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FAPESP: menstruação ocorre cada vez mais cedo entre meninas da Amazônia

Publicado em 13 fevereiro 2006

Por Eduardo Geraque, Agência FAPESP
A idade da menarca, a primeira menstruação, é um indicador bastante sensível, sob vários aspectos. Marco do ciclo reprodutivo feminino, ela retrata também as condições sociais de determinada população. Além do componente genético, as condições sociais e ecológicas são determinantes para que o evento ocorra mais tarde ou mais cedo.
A partir desse pano de fundo, Hilton Silva, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, e Cristina Padez, da Universidade de Coimbra, em Portugal, resolveram investigar vários aspectos do crescimento, desenvolvimento, nutrição e saúde de duas populações caboclas da Amazônia. As comunidades são grupos resultantes da mistura de europeus, africanos e indígenas sul-americanos. Quando a dupla de pesquisadores tratou os dados sobre a idade da menarca entre as populações de Caxiuanã e Ituqui, ambas no Pará surgiram uma importante constatação. Entre 1930 e 1980, a primeira menstruação entre as meninas caiu de 14,5 anos para 12,8 anos. O declínio médio por década foi de 0,237 anos.
"A idade da menarca vem baixando em várias populações do mundo, devido à melhoria de condições nutricionais e socioeconômicas e seu reflexo na saúde das populações", explica Silva à Agência FAPESP. O caso amazônico, entretanto, não pode ser explicado apenas por essa possível melhora nas condições sociais das comunidades.
De um lado, o acesso à saúde melhorou na zona rural amazônica. De outro, as incertezas geradas pelo ambiente também continuam presentes. "Evolutivamente, quanto mais cedo a menarca ocorrer, maior será a chance de a mulher se reproduzir. A primeira menstruação, quando vem mais cedo, favorece a adaptação aos ambientes naturais imprevisíveis, como a Amazônia", explica o antropólogo do Museu Nacional.
Entre os estudos já feitos, a idade média da menarca identificada na população de caboclos amazônicos (12,2 anos) é uma das mais baixas no Brasil. Ela é igual à encontrada nas cidades de Guarulhos e São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e próxima à da cidade do Rio de Janeiro, que é de 12,3 anos.
Mesmo para o contexto latino-americano, a idade é uma das menores. Na Cidade do México, por exemplo, ela é de 12,3 anos, e no Haiti 15,37 anos. "No caso do Brasil, com seu tamanho continental, a variação encontrada entre os vários estudos é explicada pelas questões ambientais, genéticas, sociodemográficas e de acesso à saúde", dizem os autores da pesquisa.
O artigo Secular trends in age at menarche among Caboclo populations from Para, Amazonia, Brazil: 1939-1980 está publicado na edição atual do American Journal of Human Biology. Assinantes podem ler o texto no endereço: www3.interscience.wiley.com/cgi-bin/jhome/37873