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Inovação Unicamp

Fapesp e CNPq financiam por dez anos pesquisa sobre alteração do clima; diretor relata em workshop história da ciência sobre tema

Publicado em 01 setembro 2008

O conhecimento que o mundo dispõe hoje sobre a mudança climática começou a ser construído em 1827. De Fourier, o matemático, que primeiro teve a idéia de calcular a temperatura da Terra; ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o colegiado de cientistas da Organização das Nações Unidas (ONU) que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007, exatos 180 anos e o trabalho de centenas de homens de ciência se passaram. Essa foi a principal observação que o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, fez em sua palestra durante workshop sobre o tema, quando discorreu sobre o assunto "A Fapesp e as Mudanças Climáticas". Brito descreveu o trabalho de cinco dos primeiros cientistas que levantaram a hipótese do aquecimento global. A oficina de trabalho precedeu o lançamento de dois editais que convidam a comunidade científica paulista a organizar projetos de pesquisa sobre o tema. Os melhores serão financiados até o valor de R$ 16 milhões em 2008, alocados em conjunto pela Fapesp e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em dez anos, o programa pretende investir R$ 100 milhões.

"O conhecimento sobre mudanças climáticas é resultado do trabalho de uma comunidade científica grande, que quis estudar a temperatura da Terra por gosto, por curiosidade ou simplesmente para fazer a humanidade ficar mais sábia", disse Brito em sua apresentação. "A contribuição deles ajudou a tornar uma necessidade o estudo das mudanças climáticas", acrescentou. No auditório da fundação que apóia a pesquisa paulista, para a platéia composta principalmente de colegas cientistas, o diretor científico contou com orgulho o que sabe sobre a trajetória e as motivações dos cinco cientistas que assentaram as bases do fenômeno chamado "mudança climática". Fourier, Tyndall, Arrhenius, Callendar e Keeling foram os personagens da divertida história de como pesquisadores foram marcando os limites do tema — que, hoje, predomina na política, na economia, na geografia e na cultura contemporâneas, e é essencial para o desenho do futuro da humanidade.

A palestra

Segundo Brito Cruz, a ciência começou a ter pistas de que havia uma questão a ser pesquisada em relação à temperatura da Terra e à atmosfera quando o matemático francês Jean-Baptiste Joseph Fourier tentou calcular a temperatura do planeta. Aplicando métodos matemáticos que havia desenvolvido para estudar condução de calor, ele chegou a uma temperatura muito baixa, irreal para o planeta. Tentou saber, então, porque seu método havia falhado. Ao tomar conhecimento de um experimento feito por outro pesquisador, que mediu a temperatura ao ar livre e em uma caixa de vidro e as comparou, Fourier percebeu onde errou: no experimento, a temperatura dentro da caixa de vidro era maior. Então, a atmosfera podia funcionar para a Terra como a caixa de vidro! O erro esteve em Fourier, quando calculou a temperatura do planeta, não ter levado em consideração a existência da atmosfera.

O pesquisador seguinte a contribuir para o conhecimento da temperatura da Terra, de acordo com o bem-humorado palestrante, foi o físico inglês John Tyndall. A partir dos dados de Fourier, e com técnicas para medir absorção de luz por gases, ele comprovou, em 1863, que vapor de água absorvia muita luz. Brito mostrou e leu um trecho do principal artigo de Tyndall, em que o inglês escreveu que o vapor de água era mais necessário para a vegetação da Inglaterra do que a roupa para os homens.

Svante August Arrhenius — o químico sueco que descobriu que a velocidade das reações químicas aumenta com o calor — foi o primeiro a se interessar pela relação entre a presença de gás carbônico no ar e a temperatura do solo. Foi em 1896, sete anos antes de ele ganhar o Prêmio Nobel por suas descobertas sobre íons e cátions. Arrhenius relacionou as atividades produtivas nascidas na Revolução Industrial com o aumento da quantidade de gás carbônico na atmosfera. "Ele trouxe a idéia de que as mudanças feitas pelo homem podiam alterar a atmosfera e o balanço de energia", ressaltou Brito. O pesquisador considerou que o aquecimento seria positivo, pois tornaria o clima da Suécia mais agradável. A platéia achou graça.

Já Guy Stewart Callendar tinha um hobby, seguiu o palestrante à interessada audiência. Callendar era engenheiro de máquinas a vapor, não um profissional da ciência. Foi o hobby de Callendar — colecionar dados sobre a temperatura das cidades do mundo — que originou o próximo passo para a detecção e estudo da mudança climática global, na narrativa do diretor científico da Fapesp. "Era uma mania", contou Brito, para despertar mais risadas na platéia. Partindo das idéias de Arrhenius sobre a produção artificial de gás carbônico e sua influência no mundo, Callendar usou suas medidas colecionadas apenas como hobby e estudou a evolução da temperatura em cidades da Europa Ocidental e no Estado de Nova Iorque. O resultado mostrou um aumento na temperatura. Isso em 1938. Ele também desenhou um modelo. Sua conclusão foi de que o aquecimento seria bom para as plantas, pois as faria crescer mais, e melhoraria o clima nas regiões temperadas e mais frias, fornecendo mais calor e energia.

Por fim, a história contada pelo ex-reitor da Unicamp chegou àquele tido como o pioneiro dos estudos sobre o aquecimento global — que Brito mostrou não ser: Charles Keeling, químico norte-americano. Seu trabalho foi fundamental: ele fez as primeiras medições sistemáticas de carbono na atmosfera, a partir de um laboratório construído por ele, com apoio da National Science Foundation (NSF).

"Keeling gostava mesmo era de subir em montanhas. Ele não sabia muito bem o que queria estudar como pesquisador, mas tinha o gosto por ficar ao ar livre. Decidiu, então, fazer medições da quantidade de gás carbônico na atmosfera", contou Brito. "Por gostar de montanhas, pediu à NSF para fazer as medições em um lugar alto e longe das cidades, das indústrias, para não ter interferência nos resultados. O diretor científico aceitou — e como diretor científico aceita muita coisa, então Keeling conseguiu o apoio da NSF", brincou Brito, rindo junto com a platéia — ele, na posição de diretor científico, e a platéia, na posição do pesquisador norte-americano.

Keeling montou seu centro de estudos sobre gás carbônico na ilha vulcânica de Mauna Loa, no Havaí, continuou o palestrante, provocando mais risos na platéia. Colocar os equipamentos em uma montanha, aliando o montanhismo a seu interesse, foi algo que Keeling admitiu em suas memórias, segundo as leituras do diretor científico da Fapesp. O químico iniciou as medições nesse observatório em 1958. Os gráficos que saíram dos equipamentos mostraram claramente o aumento da concentração de carbono. Keeling morreu de enfarte, aos 77 anos, em junho de 2005.

Em suma

"O que quero destacar com essa apresentação é que o trabalho em torno do assunto mudanças climáticas é uma construção social", resumiu o diretor científico. "O que queremos com o Programa Fapesp de Pesquisas em Mudanças Climáticas é unir a comunidade científica para que ela trabalhe de forma articulada, troque informações e crie mais conhecimento sobre o tema. E que esse conhecimento nos ajude a lidar com as mudanças climáticas", concluiu Brito. (J.S.)