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Jornal do Brasil

Fapesp cria rede para decifrar vírus

Publicado em 21 dezembro 2000

Por DANIELLE NOGUEIRA
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anuncia hoje um novo projeto de seqüenciamento genético. Até 2004 serão seqüenciados os vírus HIV-1 (tipo de vírus da Aids mais freqüente no Brasil); HCV, que causa a hepatite C; hantavírus, causador de uma síndrome pulmonar; e VRS (Vírus Respiratório Sincicial), que ataca o sistema respiratório. Com o projeto, o diretor-científico da Fapesp, José Fernando Perez, pretende quebrar a dependência em relação aos laboratórios estrangeiros, aos quais o governo paulista recorre em casos de surtos e epidemias. "Quando tivemos um surto de sarampo em São Paulo há dois anos, enviamos a cepa do vírus ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de Atlanta para que sua caracterização genética fosse feita. A resposta só chegou este ano. Com a rede em atividade teremos profissionais capazes de fazer a análise genética dos microorganismos", explica. Laboratórios - A Rede de Diversidade Genética de Vírus reunirá 22 laboratórios, dos quais 17 ainda serão selecionados. O edital será aberto hoje. Os outros cinco, entre eles o Adolfo Lutz e a Fundação Hemocentro Pró-Sangue, centralizarão os trabalhos. Todos os dados serão enviados para o Laboratório Central de Seqüenciamento e Clonagem e o Laboratório de Bioinformática, ambos do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, que serão responsáveis pelo controle de qualidade do projeto, orçado em US$ 8 milhões. Os vírus foram escolhidos por sua diversidade genética e pelas dúvidas sobre o mecanismo de infecção. O HIV, por exemplo, com apenas seis genes, tem mais de cinco subtipos. As constantes mutações do vírus são o principal obstáculo ao desenvolvimento de uma vacina eficaz. No caso da hepatite C, em 30% dos pacientes não é possível identificar as vias de transmissão. Objetivo - Apesar de não existir vacina contra nenhum dos quatro vírus selecionados, o desenvolvimento de imunizantes não é prioridade do programa. "Nosso objetivo é conhecer a diversidade genética dos vírus e criar um mecanismo de resposta rápida em caso de surtos", diz o virologista Paolo Zanotto, da USP, o pesquisador principal. A análise das cepas será possível graças ao convênio com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que cederá amostras de sangue de pacientes da rede pública. "Queremos identificar regiões no DNA dos vírus e relacionar a predominância dessas regiões nos pacientes resistentes a medicamentos, por exemplo. Assim, saberemos orientar melhor o tratamento clínico", conta o epidemiologista Eduardo Massad, coordenador-geral do projeto. Serão 3 mil amostras para o HIV-1 e para o HCV. O número de amostras para os outros dois vírus não foi definido. No caso do hantavírus, os pesquisadores montarão uma unidade móvel de coleta. "O hantavírus é uma doença de transmissão indireta. A contaminação se dá pela urina de ratos. Faremos a coleta de sangue nos próprios animais".