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Fapesp e a empresa belga Crop Design firmam acordo para analise da função de mil genes da cana-de-açúcar

Publicado em 31 agosto 2001

Evanildo da Silveira escreve para "O Estado de SP": Analisar a função de mil genes da cana-de-açúcar e depois patentear os de interesse comercial. Esse é o principal objetivo de um termo de cooperação científica assinado ontem, em São Paulo, entre o Projeto Genoma Cana-SucEst, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que seqüenciou cerca de 50 mil genes da planta, e a empresa de biotecnologia belga Crop Design. "O um acordo que mostra a maturidade da pesquisa genômica do Brasil", comemorou o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez. Segundo o biólogo Paulo Arruda, coordenador do Projeto SucEst, o acordo prevê a utilização da usina de fenótipos robotizada (TraitMill) da empresa belga para a análise funcional desses mil genes da cana-de-açúcar, selecionados dentre os 50 mil seqüenciados. "A TraitMill é uma linha de montagem para a introdução de genes em plantas", explica Arruda. "Nós entraremos com os genes que seqüenciamos. Eles serão introduzidos no arroz, para que possamos verificar a função de cada um. Essa é uma planta modelo para este tipo de experiência, porque tem um ciclo de vida curto (quatro meses), o que permite a rápida observação dos resultados. O acordo vale por 30 meses, mas esperamos já ter algo de concreto em oito meses." Os genes escolhidos serão os que já se sabe estarem envolvidos com a resistência da planta a doenças, ao estresse hídrico e à seca. "Também vamos selecionar genes que supomos estarem ligados ao metabolismo da cana", explica o bioquímico Jesus Aparecido Ferro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que também participará do projeto. "Genes que possam aumentar o crescimento e a produtividade da planta ou produzir novos açúcares." O interesse da empresa é o arroz. Como as duas plantas pertencem à mesma família, a das gramíneas, muitos genes têm a mesma função nas duas espécies. Os pesquisadores esperam descobrir funções importantes de pelo menos dez genes, que serão patenteados. "Pode parecer pouco, mas neste tipo de pesquisa é um resultado extraordinário", garante Arruda, "é mais ou menos a mesma coisa que ocorre com a descoberta de novos medicamentos. Estuda-se centenas de substâncias para encontrar uma que sirva." O retorno financeiro do acordo virá do licenciamento e dos royalties das patentes do genes. "Pelo termo firmado, teremos direito a 100% do que renderem no Brasil as patentes de genes com funções na cana-de-açúcar e a 50% no exterior", explica Arruda. "Dos genes com funções em outras plantas, como o arroz, receberemos 50% dos lucros obtidos aqui e 7,5% no exterior." Segundo Perez, esses porcentuais foram acertados depois de seis meses de negociação. "Os belgas queriam um teto no que poderíamos receber dos lucros", conta. "Mas conseguimos derrubar isso." Ainda segundo ele, os rendimentos serão divididos entre Fapesp, o pesquisador e a instituição a que pertence. (O Estado de SP, 31/8) JC E-Mail 1865