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Gazeta Mercantil

Fapesp mantém aposta no Genoma

Publicado em 05 janeiro 2001

Por Laura Knapp - de São Paulo
O ano começou aquecido para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Nos diversos projetos genoma que financia, anunciou o término do seqüenciamento da cana-de-açúcar e da bactéria Xanthomonas citri e o início de outros. Lançou um novo programa para estimular a colaboração entre universidades empresas. E recebeu o aval da National Science Foundation, dos EUA, para que as instituições acadêmicas paulistas acessem a internet2 mundial. O projeto Xanthomonas citri, bactéria que causa o cancro cítrico e um prejuízo anual da ordem de R$ 110 milhões para a citricultura de São Paulo, foi finalizado antes do prazo. Apesar de ter o dobro do tamanho do genoma da Xylella fastidiosa, que também adoece os laranjais com a praga do amarelinho, foi seqüenciado em apenas 14 meses, quando o outro demorou dois anos. E custou menos de um terço: US$ 4 milhões, contra US$ 13 milhões. Desse total, o Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) entrou com US$ 500 mil para o genoma da Xylella, e US$ 250 mil para o Xanthomonas. O restante foi bancado pela Fapesp. O término do projeto coloca o seqüenciamento brasileiro do Xanthomonas citri como o segundo maior de um patógeno vegetal, e também como o segundo maior genoma bacteriano (o primeiro seria o Xylella) á finalizado no mundo, de acordo com a Fapesp. Os pesquisadores devem concluir em breve o mapa genético de outra praga, o Xanthomonas campestri. A redução do tempo e dos investimentos necessários para mapear novas seqüências de genes explica-se: depois de trabalhar no genoma da Xylella e do câncer humano, os cientistas e as instituições de pesquisa adquiriram expertise de altíssimo nível e os laboratórios trabalham como relógios suíços. Daqui para a frente, a tendência é de que os seqüenciamentos sejam feitos cada vez mais rapidamente e com custo menor. "Estamos no mesmo pata-mar dos melhores pesquisadores americanos", diz Fernando Reinach, um dos idealizadores do primeiro projeto genoma do Brasil. Os pesquisadores também finalizaram o seqüenciamento dos genes expressos - que analisa apenas parte do genoma - da cana-de-açúcar. Segundo o coordenador Paulo Arruda, trata-se do maior projeto acadêmico do gênero realizado com uma planta no mundo. Com 80 mil genes identificados, dos quais um terço é inédito, os pesquisadores começam a trabalhar na aplicação do programa. Já fizeram uma lista junto aos produtores de cana com os 20 tópicos, ou problemas de maior importância a serem resolvidos. O objetivo é chegar, através de modificações genéticas, em variedades que sejam mais resistentes a pragas, que consigam eliminar a absorção de substância tóxicas encontradas no solo, principalmente o alumínio, que se adaptem melhor às mudanças climáticas, ou que combatam doenças fúngicas, como o carvão. Além disso, os especialistas estudarão substâncias secundárias encontradas na cana-de-açúcar, como a trealose, um açúcar que não é calórico. "Além da sacarose e do álcool, podemos adicionar novos valores ao vegetal", afirma Arruda. A cana é uma espécie complexa, em se tratando de genes. Enquanto cada cromossoma humano tem duas cópias, o do vegetal tem oito. A contagem de genes humanos varia de 50 mil a 120 mil (a comunidade científica ainda não chegou a um consenso sobre o total), e a da cana chega a 300 mil genes expressos, diz o pesquisador. Os laboratórios brasileiros gastaram US$ 4,5 milhões para desenhar o mapa da planta, quando esperavam consumir US$ 6,5 milhões. Na fase do genoma aplicado, prevêem investimentos de US$ 1 milhão anuais, por quatro anos consecutivos. Desta vez, os produtores entrarão com metade da conta, dividindo-a com a Fapesp. Na primeira fase, entraram com US$ 500 mil. Outros US$ 2 milhões que "sobraram" do seqüenciamento continuarão a ser aplicados em pesquisa básica. Para estimular uma maior cooperação entre a comunidade acadêmica e o setor empresarial, a Fapesp lançou uma nova linha de financiamento, o Consórcio Setoriais para Inovação Tecnológica (ConSITec). Terá R$ 3 milhões para criação de infra-estrutura e até R$ 10 milhões por ano para vários projetos com custo anual máximo de R$ 200 mil. Além de ter recebido o aval da National Science Foundation, a Fapesp aumentou a velocidade de conexão internacional da rede acadêmica eletrônica do estado (ANSP), agora conectada diretamente a Mia-mi, de 12 para 155 megabits por segundo (Mbps). PROGRAMAS Projetos anunciados pela Fapesp - Início do projeto genoma aplicado da cana-de-açúcar, a fim de pesquisar e desenvolver novas variedades da planta, mais resistentes a pragas e a variações climáticas, por exemplo. - Lançamento do programa Consórcios Setoriais para Inovação Tecnológica (ConSITec), para promover maior interação entre s universidades e empresas. - Conexão à rede internet2, de alta velocidade, em Miami, e ligação direta com a National Science Foundation, em Chicago, e às 180 universidades conectadas a ela. - Integração dos programas de biodiversidade (Biota) brasileiros com aqueles desenvolvidos por americanos e europeus. ESPERANÇAS PARA A LARANJA Ferraz Jr. e Ellen Cordeiro - de Ribeirão Preto e São Paulo Xanthomonas axonopodis p.v. citri, causadora do cancro cítrico, abre espaço para a recuperação de pomares ameaçados pela doença não só no Brasil, como também em outros países - alguns dos quais concorrentes potenciais, como a China, país que disputa com a índia a origem da fruta. Atual-mente, o Brasil é o maior produtor mundial de laranja, com exportações da ordem de 1,1 milhão de toneladas de suco concentrado e congelado, gerando receita da ordem de US$ 1 bilhão ao ano. Segundo o professor Jesus Aparecido Ferro, do Departamento de Tecnologia da Unesp de Jaboticabal e um dos coordenadores do projeto, a análise do Xanthomonas vai permitir detectar o gene portador da proteína que provoca a doença e, através dela, produzir agente bactericida; ou promover o cruzamento de variedades de laranja para torná-la resistente à bactéria. O cancro mudou o aspecto dos pomares de São Paulo, que concentra 80% da laranja destinada à indústria de suco no País. A cerca viva para barrar o vento e o risco de contaminação tornou-se comum, bem como a desinfecção de pessoas e veículos que entram nos laranjais, elevando o custo do produtor. Nesta semana, serão erradicados dez mil pés contaminados na região de Presidente Prudente. *GAZETA MERCANTIL Interior Paulista