensinar linguagem (e.g., planejamento de quais palavras ou sílabas serão relacionadas com quais na fase de treino, entender melhor o desempenho de alguns participantes).

Quer saber mais?

O estudo: Albright, L. K., Fields, L., Reeve, K. F., Reeve, S. A., & Kisamore, A. N. (2019). Relatedness of equivalence class members: Combined effects of nodality and relational type. The Psychological Record. Online first publication. doi: 10.1007/s40732-019-00329-6

Escrito por Táhcita M. Mizael, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e membra do CLiCS – Grupo de pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico. Bolsista FAPESP.

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