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Fapesp seleciona 18 projetos em chamada que visa combater novo coronavírus

Publicado em 14 abril 2020

Por Agência FAPESP

Propostas buscam redirecionar fármacos já disponíveis para o tratamento da covid-19, encontrar novos compostos com potencial terapêutico e desenvolver novas alternativas para o diagnóstico. Edital permanecerá aberto até 22 de junho

Até a tarde desta segunda-feira (13/04), 18 auxílios à pesquisa já haviam sido aprovados pela Fapesp no âmbito do edital “Suplementos de Rápida Implementação contra covid-19”, lançado no dia 21 de março para agilizar o financiamento de estudos que ajudem a combater a pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2).

No Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (IQSC-USP), o grupo coordenado pelo pesquisador Carlos Alberto Montanari vai se dedicar ao aprimoramento e à testagem de moléculas com potencial de inibir a ação de enzimas do tipo cisteíno-proteases, essenciais para o ciclo biológico novo coronavírus. Os pesquisadores vão aproveitar a biblioteca de compostos criada no âmbito de um Projeto Temático dedicado a buscar novos fármacos contra o Trypanossoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas. Os ensaios voltados à avaliação do efeito antiviral das moléculas serão feitos no Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP). O grupo pretende ainda usar ferramentas de inteligência artificial com aprendizado de máquinas para selecionar candidatos a serem testados contra o SARS-CoV-2 entre fármacos que estão em fase de ensaio clínico.

Já o grupo coordenado por Cristiane Rodrigues Guzzo Carvalho no ICB-USP trabalha, em parceria com o pesquisador Edison Durigon, no desenvolvimento de um teste rápido para detectar COVID-19. O grupo já conseguiu clonar e produzir em larga escala quatro fragmentos da proteína de superfície (spike protein) do SARS-CoV-2, que comprovaram ser imunogênicos contra o soro de um paciente humano, ou seja, capazes de induzir uma resposta imune.

As proteínas virais produzidas em laboratório estão sendo inoculadas em ratos, coelhos e cabras. O grupo espera ter, em menos de um mês, quantidade de soro suficiente para produzir os primeiros testes rápidos. O esforço de pesquisa também envolve o professor do Instituto de Química (IQ-USP) Shaker Chuck Farah.

Na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o pesquisador Dario Simões Zamboni vai estudar mecanismos envolvidos no intenso processo inflamatório que acomete indivíduos com quadros graves de COVID-19. Por meio da análise de amostras de pacientes e de experimentos com culturas de células, o grupo vai investigar se a resposta de defesa ao SARS-CoV-2 envolve a ativação de um complexo de proteínas conhecido como inflamassoma. O projeto pretende ainda monitorar a ativação do inflamassoma em 60 pacientes internados por SARS-CoV-2 no Hospital das Clínica da FMRP-USP que serão tratados por cloroquina em combinação (ou não) com colchicina, uma droga amplamente usada no tratamento de doenças mediadas porum tipo específico. Zamboni integra a equipe do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) um CEPID da FAPESP.

Investigar a prevalência do novo coronavírus na população de doadores de sangue da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo é uma das metas de um projeto coordenado por Ester Sabino na Faculdade de Medicina (FM) da USP. Com amostras dos indivíduos que testarem positivos para a presença do vírus, o grupo pretende ainda avaliar a viabilidade de produzir soro hiperimune (que contém anticorpos contra o SARS-CoV-2 e poderiam ser usados no tratamento da doença) e de desenvolver um teste capaz de detectar anticorpos contra o vírus. O chamado teste sorológico é considerado ferramenta essencial para estudos epidemiológicos, pois ajuda a definir, por exemplo, a parcela da população que ainda é suscetível ao novo coronavírus.

Glaucius Oliva, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP) e coordenador do CEPID Centro de Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), vai coordenar a busca de antivirais para o tratamento da COVID-19. O objetivo é triar 4 mil compostos ainda sem ação conhecida por um método conhecido como High Content Screening (HCS), usando linhagem de células humanas e isolados virais de pacientes brasileiros. Além disso, os pesquisadores vão avaliar bibliotecas de compostos já aprovados pela FDA (Food and Drug Administration, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos), bibliotecas da organização internacional Medicines for Malaria Ventures (MMV) e várias outras coleções de projetos que estão em desenvolvimento no Estado de São Paulo. Além de identificar novos candidatos a fármacos, o objetivo é orientar o reposicionamento de medicamentos já aprovados para uso em humanos.

O redirecionamento de fármacos já disponíveis também é a meta de um projeto coordenado por Helena Nader no Instituto de Farmacologia e Biologia Molecular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Entre os compostos que serão avaliados está a heparina, com conhecida ação anticoagulante, anti-inflamatória e antiviral. Dados preliminares indicam que a proteína de superfície do SARS-CoV-2, responsável pela infecção de células do hospedeiro, se liga à heparina.

No Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Unifesp, Rodrigo Portes Ureshino vai buscar compostos com ação terapêutica com foco em substâncias com atividade estrogênica (que atuam de modo similar ao hormônio estrógeno) e em inibidores de um processo conhecido como autofagia, pelo qual as células eliminam estruturas disfuncionais e regulam seu funcionamento. O redirecionamento de fármacos disponíveis também é um dos objetivos do grupo.

