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Fapesp obtém primeira receita com invenção que financiou

Publicado em 12 dezembro 2003

Por Silvana Mautone
Pela primeira vez na história, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) recebeu royalties como resultado de uma invenção por ela financiada. O primeiro cheque, de 4 150 reais, foi entregue em abril de 2003. O segundo, de 4 630 reais, em outubro. A invenção que está dando origem a esses recursos não é nenhuma maravilha da biotecnotlogia ou da genética. É uma broca dentária com ponta de diamante artificial, desenvolvida pela empresa Clorovale, de São José dos Campos (SP). Única no mundo, ela elimina o barulhinho desconfortável que incomoda nove entre dez pessoas que sentam na cadeira do dentista. Apesar de mais cara que a broca tradicional custa cerca de 200 reais, ou 20 vezes o preço de uma broca comum -, a invenção dispensa anestesia e dura de 20 a 30 vezes mais que a convencional. Segundo o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez, ao todo, o financiamento da fundação para a Clorovale foi de 146 mil reais e mais 106 mil dólares. Esse empréstimo será pago por meio dos royalties, que equivalem a 4% do faturamento da empresa, depois de descontados os impostos. Vladimir Jesus Trava Airoldi, um dos fundadores da Clorovale, disse que, neste primeiro ano de atuação, a empresa deve encerrar com um faturamento de cerca de 400 mil reais. Para 2004, afirma que não é possível prever qual será o valor, porque dependerá das exportações. Mas com certeza vamos mais que dobrar a receita, diz. Atualmente, a empresa está empenhada em regularizar toda a documentação necessária para exportar o produto. Para vendê-lo nos Estados Unidos, por exemplo, é preciso autorização do Food and Drug Administration (FDA, órgão de inspeção de alimentos e medicamentos). Essas negociações já estão adiantadas com países como os Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Itália, diz. Segundo ele, no final do primeiro semestre de 2004 as exportações já devem estar em curso. Desde 1998, quando foi criado o Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), cerca de 300 empresas receberam financiamento da Fapesp, a exemplo da Clorovale. O problema, segundo o diretor da fundação, é na hora de patentear a invenção. Isso porque o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) leva cerca de oito anos para processar uma solicitação de patente. Esse é um grande gargalo para a inovação tecnológica no Brasil, diz. Ele cita o próprio caso da Clorovale como exemplo. Se uma outra empresa copiar a invenção ou conseguir uma patente similar, vamos ter de contestar na Justiça. É possível provar quem é o autor intelectual verdadeiro, mas isso leva tempo e dinheiro.