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FARMACÊUTICA - Universidade a caminho do remédio contra Alzheimer

Publicado em 20 setembro 2003

Por Fabiana Pio
Uma molécula inédita, recentemente desenvolvida pela Universidade de Campinas (Unicamp), poderá originar o primeiro medicamento 100% nacional voltado para o tratamento do mal de Alzheimer - doença degenerativa que afeta mais de um milhão de brasileiros. Após dois anos e meio de pesquisa, Ricardo Barreto, juntamente com o professor Carlos Roque Correia, do Laboratório de Síntese de Substância Orgânicas Bioativas (Lassob) do Instituto de Química (IQ), conseguiram chegar a uma molécula que tem forte ação inibidora sobre uma enzima denominada acetilcolinesterase. Os pacientes com Alzheimer apresentam disfunção na atividade dessa enzima causando degradação da molécula acetilcolina, substância natural do sistema nervoso. "Desenvolvemos uma molécula análoga à acetilcolina, que inibe a ação da enzima acetilcolinesterase. Com isso, é possível elevar o nível de acetilcolina nos pacientes com Alzheimer, proporcionado melhor qualidade de vida", diz Barreto, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo o pesquisador, a nova molécula está sendo enviada aos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade de São Paulo (USP), que irão analisar a elevada atividade biológica. "Essa molécula tem grande potencial de tornar-se um medicamento. Ainda nem publicamos no meio científico, pois pretendemos patenteá-la", diz Correia. A molécula será agora submetida a testes in vitro e depois in vivo, em animais. Passando por esses testes, serão realizados os testes pré-clínicos (animais) e os clínicos (pessoas). "As duas últimas fases são as mais caras. Para realizá-las é preciso fechar parcerias com laboratórios. Até chegar no desenvolvimento de um fármaco, são necessários de 10 a 15 anos de pesquisa, que consome em média de US$ 300 milhões a US$ 800 milhões", diz o professor. O mal de Alzheimer afeta as pessoas com mais de 65 anos, que representam 5% da população, e acima de 80 anos, 20% da população mundial. Nos Estados Unidos existem cerca de quatro milhões de pessoas com essa doença, e, no mundo, 18 milhões. "Estima-se que em 2025 irá dobrar o número de pacientes com Alzheimer", diz Barreto. No Brasil, existem três laboratórios que têm medicamentos específicos para o tratamento do Alzheimer: Novartis (Exelon), Reminyl (Janssen-Cilag) e Wieth (Eranz). Segundo a Novartis, a empresa detém 60% do mercado brasileiro. "O tratamento é caro, cada medicamento custa pelo menos R$ 90 e o paciente gasta em média R$ 1 mil para tratá-la", diz Vera Caovilla, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer. Nos Estados Unidos, gasta-se cerca de US$ 100 bilhões por ano para o seu tratamento. No entanto, o Ministério da Saúde regulamentou há cerca de um ano o atendimento de pacientes com a enfermidade no Sistema Único de Saúde (SUS) e criou o Programa de Assistência aos Portadores da Doença de Alzheimer, que garante acesso gratuito ao tratamento e à medicação. Ontem (21/09) foi o Dia Mundial do Mal de Alzheimer.