Já no Hospital das Clínicas (HC) da FM-USP, o médico Heraldo Possolo de Souza vai coordenar quatro subprojetos que serão desenvolvidos com pacientes internados no Serviço de Emergência. O primeiro visa avaliar se marcadores da resposta inflamatória que podem ser medidos no soro sanguíneo podem predizer, isoladamente ou em conjunto, a evolução dos pacientes com síndrome respiratória aguda grave por COVID-19. O segundo procura determinar se a ultrassonografia pulmonar é uma alternativa viável para avaliação da função respiratória nesses pacientes. O terceiro é um ensaio clínico com droga já utilizada em outras situações clínicas e que poderá ser útil na prevenção da falência respiratória nos pacientes com pneumonia por COVID-19. E o quarto terá como foco modelos estatísticos e estocásticos que possam melhorar e orientar o atendimento desses pacientes.

Também no HC-FM-USP, o pesquisador José Carlos Nicolau coordenará um esforço para desenvolver novas técnicas para diagnóstico rápido da doença e para predizer pacientes com propensão a desenvolver quadros graves de COVID-19. O grupo também vai investigar distúrbios na coagulação sanguínea em pacientes internados (leia mais em: agencia.fapesp.br/32846/).

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o professor do Instituto de Biologia (IB) José Luiz Proença Módena coordena uma ampla força-tarefa que envolve diversas unidades da instituição. Entre os objetivos estão avaliar a circulação e a diversidade genética do SARS-CoV-2 em Campinas; buscar biomarcadores que ajudem no diagnóstico rápido ou na predição dos casos fatais; e identificar novos antivirais por meio do reposicionamento de fármacos, triagem computacional de novos compostos e experimentos em culturas celulares (leia mais em agencia.fapesp.br/32861/).

Identificar os mecanismos moleculares envolvidos na infecção por SARS-CoV-2 em culturas de macrófagos (células que compõem a linha de frente do sistema imune), epitélio pulmonar (alvos preferenciais do novo coronavírus) e em dois tipos de células nervosas (neurônios e astrócitos) é o objetivo de um projeto coordenado por Daniel Martins-de-Souza no IB-Unicamp. Para isso, o grupo pretende usar análises de proteômica (conjunto de proteínas expressas em uma amostra biológica) e metabolômica (conjunto de metabólitos encontrados na amostra). Também serão feitos experimentos em modelos animais. O objetivo é identificar novos alvos terapêuticos.

Também no IB-Unicamp, o pesquisador Marcelo Mori vai investigar como o envelhecimento contribui para a infecção pelo SARS-CoV-2. A pesquisa vai combinar análise de dados de pacientes e modelos pré-clínicos com o objetivo de encontrar proteínas e vias de sinalização que possam ser moduladas por fármacos já conhecidos para reverter as alterações induzidas pelo envelhecimento (leia mais em: agencia.fapesp.br/32946/).

O impacto da microbiota intestinal e seus metabólitos na infecção por SARS-Cov-2 é o tema do projeto coordenado por Marco Aurélio Ramirez Vinolo, também do IB-Unicamp. Estudos anteriores do grupo mostraram que os microrganismos do intestino e algumas substâncias por eles secretadas podem proteger o organismo contra infecções respiratórias (leia mais em agencia.fapesp.br/31539/). O grupo pretende conduzir experimentos com camundongos e com linhagens de células humanas infectadas pelo novo coronavírus.

Outro estudo conduzido no IB-Unicamp, sob a coordenação de Pedro Manoel Mendes de Moraes Vieira, visa pesquisar fatores de risco associados à maior gravidade a COVID-19 e mapear vias metabólicas que precisam ser ativadas na resposta imune contra o SARS-CoV-2. O objetivo é identificar novas formas de intervenção terapêutica.

Em um bairro de São José do Rio Preto, um estudo epidemiológico da COVID-19 será conduzido com um grupo de voluntários que já vinha sendo acompanhado no âmbito de um Projeto Temático sobre dengue coordenado por Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). Os participantes serão monitorados quanto ao aparecimento de sintomas relacionados a COVID-19. Também serão acompanhados pacientes hospitalizados no Hospital de Base da Famerp que apresentem suspeita ou confirmação de COVID-19. Amostras serão coletadas para análise de citocinas pró-inflamatórias, possíveis marcadores biológicos que indicam agravamento da doença.

Desenvolver uma metodologia alternativa simples e de baixo custo para diagnóstico de COVID-19 é a meta do projeto coordenado por Ronaldo Censi Faria no Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A proposta é construir uma plataforma que fará uso de materiais de fácil acesso e equipamentos simples e permitirá a análise de diferentes amostras simultaneamente.

Os outros dois projetos selecionados, como já noticiado no dia 03 de abril, serão conduzidos por Licio Augusto Velloso na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e por Marcelo Urbano Ferreira no ICB-USP.

A chamada permanecerá aberta até 22 de junho de 2020 a propostas de pesquisa de curto prazo, como suplementos em auxílios vigentes nas modalidades Projeto Temático, Jovens Pesquisadores, Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) ou Centros de Pesquisa em Engenharia (CPE).

Os projetos deverão redirecionar parte de seu esforço de pesquisa para contribuir de forma significativa ao entendimento e superação do risco representado pelo vírus SARS-Cov-2 e/ou possíveis caminhos para sua gestão ou prevenção.

O valor oferecido no edital é de R$ 10 milhões. A duração dos projetos deve ser de 24 meses. Cada proposta pode solicitar até o valor máximo de R$ 100 mil por ano. Além desse valor, as propostas podem solicitar uma Bolsa de Pós-Doutorado, com duração de até 24 meses. Mais informações em: www.fapesp.br/14082.

Agência Fapesp