Notícia

Jornal da USP

FAPESP - Uma fértil união entre academia e empresa

Publicado em 30 março 1998

Com dois programas que financiam quase 60 projetos de pesquisa voltados para o desenvolvimento tecnológico, a Fapesp contribui deforma decisiva para a modernização do setor produtivo paulista. Num processo silencioso mas contínuo e resoluto, o Estado de São Paulo está formando uma sólida base tecnológica para o futuro. Isso se deve, em grande parte, a dois programas financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - a instituição que se tornou modelo internacional na área de fomento à pesquisa científica. Eles são o Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe) e o Programa de Parceria para Inovação Tecnológica (Pite). Lançado no ano passado, o Pipe, financia atualmente 31 projetos voltados para o desenvolvimento tecnológico das pequenas empresas. Esses projetos não são modestos. Ao contrário, relacionam-se a pesquisas de ponta com uma aplicação direta na sociedade. A importância desses projetos pode ser percebida já pelos seus títulos. "Avaliação instrumental da qualidade da carne suína e suas aplicações na indústria da carne", "Equipamento para previsão de doenças fúngicas em vegetais", "Produção do hormônio de crescimento humano pela tecnologia do DNA recombinante" e "Sistema computacional para análise de lesões cutâneas" são alguns dos projetos financiados pelo programa da Fapesp. "Quando lançamos esse programa, muitas pessoas pensaram que não haveria demanda suficiente", afirma o diretor científico da Fapesp, professor José Fernando Perez, acrescentando que foram apresentados nada menos de 80 projetos, dos quais 31 receberam financiamento. "Isso superou as expectativas mais otimistas." Dos 31 projetos aprovados, dez foram solicitados por pesquisadores e empresas de São Paulo, sete de Campinas, três de São Carlos e três de São José dos Campos. As outras cidades contempladas são Barueri, Cajobi, Jundiaí, Juquitiba, Paulínia, Ribeirão Preto, São João da Boa Vista e Suzano. A elas foram dados recursos que chegam a R$ 1,2 milhão, incluindo as bolsas de estudos oferecidas aos pesquisadores. O Pipe tem características próprias que o diferenciam de outros programas de auxílio ao desenvolvimento tecnológico. Ele estabelece que a pesquisa precisa ser realizada pelos pesquisadores dentro da empresa - e não no ambiente acadêmico. "É mais uma forma de fazer com que a iniciativa privada se envolva com a pesquisa", diz Perez. Segundo o programa, a empresa participante não fica obrigada a fornecer recursos financeiros. Os projetos são desenvolvidos em três fases. Na primeira, com até seis meses de duração, são feitas pesquisas sobre a viabilidade técnica dos projetos. Para isso, cada um deles recebe até R$ 50, mil. Se os resultados forem favoráveis, o projeto passa para a segunda fase do programa, que terá duração de 24 meses e concederá até R$ 200 mil para a realização da pesquisa científica ou tecnológica prevista. Já a terceira fase corresponde ao desenvolvimento de novos produtos baseados nos resultados da pesquisa das duas fases anteriores. "A Fapesp não dará apoio financeiro nessa etapa, mas deverá colaborar com a empresa na busca de recursos de outras fontes de financiamento, uma vez comprovados a viabilidade técnica e o potencial de retorno econômico ou social dos projetos", reza o programa. Com o Pipe, a Fapesp tem alguns objetivos em vista. Um deles é ajudar as pequenas empresas a desenvolver pesquisas de impacto comercial ou social. Além de estimular o desenvolvimento de inovações tecnológicas - que sem o seu apoio dificilmente poderiam surgir -, a Fapesp também viabiliza uma maior aplicação prática das pesquisas que financia. Finalmente, o Pipe contribui para formar, no meio empresarial brasileiro, uma tradição em pesquisa desenvolvida pela iniciativa privada. "No Brasil, as empresas são responsáveis por, no máximo, 30% do financiamento de pesquisas", afirma Perez. "Não há uma cultura que valorize a atividade de pesquisa em ambiente empresarial. É isso o que queremos mudar com o Pipe." Parceria para a inovação Perez se entusiasma com o Pipe porque ele tem a clara idéia da importância do programa. Ele lembra que, no mundo contemporâneo regido pela globalização econômica, a inovação tecnológica é fundamental para que uma empresa seja competitiva. Além disso, a pequena empresa - devido a características como agilidade e criatividade - é um lugar privilegiado para o desenvolvimento de novas tecnologias e para a transferência dessas inovações do meio científico para o meio empresarial. "Apesar de serem tão importantes, as pequenas empresas nunca contam com recursos para pesquisas", lamenta Perez. "O Pipe investe contra essa carência." A Fapesp recebe solicitações de financiamento através do Pipe duas vezes por ano: em 30 de junho e em 30 de novembro. A solicitação deverá ser feita sempre por um pesquisador, em parceria com uma empresa. O Pipe é uma espécie de complemento do outro programa da Fapesp voltado para o desenvolvimento tecnológico do Estado, o Programa de Parceria para Inovação Tecnológica (Pite). Enquanto o Pipe está voltado para as pequenas empresas, o Pite tem a intenção de levar as grandes empresas a fazer pesquisa. Atualmente, 27 projetos são realizados através do Pite. Por esse sistema, as empresas também fornecem recursos financeiros - na maioria das vezes, mais vultosos do que as verbas desembolsadas pela Fapesp. Tome-se como exemplo o projeto "Desenvolvimento de aços elétricos", realizado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Nesse caso, a empresa banca R$ 154,5 mil e a Fapesp entra com R$ 132 mil. Outros projetos que contribuirão pura o desenvolvimento tecnológico do Estado e que recebem apoio da Fapesp são, por exemplo, "Implantação de uma rede de telemedicina e de apoio à prática médica cobrindo todo o território nacional" - conduzido pela Unimed e pela USP -, "Desenvolvimento da otimização integrada das unidades de uma refinaria de petróleo" (Petrobrás e USP) e "Produção de soro, toxina e vacinas botulínicas" (Solvay e Instituto Butantan). E mais: "Análise do ciclo de vida de embalagens para o mercado brasileiro" (Fundepag e Ital), "Programa de desenvolvimento e construção de válvulas cardíacas de pericárdio bovino e mecânicas" (Braile e USP), "Projeto e implementação de um revisor gramatical automático para o português" (Itautec-Philco e USP) e "Avaliação do potencial de produção de embriões 'in vitro' de vacas com alto valor genético e infertilidade adquirida" (Gertec e Unesp). No total, o Pite consome recursos da ordem de R$ 8,7 milhões - dos quais R$ 3.3 milhões cabem à Fapesp e R$ 5,3 milhões são fornecidos pelas empresas. Com esse projeto, a Fapesp segue uma tendência mundial, que vê na parceria entre empresas e instituições de pesquisa um dos caminhos mais eficazes para a criação de novas tecnologias. Criado em 1995, o Pite também gerou uma demanda que superou as expectativas da Fapesp. Ao contrário do Pipe, que tem datas específicas para as solicitações de financiamento, o Pite aceita pedidos em qualquer época do ano. As propostas devem incluir uma descrição detalhada do projeto e têm de ser apresentadas por um representante da empresa junto com um pesquisador. Mais informações sobre o Pipe e o Pite podem ser obtidas na Fapesp pelo telefone (011) 838-4000. A Fundação fica na rua Pio XI, 1500, Alto da Lapa, São Paulo (SP), CEP 05468-901. O endereço eletrônico é http://www.fapesp.br.