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Fármaco brasileiro mostra potencial contratuberculose e cancro

Publicado em 16 agosto 2012

Num artigo recém-publicado na revista Infectious Agents and Cancer, investigadores brasileiros e norte-americanos demonstraram que um fármaco desenvolvido no Brasil e baptizado de P-MAPA é capaz de activar determinados receptores do sistema imunológico e favorecer o combate à tuberculose e ao cancro de bexiga. Estudos anteriores indicaram que a molécula, criada pela rede de pesquisa Farmabrasilis a partir do fungo Aspergillus oryzae, tem acção imunomoduladora, ou seja, estimula o sistema imune a combater diversos tipos de tumores e doenças infecciosas, entre elas malária, leishmaniose visceral e algumas viroses hemorrágicas, avança a Agência FAPESP.

Agora, pela primeira vez, os possíveis mecanismos de acção da droga foram descritos. Testes in vitro com células humanas e experiências em animais revelaram que o P-MAPA activa receptores existentes na membrana celular conhecidos como toll-like. Além disso, em ratos, a droga modificou a expressão da proteína p-53, possivelmente relacionada à regulação dos receptores.

“Os receptores toll-like são capazes de reconhecer fragmentos de vírus e bactérias, além de factores moleculares associados a tumores ou a doenças infecciosas”, explicou Wagner José Fávaro, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No Brasil, e orientador do trabalho de pós-doutorado de Fábio Rodrigues Ferreira Seiva, que teve Bolsa da FAPESP.

Esses receptores podem auxiliar na redução tumoral de duas maneiras: inibindo a formação dos vasos sanguíneos que irrigam a região e recrutando células de defesa para atacar o tumor.

Segundo Fávaro, o P-MAPA – abreviação de agregado polimérico de fosfolinoleato-palmitoleato de magnésio e amónio proteico – actua especificamente sobre os subtipos 2 e 4 dos receptores toll-like. De acordo com a literatura científica, esses subtipos estariam relacionados ao cancro da bexiga.

“Ainda não se sabe com certeza se a resposta desencadeada por eles é favorável ou desfavorável. Podem actuar como reguladores negativos ou positivos da carcinogénese, mas nossos resultados indicam que a activação dos receptores auxiliou na regressão do tumor”, disse Fávaro.

Os experiências foram realizadas em ratos. Os investigadores introduziram directamente na bexiga dos animais o carcinógeno N-metil-N-nitrosoureia (composto N-nitroso) – substância também existente no cigarro. Após oito semanas de exposição, os roedores já apresentavam lesões pré-malignas e malignas na bexiga urinária.

“Esse modelo animal se aproxima muito do que acontece com humanos. fumantes e trabalhadores expostos a determinadas substâncias químicas inalam o N-nitroso e o excretam na urina. O contacto do carcinógeno com o epitélio da bexiga, ao longo do tempo, acaba causando o cancro”, explicou Fávaro.

Os animais foram então tratados por outras oito semanas. O efeito do P-MAPA foi comparado com o da vacina BCG (sigla para Bacillus Calmette-Guerin), usada originalmente na prevenção da tuberculose e considerada actualmente a melhor opção para o controlo do cancro da bexiga.

“O principal tratamento para o cancro do tipo não-músculo invasivo, que apresenta lesões superficiais, consiste em remover cirurgicamente o tumor e aplicar a imunoterapia com a vacina BCG directamente na bexiga”, disse Fávaro.

Descobriu-se na década de 1970 que a BCG induz uma resposta imune massiva, estimulando a produção de células que atacam o tumor. Na experiência, os ratos tratados com a vacina, verificou-se uma redução de 20% a 30% no grau tumoral, mas os animais continuavam a apresentar lesões malignas.

Já no grupo que recebeu o P-MAPA, a redução do grau tumoral foi de 90%. “Os animais deixaram de apresentar lesões malignas e pré-malignas, passando a apresentar apenas lesões inflamatórias”, disse Fávaro.

Outra vantagem do P-MAPA é a baixa ocorrência de efeitos adversos verificada em estudos com diversos tipos de animais. “A BCG é preparada com bacilos atenuados e, portanto, é contra-indicada para pacientes com imunodeficiência”, disse.

Os efeitos colaterais, explicou o investigador, estão presentes em mais de 90% dos pacientes tratados com BCG e vão desde sintomas irritativos leves até reacções alérgicas, instabilidade hemodinâmica e febre persistente. Nesses casos, o tratamento precisa ser suspenso.

“Nos testes com animais, o P-MAPA mostrou resultados mais eficazes e com menores efeitos secundários. Isso indica que pode se tornar um grande aliado no tratamento”, destacou Fávaro.

FONTE: RCMPHARMA